Empresas vão receber cinco mil milhões em apoios do próximo quadro comunitário

O investimento público promove o mercado para o setor privado
Souza defende a aposta em investimento público como forma de beneficiar indiretamente as empresas privadas.

No limiar de um novo ciclo europeu, Portugal prepara-se para canalizar cinco mil milhões de euros do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional para as suas empresas, num esforço de renovação económica que se estenderá até 2027. O ministro do Planeamento Nelson Souza revelou a arquitetura deste compromisso, respondendo a críticas da oposição sobre a suposta ausência de uma aposta clara no setor privado. A escolha de onde alocar cada recurso não foi ideológica, mas ditada pelo tempo: projetos rápidos num instrumento, projetos longos noutro — uma geometria de paciência ao serviço da recuperação.

  • A oposição, liderada por Rui Rio, questionou publicamente se o Plano de Recuperação e Resiliência deixava as empresas privadas e exportadoras em segundo plano, acusando o Governo de falta de clareza.
  • O ministro Souza contra-atacou, acusando Rio de uma visão 'redutora e imediatista', e alertou que analisar os instrumentos de forma fragmentada conduz inevitavelmente a conclusões erradas.
  • O Governo distribuiu os recursos entre dois grandes programas segundo critérios práticos: prazos de execução e elegibilidades, não preferências políticas ou ideológicas.
  • O investimento público é defendido como alavanca indispensável — sem ele, argumenta Souza, o setor privado não tem condições de mercado para investir, independentemente dos incentivos oferecidos.
  • A arquitetura completa do novo quadro comunitário permanece em negociação com Bruxelas, o que impede ainda uma avaliação definitiva e alimenta a incerteza no debate político interno.

Nelson Souza, ministro do Planeamento, anunciou que o próximo ciclo de financiamento europeu reservará cerca de cinco mil milhões de euros para as empresas portuguesas — metade dos dez mil milhões do Feder previstos para Portugal no Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027. O anúncio surgiu num podcast do PS e representa uma das apostas centrais do novo quadro comunitário, sucessor do Portugal 2020.

O contexto político da revelação não foi neutro. O líder do PSD, Rui Rio, havia questionado se o Plano de Recuperação e Resiliência — o outro grande instrumento, dotado de 12,9 mil milhões de euros — dedicava recursos suficientes ao setor privado e às empresas exportadoras, lamentando a ausência de uma 'gaveta para as empresas'. Souza respondeu acusando Rio de uma visão 'redutora, apressada e imediatista', insistindo que os dois instrumentos devem ser lidos em conjunto e não de forma isolada.

A lógica de distribuição entre os dois programas foi, segundo o ministro, essencialmente prática: projetos com execução mais rápida foram alocados ao Plano de Recuperação, que tem seis anos para ser executado; projetos de ciclo mais longo ficam para o quadro plurianual, com dez anos de horizonte. Áreas como saúde e habitação — incluindo a construção de 26 mil casas até 2023 — foram canalizadas para o Plano de Recuperação por dificuldades de elegibilidade nos quadros tradicionais.

Souza defendeu ainda o peso do investimento público na proposta, argumentando que este funciona como alavanca para o mercado privado, reduzindo custos de contexto e criando condições para a atividade empresarial. Acusou Rio de um 'preconceito ideológico contra o investimento público', sublinhando que também este deve ser reprodutivo e gerador de retorno. A arquitetura definitiva do novo quadro permanece, porém, em negociação com Bruxelas.

Nelson Souza, ministro do Planeamento, anunciou que o próximo ciclo de financiamento europeu colocará à disposição das empresas portuguesas cerca de cinco mil milhões de euros. A revelação surgiu numa entrevista ao podcast do PS, onde o governante explicou como o país está a estruturar o seu acesso aos fundos comunitários para os próximos sete anos.

O montante provém do Feder, o fundo europeu de desenvolvimento regional que deverá totalizar aproximadamente dez mil milhões de euros para Portugal no Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027. Metade desse valor — os cinco mil milhões — será canalizado especificamente para iniciativas ligadas à competitividade empresarial e aos objetivos de política empresarial. Este novo quadro comunitário sucede ao Portugal 2020 e representa um dos pilares do apoio europeu à recuperação económica portuguesa.

A decisão de Souza em destacar este compromisso com as empresas surge como resposta às críticas do líder da oposição, Rui Rio, que havia questionado se o Plano de Recuperação e Resiliência — o outro grande instrumento de financiamento, com 12,9 mil milhões de euros — dedicava recursos suficientes ao setor privado. Rio, após ser recebido pelo primeiro-ministro António Costa, admitiu que o esboço do plano que lhe foi apresentado parecia ter uma componente empresarial "menos" robusta do que o PSD desejaria, embora tenha adiado uma análise mais profunda. O líder social-democrata observou que não havia "uma gaveta para as empresas" e questionou se havia um objetivo claro de privilegiar o apoio às empresas privadas voltadas para a exportação.

Souza respondeu às críticas acusando Rio de ter uma "visão redutora, apressada e imediatista" da proposta governamental. O ministro sublinhou que os dois instrumentos — o Plano de Recuperação e Resiliência e o novo quadro comunitário — devem ser analisados em conjunto e de forma integrada, não isoladamente. Alertou que fazer "balanços apressados" e examinar os vários componentes de forma fragmentada conduz a "conclusões erradas".

A distribuição de recursos entre os dois programas foi determinada por critérios práticos e não ideológicos. O tempo de execução dos projetos pesou decisivamente nas escolhas do Governo. Os projetos com prazos de execução mais rápidos foram alocados ao Plano de Recuperação e Resiliência, que tem de ser executado em seis anos. Os projetos com ciclos de implementação mais longos ficam para o Quadro Financeiro Plurianual, cuja execução se estenderá por dez anos. Também a questão das elegibilidades influenciou a distribuição: investimentos em áreas como o Serviço Nacional de Saúde ou habitação, que normalmente enfrentam dificuldades em encaixar-se nos critérios dos quadros comunitários tradicionais, foram canalizados para o Plano de Recuperação e Resiliência. O Executivo espera concluir, até 2023, a construção de 26 mil habitações para famílias identificadas com carências habitacionais.

Souza defendeu ainda a opção de dedicar uma fatia significativa do Plano de Recuperação ao investimento público. Argumentou que não é possível pedir ao setor privado que invista mais num contexto económico negativo, por mais incentivos que se ofereçam. O investimento público, explicou, funcionará como alavanca para promover e dinamizar o mercado para o setor privado, reduzindo custos de contexto e facilitando a atividade das empresas. Sublinhou que são as empresas privadas que constroem estradas, caminhos-de-ferro e fornecem soluções digitais. Acusou Rio de ter um "preconceito ideológico contra o investimento público", insistindo que este tipo de investimento também tem de ser "reprodutivo" — ou seja, gerador de retorno económico.

O ministro reconheceu, porém, que a análise completa do novo quadro comunitário ainda não é possível, porque o Governo ainda não divulgou publicamente os seus contornos e delimitações precisas. Esta informação permanece em negociação com Bruxelas, sob a responsabilidade de Souza, que conduz as negociações do novo Quadro Financeiro Plurianual.

Não se podem fazer estes balanços de forma apressada, pegar nos vários 'sacos' e ver, porque dá conclusões erradas
— Nelson Souza, ministro do Planeamento
Não há uma gaveta para as empresas, está dividida por várias
— Rui Rio, líder do PSD
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que o Governo escolheu dividir o dinheiro entre dois programas diferentes em vez de ter um único fundo?

Model

Porque os projetos têm ritmos muito diferentes. Alguns precisam de estar prontos em seis anos — infraestruturas, saúde, habitação. Outros podem levar dez anos a executar-se. Não faz sentido forçar um projeto de dez anos para dentro de um programa de seis.

Inventor

Mas Rui Rio tem razão quando diz que as empresas parecem ficar com menos dinheiro?

Model

Não exatamente. As empresas recebem cinco mil milhões do quadro comunitário. Mas há mais: o investimento público em estradas, ferrovias, soluções digitais — isso tudo beneficia as empresas privadas que constroem e operam essas coisas. É indireto, mas é real.

Inventor

Então o Governo está a contar com o investimento público para puxar o investimento privado?

Model

Precisamente. Quando o setor privado está em dificuldade, não se pode pedir-lhe que invista mais. O Estado tem de criar as condições — infraestruturas, custos mais baixos — para que depois as empresas vejam oportunidades e invistam.

Inventor

E quanto às 26 mil habitações que mencionou?

Model

Isso é um exemplo de um projeto que não cabe bem nos critérios dos fundos comunitários tradicionais. Por isso vai para o Plano de Recuperação. Até 2023, o Governo quer ter essas casas construídas para famílias que precisam.

Inventor

Mas ainda não sabemos exatamente como é que o novo quadro vai funcionar?

Model

Não. Souza admitiu que os detalhes ainda estão em negociação com Bruxelas. O que sabemos é que cinco mil milhões vão para as empresas, mas o desenho completo ainda não foi revelado.

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