Michael Klein poderá votar em assembleia de recuperação judicial como credor quirografário, apesar de deter apenas 0,2% das ações da varejista. As empresas Icon Properties e Capital Brasileiro de Empreendimentos Imobiliários possuem créditos relacionados a arbitragem e contratos imobiliários com a Casas Bahia.
Empresas de Michael Klein aparecem como credoras de R$ 63,7 mi na Casas Bahia
Credor sem ações, mas com direito a voto na recuperação
Como alguém que perdeu tanto controle sobre a empresa consegue ainda ter voz na recuperação?
Porque o crédito não depende de ações. Klein tem R$ 63,7 milhões que a Casas Bahia deve às suas empresas — isso o torna credor quirografário, sem garantia real, mas com direito a voto na assembleia.
Esses R$ 63,7 milhões vêm de quê, exatamente?
Principalmente de contratos imobiliários. A Icon Properties tem R$ 49,5 milhões em arbitragem e R$ 13,8 milhões em imóveis. A Casas Bahia aluga 158 imóveis de empresas ligadas a Klein — é um negócio que vem de longe.
Desde quando?
Desde 2010, pelo menos. Naquele ano fizeram um acordo que garante indenização por perdas judiciais da era anterior. A Casas Bahia diz que tem R$ 376 milhões a receber da Icon em processos.
Então Klein está ganhando dinheiro com a empresa que não controla mais?
Está recebendo aluguel e arbitragens, sim. Mas também está exposto — se a recuperação não funcionar, esses créditos podem virar pó.
E por que ele não conseguiu manter o controle?
Porque em 2024 a Mapa Capital converteu dívida em ações e tomou 80% da companhia. A participação de Klein caiu de 10% para 0,2%. Ele tentou retomar influência no ano passado, mas não conseguiu.
Qual é o risco real aqui?
Que Klein vote em um plano de recuperação que proteja seus créditos imobiliários, mesmo que não seja o melhor para outros credores. Ele tem incentivos próprios, não alinhados com a saúde geral da varejista.
Il Polso
- Michael Klein é credor de R$ 63,7 milhões via duas empresas (Icon Properties e Capital Brasileiro)
- Casas Bahia protocolou recuperação judicial com dívidas superiores a R$ 17,3 bilhões
- Klein detém 0,2% das ações, mas Mapa Capital controla 80% da varejista
- Acordo de 2010 garante indenizações por processos judiciais da era anterior
Michael Klein poderá votar em assembleia de recuperação judicial como credor quirografário, apesar de deter apenas 0,2% das ações da varejista. As empresas Icon Properties e Capital Brasileiro de Empreendimentos Imobiliários possuem créditos relacionados a arbitragem e contratos imobiliários com a Casas Bahia.
Duas empresas de Michael Klein, herdeiro da Casas Bahia, aparecem como credoras da varejista em recuperação judicial com débitos superiores a R$ 63,7 milhões, permitindo que ele vote no plano de reestruturação.
Michael Klein, herdeiro da família que fundou a Casas Bahia, aparece nos documentos da recuperação judicial da varejista como credor. Duas de suas empresas — a Icon Properties Ltda. e a Capital Brasileiro de Empreendimentos Imobiliários — constam na lista de credores e prestadoras de serviços, com débitos que somam mais de R$ 63,7 milhões. O fato coloca Klein em posição peculiar: embora detenha apenas 0,2% das ações da companhia atualmente, ele poderá votar na assembleia que discutirá o plano de recuperação, já que é credor quirografário, ou seja, possui créditos sem garantia real.
As duas empresas fazem parte do conglomerado Icon Realty Empreendimentos Imobiliários, o braço de negócios de Michael voltado para o mercado imobiliário, com atuação em galpões logísticos e industriais. Sua irmã Eva Klein também é sócia na Icon. Segundo os documentos protocolados, a Icon tem dois débitos: R$ 49,5 milhões relacionados a um processo de arbitragem e R$ 13,8 milhões classificados como "imobiliário". A Capital Brasileiro, por sua vez, possui uma conta de R$ 366,6 mil, também na rubrica imobiliária.
Os números refletem uma relação comercial complexa entre Klein e a varejista. Conforme as informações financeiras da Casas Bahia do segundo trimestre, a companhia e sua subsidiária Móveis Bartira mantêm contratos de aluguel de 158 imóveis espalhados pelo país. Esses contratos de locação geram um passivo de R$ 406 milhões para os próximos anos. Além disso, existe um acordo celebrado em 2010 entre a Casas Bahia e os sócios da Icon que garante indenização por perdas e danos de demandas judiciais originadas durante a gestão dos antigos controladores. Pelo balanço, a varejista tem R$ 376 milhões a receber da Icon em processos judiciais.
O pedido de recuperação judicial foi protocolado no domingo 16 de agosto, revelando dívidas que ultrapassam R$ 17,3 bilhões. A lista de credores inclui mais de 20 mil empresas e pessoas físicas. A situação atual contrasta drasticamente com a posição que Klein ocupava anos atrás. Ele foi o principal acionista da companhia e chegou a ser presidente do conselho da antiga Via Varejo. Até 2020, participava ativamente das decisões administrativas. Sua participação acionária, que era equivalente a 10%, foi diluída após uma conversão de dívida em ações que deu à Mapa Capital o controle da varejista.
No ano passado, quando a Casas Bahia saía de uma recuperação extrajudicial organizada em 2024, Michael tentou retomar sua influência na empresa fundada pelo pai, Samuel Klein, falecido em 2014 aos 91 anos. Os planos não avançaram. A Mapa Capital se tornou acionista majoritária, controlando mais de 80% do negócio. Atualmente, Raphael Oscar Klein, filho de Michael, é conselheiro da companhia, eleito em abril deste ano com mandato válido até agosto de 2028.
Nos últimos anos, Michael e seu irmão mais novo, Saul, disputaram judicial e publicamente pelos valores da herança deixada pelo pai. A varejista, que tentou se manter afastada do conflito, foi arrastada para ele. Em agosto de 2024, um escritório de Michael no mesmo prédio da primeira loja da Casas Bahia, em São Caetano do Sul, foi alvo de mandados de busca e apreensão. Em setembro de 2013, ainda em vida, Samuel transferiu para empresas offshore dos quatro filhos o equivalente a 25,1% de sua participação na Casas Bahia.
Quando consultado sobre o assunto, Michael Klein preferiu não comentar. A Casas Bahia também não respondeu aos questionamentos. O que fica claro é que a recuperação judicial da varejista agora coloca Klein em um papel inesperado: não como acionista majoritário ou controlador, mas como credor com direito a voto em decisões que moldarão o futuro da empresa que sua família criou.
Citazioni salienti
Michael Klein não quis comentar— Michael Klein, quando consultado
A Casas Bahia não respondeu aos questionamentos da reportagem— Casas Bahia