Empresa ligada a Vorcaro repassou R$ 139 mi para firmas suspeitas de elos com PCC e máfia

Conta de canal de passagem para operações sem lastro
O Coaf classificou as operações da Entre Investimentos como suspeitas e indicou funcionamento como intermediária de transferências incompatíveis com sua atividade declarada.
Mark

Como uma empresa que intermediava pagamentos para um filme sobre Bolsonaro acaba repassando R$ 139 milhões para firmas ligadas ao crime organizado?

Mimi

Não é claro que a empresa sabia o destino final dos recursos. O que o Coaf identificou é que ela funcionou como intermediária em operações que, em retrospecto, parecem suspeitas — transferências para empresas investigadas por lavagem de dinheiro e tráfico.

Luke

Mas há uma diferença entre "parece suspeito" e "foi provado". O relatório do Coaf é um alerta, não uma condenação. Essas empresas que receberam os recursos — elas foram condenadas ou apenas estão sob investigação?

Mimi

Estão sob investigação. A Operação Carbono Oculto apura adulteração de combustíveis e vínculos com o PCC. A Operação Mafiusi investiga lavagem de dinheiro internacional.

Mark

E quanto a Daniel Vorcaro? Ele está preso?

Mimi

Sim, está preso. E há mensagens interceptadas mostrando ele sugerindo operações "via Entre" — a empresa de Freixo Júnior.

Luke

Essas mensagens mostram que Vorcaro sabia que a Entre era suspeita, ou apenas que ele usava a empresa para fazer transferências? Porque usar uma empresa para transferências é normal em finanças.

Mimi

É verdade. Mas o contexto importa: a Entre foi classificada pelo Coaf como uma "conta de canal de passagem", e o Banco Central liquidou a EntrePay, outra empresa do grupo, em março.

Mark

Flávio Bolsonaro sabia de tudo isso quando cobrava pagamentos de Vorcaro?

Mimi

Ele confirmou que trocou mensagens cobrando pelos atrasos no financiamento do filme. Não há indicação de que ele soubesse sobre as investigações.

Luke

Então o que temos é: um filme financiado, atrasos nos pagamentos, cobranças legítimas, e depois descobrimos que a empresa intermediária estava fazendo transferências para firmas investigadas. Mas ninguém foi acusado de crime ainda?

Mimi

Correto. São investigações em andamento. O Coaf sinalizou as operações como suspeitas, mas a culpa ainda não foi provada.

  • R$ 139 milhões fluíram da Entre Investimentos para empresas investigadas por vínculos com o PCC e a Ndrangheta italiana, segundo relatório do Coaf.
  • A mesma empresa funcionou como elo entre o Banco Master de Daniel Vorcaro e o financiamento de um filme sobre a campanha presidencial de Bolsonaro em 2018.
  • Operações policiais como a Carbono Oculto e a Mafiusi revelam que parte dos beneficiários das transferências integrava redes de adulteração de combustíveis e lavagem internacional de dinheiro.
  • O Banco Central já liquidou a EntrePay, braço do grupo, e a CVM abriu processo investigativo sobre supostas fraudes no mercado financeiro envolvendo a Entre Investimentos.
  • Vorcaro está preso, Freixo Júnior foi alvo de busca e apreensão, e mensagens interceptadas pela PF sugerem que operações eram deliberadamente canalizadas 'via Entre'.

Entre os fluxos invisíveis do sistema financeiro, um relatório do Coaf ilumina uma teia de transferências que conecta uma empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro a suspeitos do PCC e da máfia italiana — passando pelo financiamento de um filme sobre Bolsonaro. A Entre Investimentos, que movimentou R$ 139 milhões entre 2022 e 2025, emerge como símbolo de como o dinheiro pode atravessar fronteiras legais e criminosas sem deixar rastros imediatos. O caso lembra que, nas sociedades modernas, a opacidade financeira é frequentemente o primeiro escudo do poder.

Um relatório do Coaf revelou que a Entre Investimentos e Participações, empresa próxima ao banqueiro Daniel Vorcaro, transferiu cerca de R$ 139 milhões para firmas investigadas pela Polícia Federal por suspeitas de ligação com o PCC e a máfia italiana Ndrangheta, entre julho de 2022 e dezembro de 2025. A empresa também aparece como intermediária no financiamento do filme 'Dark Horse', produção sobre a campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018, com recursos direcionados ao fundo americano Havengate Development Fund LP — registrado no Texas e com agente legal ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

O senador Flávio Bolsonaro confirmou ter cobrado Vorcaro por pagamentos atrasados à produção cinematográfica. Já as movimentações analisadas pelo Coaf apontam que a Entre Investimentos fez repasses a quatro empresas investigadas na Operação Carbono Oculto, que apura adulteração de combustíveis e vínculos com o PCC, além de uma empresa de pagamentos alvo da Operação Mafiusi, que investiga lavagem de dinheiro envolvendo o crime organizado italiano no Porto de Paranaguá.

O órgão classificou as operações como suspeitas e indicou que a empresa pode ter funcionado como 'conta de canal de passagem'. Seu comandante, Antônio Carlos Freixo Júnior — o 'Mineiro' —, foi alvo da Operação Compliance Zero em janeiro deste ano. Mensagens interceptadas pela PF mostram Vorcaro sugerindo operações 'via Entre', com seu cunhado perguntando se poderia 'pedir pro Minas'. O Banco Central já liquidou a EntrePay, e a CVM investiga a empresa por supostas fraudes no mercado financeiro. O grupo Entre afirmou atuar 'em conformidade com as normas' do setor.

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras revelou que a Entre Investimentos e Participações, empresa usada como intermediária em operações ligadas ao financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, repassou aproximadamente R$ 139 milhões para firmas investigadas pela Polícia Federal por suspeitas de conexão com o PCC e a máfia italiana. Os repasses ocorreram entre julho de 2022 e dezembro de 2025, segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo.

A Entre Investimentos funcionava como intermediadora de operações financeiras relacionadas ao Banco Master, instituição controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. A empresa também viabilizava pagamentos ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos, responsável pelo financiamento do filme "Dark Horse", uma produção sobre a campanha presidencial de Bolsonaro em 2018. Um comprovante de transferência de US$ 2 milhões, conforme reportagem do Intercept Brasil, indica que recursos da Entre Investimentos tinham como destino esse fundo americano. Documentos oficiais dos EUA mostram que o fundo, registrado no Texas, possui como agente legal o escritório de um advogado ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente. Quando procurado, Eduardo Bolsonaro não comentou o caso.

O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, confirmou ter trocado mensagens com Daniel Vorcaro para cobrar pagamentos prometidos à produção cinematográfica. Segundo o parlamentar, o empresário havia firmado compromisso contratual para financiar o filme, mas parcelas estavam em atraso. As movimentações analisadas pelo Coaf mostram que a Entre Investimentos realizou transferências para quatro empresas investigadas na Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal para apurar uma organização criminosa suspeita de adulteração de combustíveis e de vínculos com o Primeiro Comando da Capital. Segundo as investigações, essas empresas integrariam uma rede de contas bancárias criada para dificultar o rastreamento financeiro e burlar mecanismos de fiscalização, com parte delas atuando no mercado ilegal de combustíveis.

O relatório menciona ainda transferências para uma empresa de pagamentos sediada em São Paulo que foi alvo da Operação Mafiusi. Essa investigação apura um suposto esquema internacional de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes do PCC e membros da organização criminosa italiana Ndrangheta no Porto de Paranaguá, no Paraná. O Coaf classificou as operações financeiras envolvendo a Entre Investimentos como suspeitas e indicou que a empresa pode ter funcionado como uma "conta de canal de passagem", com utilização de instrumentos de transferência incompatíveis com a atividade econômica declarada pela companhia.

A Entre Investimentos tem sede próxima à Avenida Faria Lima, em São Paulo, e é comandada pelo empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido no mercado financeiro pelo apelido de "Mineiro". Freixo Júnior também foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, realizada pela Polícia Federal em janeiro deste ano, que cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Daniel Vorcaro. Mensagens interceptadas pela PF e divulgadas pelo Intercept Brasil mostram Vorcaro sugerindo a realização de uma operação "via Entre". Em resposta, Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro e apontado como operador financeiro do grupo, perguntou se poderia "pedir pro Minas", em referência ao apelido de Freixo. Procurado, Antônio Carlos Freixo Júnior não se manifestou.

A Entre Investimentos e o Banco Master também aparecem em um mesmo processo instaurado pela Comissão de Valores Mobiliários para investigar supostas fraudes no mercado financeiro ocorridas em 2023. Nos autos, a empresa é apontada como "intermediária de liquidez" em operações suspeitas do banco, sendo investigada por supostamente conferir aparência de legalidade a investimentos sem lastro financeiro. Em março deste ano, o Banco Central decretou a liquidação da EntrePay, empresa do mesmo grupo da Entre Investimentos, suspeita de atuar como intermediária em operações ligadas a fundos associados ao Banco Master e ao ex-controlador Daniel Vorcaro, que está preso. Em nota, o grupo Entre afirmou que "realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro" e reforçou seu "compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente".

Realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro
— Grupo Entre, em nota
Flávio Bolsonaro confirmou ter trocado mensagens com Daniel Vorcaro para cobrar pagamentos prometidos à produção cinematográfica
— Senador Flávio Bolsonaro
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