Empresas usam séries históricas que não refletem a velocidade das mudanças climáticas recentes, dificultando a avaliação real de riscos. Vulnerabilidade é maior em agronegócio, energia e infraestrutura, mas se estende a indústrias e serviços; CVM retirou exigência de relatórios de sustentabilidade em maio.
Empresas tradicionais subestimam riscos climáticos, alerta Climate Ventures
O clima deixou de ser um fator não financeiro
Por que as empresas tradicionais têm tanta dificuldade em incorporar riscos climáticos se os dados já existem?
O problema não é exatamente a falta de dados. É que elas usam séries históricas que suavizam as mudanças rápidas. Quando você analisa 30 anos, uma seca de três anos parece um blip. Mas agora as secas duram mais, vêm mais frequentes.
Mas a Climate Ventures está dizendo que os dados históricos são inadequados. Eles têm um modelo melhor pronto? Ou estão ainda desenvolvendo?
Estão desenvolvendo. Buosi diz que precisa combinar histórico com projeções futuras, mas reconhece que a maioria das empresas ainda não faz isso.
E por que a CVM retirou a exigência de relatórios de sustentabilidade? Isso não piorou tudo?
Sim, em maio tiraram a obrigatoriedade. Agora é voluntário. Mas Buosi sugere que a pressão dos investidores pode compensar — quando o dinheiro quer saber, as empresas respondem.
Quer dizer que a mudança regulatória foi para trás, mas o mercado pode puxar para frente? Isso é especulação ou há evidência de que investidores estão realmente cobrando?
A reportagem não detalha isso. Buosi diz que "pode começar a mudar", o que é mais esperança que confirmação.
E esses negócios sustentáveis que não conseguem crédito — é um problema real ou exagerado?
É real. Contrucci dá exemplos concretos: viveiros de reflorestamento não conseguem seguro. Mas a solução que a Climate Ventures está desenvolvendo pode destravar R$ 10 bilhões.
Espera — eles estão desenvolvendo a solução E reportando sobre o problema? Não há conflito de interesse aí?
É uma boa pergunta. A reportagem não menciona isso. Eles têm interesse em que essa ferramenta seja regulamentada.
As empresas que já estão se adaptando — Inocas, Caaporã — elas são exceção ou tendência?
Parecem ser exceção. São empresas apoiadas pela Climate Ventures, então já estavam predispostas a pensar em clima.
Exatamente. Não sabemos se outras empresas sustentáveis estão fazendo o mesmo, ou se essas duas são casos de sucesso cherry-picked.
Le Pouls
- Climate Ventures alerta que empresas tradicionais subestimam riscos climáticos em avaliações de ativos
- CVM retirou em maio a exigência de publicação de relatórios de sustentabilidade
- Ferramenta de garantia em regulamentação pode destravar R$ 10 bilhões do Fundo Clima
- Inocas e Caaporã revisaram operações para antecipar efeitos climáticos
Empresas usam séries históricas que não refletem a velocidade das mudanças climáticas recentes, dificultando a avaliação real de riscos. Vulnerabilidade é maior em agronegócio, energia e infraestrutura, mas se estende a indústrias e serviços; CVM retirou exigência de relatórios de sustentabilidade em maio.
Empresas de setores tradicionais enfrentam dificuldades para incorporar riscos climáticos em avaliações de ativos e decisões de investimento, segundo a Climate Ventures. O problema inclui uso inadequado de dados históricos e falta de informações confiáveis.
As grandes empresas brasileiras continuam operando como se o clima fosse um problema do futuro distante. Segundo a Climate Ventures, organização que canaliza investimentos para iniciativas sustentáveis, as corporações de setores tradicionais ainda não conseguem incorporar adequadamente o risco das mudanças climáticas em suas decisões de investimento e na avaliação de seus próprios ativos. O problema não é falta de dados — é que os dados que usam contam a história errada.
Maria Eugênia Buosi, diretora de projetos da Climate Ventures, identifica o cerne da questão: as empresas se apoiam em séries históricas de dados climáticos que simplesmente não conseguem capturar a velocidade com que o clima está mudando. Quando você analisa décadas de informação, as alterações bruscas nos padrões de chuva e temperatura que ocorrem em poucos anos acabam se diluindo no meio do caminho. É como tentar entender uma aceleração olhando para a velocidade média de uma viagem inteira. A situação tende a piorar com fenômenos como o El Niño, que aquece as águas do Pacífico e intensifica os impactos climáticos. O que as empresas precisam fazer, segundo Buosi, é combinar esses dados históricos com projeções sobre o comportamento futuro do clima — mas a maioria ainda não faz isso. "Ainda vemos uma dificuldade das empresas de colocar isso dentro dos cálculos de risco e de valoração dos ativos, mas precisa entrar cada vez mais, principalmente em novos projetos", afirma.
A vulnerabilidade é mais óbvia em setores que vivem sob o clima — agronegócio, energia, infraestrutura. Mas não se limita a eles. Indústrias e empresas de serviços também estão expostas, mesmo que não percebam. Parte da resistência em reconhecer isso, segundo Buosi, vem de uma dificuldade psicológica em aceitar que eventos extremos não são anomalias passageiras, mas um novo padrão. Há também um obstáculo prático: falta de dados detalhados, organizados e confiáveis que as empresas possam usar para orientar decisões reais. A CVM, a Comissão de Valores Mobiliários, retirou em maio a exigência de que as empresas publicassem relatórios de sustentabilidade, o que significa que a divulgação de informações sobre exposição climática agora é voluntária. Isso pode começar a mudar conforme investidores e financiadores pressionem mais por transparência — quando o dinheiro quer saber, as empresas tendem a responder.
O que torna a situação ainda mais clara é que o clima deixou de ser um fator não financeiro. Os impactos já estão batendo nos balanços. "São riscos pré-financeiros. Eles vão bater no resultado, vão levar ao aumento do custo operacional, a uma redução de receita", explica Buosi. A Climate Ventures trabalha em projetos para ampliar e organizar essas informações, operando com a premissa de que quando o tema é abordado com rigor técnico e financeiro, o empresariado escuta — porque sente na pele e no bolso.
Mas há um lado oposto dessa moeda. Enquanto empresas tradicionais lutam para incorporar riscos climáticos, negócios nascidos já sob a lógica da sustentabilidade enfrentam um problema diferente: instituições financeiras não sabem como avaliá-los. Daniel Contrucci, cofundador e diretor de informação da Climate Ventures, explica que projetos sustentáveis frequentemente não conseguem atender aos critérios de bancos e seguradoras. "Por serem desconhecidos, um banco ou uma instituição financeira tradicional, ao fazer análise de risco, não tem muitos parâmetros", diz. O resultado é que exigem seguros ou garantias tão altos que inviabilizam o crédito. Um exemplo concreto: viveiros de mudas para projetos de reflorestamento têm dificuldade de acessar seguros.
A Climate Ventures desenvolveu, através da iniciativa Nature Investment Lab, mecanismos de garantia para reduzir a percepção de risco desses negócios e ampliar o acesso a recursos do Fundo Clima. Uma dessas ferramentas está em processo de regulamentação, e a expectativa é destravar cerca de R$ 10 bilhões — o desenho contou com colaboração de especialistas e do BNDES. As empresas inovadoras apoiadas pela organização já começaram a antecipar os efeitos do clima sobre suas operações. A Inocas, que cultiva a palmeira macaúba para recuperar pastagens, revisou sua janela de plantio para períodos de maior segurança hídrica e passou a usar mudas mais resistentes. A Caaporã, que trabalha com pecuária, se preparou para o El Niño ampliando a produção de forrageiras durante a estação chuvosa e estocando milho e sorgo para atravessar períodos de seca. Essas empresas já fazem o que as tradicionais ainda precisam aprender: olhar para o futuro do clima e ajustar o presente.
Citations marquantes
Ainda vemos uma dificuldade das empresas de colocar isso dentro dos cálculos de risco e de valoração dos ativos, mas precisa entrar cada vez mais, principalmente em novos projetos— Maria Eugênia Buosi, diretora de projetos da Climate Ventures
Por serem desconhecidos, um banco ou uma instituição financeira tradicional, ao fazer análise de risco, não tem muitos parâmetros— Daniel Contrucci, cofundador e diretor de informação da Climate Ventures