Empreendimento de luxo em Florianópolis vira 'pesadelo' com obras paradas desde 2023

Centenas de investidores acumulam prejuízos de até R$ 200 mil cada, incluindo professores, empresários e casais que tiveram economias comprometidas pela paralisação indefinida do empreendimento.
Não tem mais nada no nome deles, todos os bens foram removidos
Investidor descreve o abandono completo do empreendimento e a sensação de ter sido deixado sem proteção legal.
Mark

Por que um empreendimento em uma cidade turística consolidada como Florianópolis chegou a esse ponto de abandono?

Mimi

A resposta está na combinação de fatores: a pandemia cortou o fluxo de vendas, um fundo de investimentos de São Paulo entrou em dificuldades, e quando a empresa tentou pausar por 90 dias, os primeiros investidores já estavam entrando na Justiça. Isso criou um efeito cascata que paralisou tudo.

Mark

Mas por que as pessoas acreditaram nesse modelo de cotas compartilhadas? Parece arriscado.

Mimi

Porque o modelo em si não é novo, e Florianópolis é um destino que atrai investimento. Uma professora de São Paulo não pensa que vai perder R$ 200 mil em uma cidade turística consolidada. A confiança vinha do lugar, não necessariamente da estrutura do negócio.

Mark

E agora, com essa promessa de novo investidor e reestruturação, as pessoas acreditam?

Mimi

Há ceticismo compreensível. Centenas de ações judiciais não desaparecem porque alguém promete uma assembleia nas próximas semanas. Mas também há esperança — alguns já receberam distratos e pagamentos parciais. O que falta é transparência sobre quem é esse novo investidor e qual é realmente o cronograma.

Mark

Qual é o risco maior agora?

Mimi

Que a reestruturação em SPE seja apenas um rearranjo de papéis sem mudança real. Ou que o novo investidor entre com condições que prejudiquem ainda mais os cooperados originais. O Ministério Público está investigando, então há alguma supervisão, mas os investidores já aprenderam a não confiar em promessas.

Mark

Isso afeta a reputação de Florianópolis como destino de investimento?

Mimi

Certamente. Quando centenas de pessoas perdem dezenas de milhares de reais em um projeto que virou símbolo de abandono, a confiança em novos empreendimentos cai. E isso é visível nas redes sociais e fóruns de consumidores — há grupos inteiros de lesados trocando informações e advertências.

  • Projeto previa 350 quartos de hotel, 400 vagas de estacionamento e shopping com 100 lojas na Praia dos Ingleses
  • Obras paralisadas desde junho de 2023
  • Investidores relatam prejuízos de até R$ 200 mil cada
  • Quase 800 ações judiciais contra as empresas responsáveis
  • Ministério Público de Santa Catarina instaurou notícia de fato para apuração

Projeto ambicioso previa 350 quartos de hotel, 400 vagas de estacionamento e shopping com 100 lojas na Praia dos Ingleses, mas estrutura permanece inacabada e abandonada. Compradores de diversos estados relatam perdas significativas após investirem em cotas compartilhadas; empresa alega dificuldades pós-pandemia e problemas com fundo de investimentos.

Complexo de luxo com hotel e shopping em Florianópolis teve obras paralisadas desde junho de 2023, deixando centenas de investidores com prejuízos de até R$ 200 mil. Caso agora é investigado pelo Ministério Público e acumula quase 800 ações judiciais.

Na Praia dos Ingleses, em Florianópolis, existe um canteiro de obras que virou símbolo de uma promessa não cumprida. O que deveria ser um complexo luxuoso com mais de 350 quartos de hotel, 400 vagas de estacionamento e um shopping com 100 lojas permanece hoje como estrutura de concreto inacabada e abandonada, cercada por histórias de investidores que perderam dezenas de milhares de reais.

As obras pararam em junho de 2023, quando o plantão de vendas foi fechado definitivamente. Até lá, centenas de pessoas de diferentes estados haviam comprado cotas compartilhadas ou investido na cooperativa que estruturava o empreendimento. O modelo era atrativo: compradores adquiriam o direito de usar o imóvel em períodos definidos do ano, sem precisar ter a titularidade da propriedade. Para muitos, parecia um investimento seguro em uma cidade turística consolidada. Para outros, tornou-se um pesadelo financeiro.

Flávio Marcelino e sua esposa investiram cerca de R$ 44 mil em duas cotas em 2022, quitando pouco mais de R$ 10 mil antes de perceberem que os trabalhos estavam parados e que não conseguiam mais contato com os responsáveis. O contrato previa entrega para outubro de 2022, com tolerância de até 180 dias. Hoje, anos depois, o casal segue sem respostas. "Ia ser um shopping de frente para o mar", relembra Marcelino, descrevendo a promessa inicial de valorização após o alargamento da praia. "Não tem mais nada no nome deles, todos os bens foram removidos e é um prejuízo enorme para todo mundo que investiu."

Outros casos revelam perdas ainda maiores. Otávio Borba, empresário gaúcho, comprou três cotas no final de 2021 e investiu mais de R$ 21 mil. Janaína de Sousa Alves, professora de São Paulo, adquiriu cinco cotas em 2020 que somam quase R$ 200 mil — uma quantia que representa anos de economia. "Florianópolis é uma cidade muito atrativa", explica ela. "A gente nunca pensou que era uma coisa que não ia dar certo."

A situação escalou para a esfera legal. Segundo consulta ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina, as empresas JC Compra e Venda de Imóveis Ltda e JC Compra e Venda de Imóveis SCP Centrinho dos Ingleses acumulam quase 800 ações judiciais em primeiro e segundo graus, figurando como réus na maioria dos processos. O Procon de Florianópolis registra 11 processos abertos contra os responsáveis. Na última semana, o Ministério Público de Santa Catarina instaurou uma notícia de fato para apurar o atraso na entrega. Além disso, o alvará de construção junto à prefeitura está vencido.

Júlio De David, sócio proprietário da JC Compra e Venda de Imóveis, atribui as dificuldades a problemas pós-pandemia e a um fundo de investimentos de São Paulo que passou por dificuldades. Segundo ele, a empresa imaginava que a obra ficaria parada por cerca de 90 dias, mas ações judiciais iniciadas por investidores complicaram o processo. O plantão foi fechado em junho de 2023, quando a empresa começou a buscar novos investidores no mercado.

Agora, De David afirma que a direção negocia com uma nova empresa investidora para viabilizar a retomada das obras. A proposta prevê alterar a estrutura jurídica do empreendimento: o modelo de cooperativa será substituído por uma Sociedade de Propósito Específico incorporada, sob nova gestão. Segundo o empresário, cerca de 99% do pacote de acordo já está alinhado, e uma assembleia com os cooperados deve ocorrer nas próximas semanas para definir o cronograma oficial de pagamentos e reinício dos trabalhos. A empresa promete que todos os que compraram cotas ou direitos de uso serão ressarcidos, com a opção de continuar no novo modelo de negócio. Investidores que buscam ressarcimento foram orientados a entrar em contato pelo e-mail centrinho@jccompraevenda.com, com promessa de tratamento individual para cada caso.

Ia ser um shopping de frente para o mar. Eles falaram que ia ter um retorno maior ainda, uma valorização maior depois do alargamento da praia. Não tinha mais ninguém trabalhando.
— Flávio Marcelino, investidor
Foram R$ 200 mil que nós perdemos. Florianópolis é uma cidade muito atrativa. A gente nunca pensou que era uma coisa que não ia dar certo.
— Janaína de Sousa Alves, professora de São Paulo
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