Encontro Trump-Xi gera preocupações brasileiras sobre concessões comerciais na China

Se os presidentes chegarem a acordo, isso poderia nos prejudicar
A preocupação brasileira expressa por especialista que acompanha conversas com diplomatas chineses em Xangai.
Mark

Por que o Brasil está tão preocupado com este encontro? Não é um assunto entre EUA e China?

Mimi

É, mas o Brasil vende muito para a China — especialmente produtos agrícolas. Se Trump e Xi chegarem a um acordo que abra espaço para produtos americanos concorrentes, as exportações brasileiras sofrem.

Luke

Mas ninguém sabe se isso vai acontecer, certo? Os especialistas estão especulando sobre um risco possível, não sobre algo confirmado.

Mimi

Verdade. É mais uma preocupação que circula entre diplomatas e empresários. Não há indicação concreta de que isso esteja sendo negociado.

Mark

E quanto às outras questões — Taiwan, direitos humanos? Trump vai pressionar?

Mimi

Os especialistas acham improvável. A China estabeleceu linhas vermelhas bem claras, e Trump provavelmente não quer romper essas barreiras.

Luke

Mas Trump é imprevisível. Ninguém pode garantir que ele vai respeitar essas linhas.

Mimi

Justo. Mas os analistas consultados acreditam que ele não vai querer uma ruptura total. Vai manter a neutralidade ambígua em relação a Taiwan.

Mark

E quanto à inteligência artificial? Isso é um ponto de conflito real?

Mimi

É, mas é também o mais opaco. Ambos competem acirradamante, então é difícil saber o que vão discutir ou se vão chegar a algum acordo.

Luke

Então basicamente ninguém sabe o que vai sair deste encontro, exceto que provavelmente não será nada espetacular.

Mimi

Exatamente. Os especialistas esperam estabilidade e talvez um adiamento de tarifas. Mas não grandes anúncios.

Mark

E o Brasil fica esperando para ver se vai ser prejudicado ou não.

Mimi

Isso mesmo.

  • Primeira visita de um presidente chinês à Casa Branca em dez anos
  • Encontro ocorre em trégua da guerra tarifária com ameaças de impostos superiores a 100%
  • Brasil teme concessões comerciais chinesas aos EUA em produtos agrícolas
  • Comércio bilateral EUA-China é de aproximadamente 30 bilhões de reais, incluindo 200 aviões Boeing

É a primeira visita de um presidente chinês à Casa Branca em dez anos, ocorrendo em trégua da guerra tarifária entre EUA e China. Brasil teme que acordo comercial sino-americano abra espaço para produtos agrícolas americanos concorrentes, prejudicando suas exportações para a China.

Especialistas analisam encontro entre Trump e Xi Jinping na Casa Branca, alertando para riscos de concessões comerciais chinesas aos EUA que prejudicariam exportações agrícolas brasileiras.

Pela primeira vez em uma década, um presidente chinês cruza os portões da Casa Branca. Xi Jinping chega a Washington em um momento delicado: a trégua na guerra tarifária que os Estados Unidos desencadearam no ano anterior ainda é frágil, com ameaças de impostos superiores a 100% pairando sobre ambos os lados. O encontro entre as duas maiores potências mundiais é observado com atenção em capitais por todo o planeta, porque a estabilidade entre elas reverbera na geopolítica global. Mas em Brasília e nos corredores do agronegócio brasileiro, há uma inquietação específica: a possibilidade de que a China negocie concessões comerciais com os americanos, abrindo espaço para produtos agrícolas dos EUA que competem diretamente com as exportações brasileiras.

Carlos Frederico de Souza Coelho, professor de Relações Internacionais na PUC-Rio e na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, está na China acompanhando um grupo de estudantes quando essa preocupação emerge nas conversas que mantém com empresários, intelectuais e diplomatas em Xangai. O risco, segundo ele, é claro: se Xi e Trump chegarem a algum acordo, o Brasil pode ser prejudicado. Mesmo que a relação sino-brasileira seja sólida, qualquer abertura para produtos americanos concorrentes representa uma ameaça às vendas brasileiras. Há também uma segunda preocupação que circula entre os interlocutores chineses — a proximidade das eleições na América Latina e o deslocamento político da região para a direita. O Brasil, como líder regional, é visto como referência, e há temor de que mudanças nas relações políticas, na posição brasileira dentro do Brics e até em visitas diplomáticas possam resultar dessa reconfiguração geopolítica.

Larissa Wachholz, sócia da Vallya Participações e coordenadora do Programa Ásia do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, é mais contida nas expectativas. Ela não prevê grandes anúncios saindo deste encontro, especialmente porque Trump esteve na China há pouco tempo. O resultado mais provável, em sua avaliação, seria simplesmente a manutenção da estabilidade nas relações geopolíticas entre os dois países.

Antes da chegada de Xi a Washington, o embaixador chinês nos Estados Unidos, Xie Feng, publicou um artigo no Diário do Povo — jornal oficial do Partido Comunista Chinês — estabelecendo quatro linhas vermelhas que os americanos não podem ultrapassar: a soberania, segurança e interesses de desenvolvimento da China; a questão de Taiwan; democracia e direitos humanos; e o direito ao desenvolvimento. Roberto Dumas, professor de economia chinesa no Insper, acredita que Trump não tentará romper essas barreiras. Dumas não espera que os Estados Unidos abandonem sua postura de neutralidade ambígua em relação a Taiwan — continuarão vendendo armas para a ilha, mas não pedirão sua independência. Também não antecipa pressão americana sobre questões trabalhistas ou direitos humanos em regiões sensíveis como Tibete e Xinjiang.

O foco real do encontro, segundo Dumas, será o comércio bilateral de aproximadamente 30 bilhões de reais, que inclui 200 aviões Boeing em produção, agronegócio e provavelmente resultará em um novo adiamento de tarifas. A inteligência artificial está na agenda, mas é difícil prever como será tratada, já que ambos os países competem intensamente nessa área. Dumas aponta que o verdadeiro ponto de negociação pode ser o impasse sobre terras raras e chips de alta tecnologia. Quando Joe Biden implementou restrições de direitos de propriedade intelectual que proibiram a venda de chips avançados para o mercado chinês, a China respondeu bloqueando a exportação de terras raras — material essencial para a indústria americana. Essas concessões mútuas devem ser negociadas, embora Dumas não espere um resultado transformador como aquele que marcou o encontro histórico entre Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan em 1986, quando Reagan pediu a queda do Muro de Berlim.

Se os presidentes Xi e Trump encontrarem algum nível de acordo, isso poderia nos prejudicar, porque, por mais que Brasil e China tenham uma relação especial, abre-se espaço para a exportação americana de algum produto que seja concorrente ao brasileiro
— Carlos Frederico de Souza Coelho, professor de Relações Internacionais da PUC-Rio
Não acho que Trump vai querer romper essas linhas. Acho muito difícil os Estados Unidos abandonarem a neutralidade ambígua em relação a Taiwan
— Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper
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