R$ 167 bilhões em emendas parlamentares desde 2023 financiam obras em municípios, criando dependência política e tornando prefeitos aliados eleitorais dos deputados e senadores. Pequenos municípios como Curral Velho (PB) e Cutias (AP) recebem R$ 13,6 mil e R$ 24,4 mil por habitante respectivamente, transformando infraestrutura mas concentrando poder nas mãos de prefeitos.
Emendas parlamentares viram principal arma do centrão e transformam prefeitos em cabos eleitorais
Se ele pedir, eu faço até campanha
Por que as emendas parlamentares se tornaram tão centrais para a campanha do centrão?
Porque funcionam. Um deputado ou senador pode mostrar ao eleitor uma escola construída, uma rua asfaltada, um campo de futebol. É concreto, visível, inegável.
Mas isso não é novo. Obras públicas sempre foram usadas politicamente.
Verdade, mas a escala mudou. R$ 167 bilhões desde 2023 é um volume que transforma cidades inteiras.
E o prefeito vira o cabo eleitoral?
Exatamente. Em Curral Velho, os moradores não sabem nem o que é uma emenda parlamentar, mas sabem que votarão em quem o prefeito indicar.
Porque dependem dele para emprego, para as obras, para tudo.
Sim. Em Itaubal, 85% dos empregos formais são da prefeitura. O prefeito controla a economia local.
Então há um risco de captura política?
Há mais que risco. É a realidade. Quando o prefeito de Cutias venceu o grupo ligado a Alcolumbre, o senador parou de enviar dinheiro.
Mas espera. Alcolumbre diz que parou porque aguarda a execução dos recursos já aprovados.
Sim, é o que ele diz. Mas o timing é sugestivo.
E quanto à execução? As cidades conseguem gastar esse dinheiro?
Nem sempre. Em Cutias, apenas 37% das emendas foram pagos até julho. As prefeituras têm dificuldade com requisitos técnicos, licitações, contratação de profissionais.
Então há dinheiro reservado que não sai do papel?
Há. E isso cria frustração. Obras ficam inacabadas, como aquele conjunto habitacional em Cutias que está sendo construído há anos.
O Supremo suspendeu as emendas em 2024?
Sim, exigindo mais transparência e controle. Mas isso desatualizou orçamentos e atrasou ainda mais as obras.
Então o sistema está quebrado e ainda assim funciona politicamente.
Funciona porque as pessoas veem as obras que foram feitas, não as que não foram. E o prefeito fica com o crédito.
O Pulso
- R$ 167 bilhões em emendas parlamentares desde 2023
- Curral Velho (PB) recebeu R$ 13,6 mil por habitante; Cutias (AP) recebeu R$ 24,4 mil
- Em Cutias, apenas 37% das emendas foram pagos até julho; em São Paulo, 89%
- Em Itaubal, 85% dos empregos formais são cargos da prefeitura
R$ 167 bilhões em emendas parlamentares desde 2023 financiam obras em municípios, criando dependência política e tornando prefeitos aliados eleitorais dos deputados e senadores. Pequenos municípios como Curral Velho (PB) e Cutias (AP) recebem R$ 13,6 mil e R$ 24,4 mil por habitante respectivamente, transformando infraestrutura mas concentrando poder nas mãos de prefeitos.
Emendas parlamentares de R$ 167 bilhões desde 2023 tornaram-se principal ativo eleitoral do centrão, transformando prefeitos em cabos eleitorais e gerando obras visíveis nas cidades, mas com denúncias de falta de transparência e dificuldades de execução.
Ao longo de mais de seiscentos quilômetros entre João Pessoa e Curral Velho, na Paraíba, placas azuis marcam a entrada de cada município anunciando as obras realizadas pela prefeitura com dinheiro federal. Quadras de esportes, escolas, ruas asfaltadas, pontes, praças. O que essas placas não dizem é que representam a moeda de troca mais poderosa da política brasileira neste momento: as emendas parlamentares.
Desde 2023, R$ 167 bilhões foram canalizados através desse mecanismo para municípios espalhados pelo país. Deputados e senadores indicam esses recursos, que chegam às prefeituras e se transformam em infraestrutura visível. Mas há um custo político invisível. A Folha visitou três dos cinco municípios que mais receberam emendas por habitante para entender como esse dinheiro remodela não apenas as cidades, mas também o poder local e as campanhas eleitorais.
Curral Velho, na Paraíba, é um exemplo extremo. Com apenas 2.292 habitantes, o município é o quarto maior receptor de emendas do país em termos per capita: R$ 13,6 mil por morador. O prefeito Samuel Carnaúba, do MDB e irmão de um ex-deputado estadual bem relacionado, transformou a cidade. Onde havia ruas de bloquete, agora há asfalto. Uma creche está sendo erguida. Uma unidade de saúde está em licitação. Dez casas populares estão quase prontas. E há o campo de futebol, que os moradores chamam de estádio, com seu gramado verde e fachada imponente destacando-se na paisagem árida do sertão.
Francinaldo da Silva, dono de um pequeno mercado na praça municipal, diz que começou a votar em 1986 e nunca viu alguém fazer tanto pela cidade. Edileusa Pereira, que administra o único restaurante do lugar com cinco mesas, afirma que votaria em quem o prefeito pedisse. Seu negócio vive das marmitas fornecidas aos operários das obras municipais. Quando a Folha visitou Curral Velho no fim de agosto, a campanha eleitoral ainda não tinha chegado formalmente, mas os moradores já sabiam em quem votar. O que não sabiam com clareza era o que era uma emenda parlamentar ou quem as tinha indicado. Nove parlamentares, incluindo o senador Veneziano Vital do Rêgo, do MDB, enviaram recursos para lá. Mas a origem do dinheiro era menos importante que o resultado visível nas ruas.
Em Itaubal, no Amapá, a transformação foi igualmente dramática. O município tem 5.600 habitantes segundo o censo de 2022, mas quase 9.000 eleitores. Recebeu R$ 87 milhões em emendas federais nos últimos quatro anos. Há seis anos, a cidade tinha apenas duas ruas asfaltadas. Quando a Folha visitou em agosto, toda a região central estava pavimentada. A orla do rio Piririm foi reformada. Casas foram construídas. Uma unidade de saúde funciona 24 horas. O próprio prédio da prefeitura é novo. O vice-prefeito Gil Palmeirim credita as obras ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, da União Brasil. Mas há um detalhe perturbador: 93% da população de Itaubal depende do Bolsa Família, o maior índice do país. Dos 718 empregos formais, 85% são cargos da prefeitura. O resto é trabalho informal, principalmente na construção. O prefeito não é apenas um gestor. É o maior empregador, o maior contratante de serviços, o maior distribuidor de oportunidades. Isso o torna um cabo eleitoral extraordinariamente poderoso.
Mas há um problema que as placas nas estradas não mostram. Em Cutias, também no Amapá, o município recebeu R$ 109 milhões em emendas desde 2023, o maior volume per capita do país: R$ 24,4 mil por morador, 57 mil vezes mais do que São Paulo recebeu proporcionalmente. Porém, apenas 37% desse dinheiro foi efetivamente pago até o fim de julho. Em Itaubal, foram 55%. Em São Paulo, 89%. As pequenas cidades têm dificuldade em atender aos requisitos técnicos: planos de trabalho detalhados, licitações adequadas, profissionais especializados. O prefeito de Cutias, Junior Mourão, do PL, explica que um técnico ganha cerca de R$ 3 mil na região. Encontrar um especialista disposto a trabalhar pela prefeitura é quase impossível.
Um conjunto habitacional com 62 casas em Cutias ilustra o problema. Está em construção há anos, com emendas alocadas em 2021 pelo presidente do Senado Alcolumbre. O dono da construtora, Marcelo Montenegro, relata que o projeto feito pela prefeitura tinha erros: localização em terreno de rodovia federal, falta de postes de energia, reboco de tamanho errado. Houve atrasos pela pandemia e pela decisão do Supremo Tribunal Federal em 2024 que suspendeu o pagamento das emendas exigindo mais transparência. O orçamento ficou desatualizado. Montenegro diz que a prefeitura o pressiona para entregar, mas sem garantir que ele receberá pelas mudanças necessárias. Apesar dos atrasos e das críticas, as obras em execução ainda rendem dividendos eleitorais. Mas há outra dinâmica em jogo: desde que o prefeito atual venceu o grupo ligado a Alcolumbre, o senador parou de enviar verbas para Cutias. Sua assessoria diz que aguarda a execução dos recursos já aprovados. A mensagem é clara: emendas são prêmios para aliados, não ferramentas de desenvolvimento neutras.
Citações Notáveis
Comecei a votar em 1986 e nunca vi alguém arrumar tanta coisa como esse prefeito— Francinaldo da Silva, comerciante em Curral Velho
A prefeitura me pressiona para entregar, mas sem dar garantia de que vou receber pelas mudanças no projeto— Marcelo Montenegro, dono da construtora em Cutias