Emendas parlamentares atingem recorde de R$ 165,4 bilhões na legislatura atual, 54% acima do ciclo eleitoral anterior (2019-2022). Recursos criam distorção eleitoral ao vincular voto a benefícios municipais em vez de posicionamento em matérias legislativas, reduzindo renovação esperada.
Emendas parlamentares crescem 54% e blindam deputados contra renovação no Congresso
O voto não passa mais a ser vinculado a como ele vota nas matérias
Por que as emendas cresceram tanto especificamente neste ciclo?
Parte é porque obras de ciclos anteriores estão sendo pagas agora. Mas há também uma aceleração deliberada — em ano eleitoral, liberar dinheiro é liberar votos.
Mas quanto disso é realmente novo gasto versus apenas pagamento de coisas já comprometidas? O empenhado cresceu 28%, o pago cresceu 54%.
Exatamente. Há um atraso estrutural. As obras demoram. Então quando você vê o pico de pagamentos em 2026, parte é de 2023, 2024.
E isso muda como os parlamentares se comportam no Congresso?
Muda completamente. Se você é prefeito e o deputado te deu R$ 50 milhões em obras, você não vota contra ele. Se você é eleitor e viu uma escola ser entregue, você vota nele.
Mas isso não é novo. Emendas sempre foram usadas assim.
Verdade. O que é novo é a escala. R$ 165 bilhões em uma legislatura. Dez vezes o que era gasto em 2015.
E como isso afeta quem quer entrar no Congresso?
Fica quase impossível. Se você é um candidato novo, sem máquina, sem emendas para entregar, compete contra alguém que entregou escolas e estradas.
A Folha diz que a renovação vai cair para 35-40%. Mas quanto disso é por causa de emendas e quanto é por outras razões — fundo eleitoral, redução de candidatos?
Difícil separar. Mas emendas são o motor. Elas financiam as máquinas que financiam as campanhas.
E ninguém consegue parar isso?
Tentaram. Houve campanha contra uma PEC que blindava parlamentares. Não funcionou. As emendas são mais poderosas que a retórica.
El Pulso
- Emendas parlamentares cresceram 54% na legislatura atual, atingindo R$ 165,4 bilhões
- 503 parlamentares autores de emendas concorrem às eleições de 2026, com R$ 62,8 bilhões em pagamentos
- Renovação da Câmara projetada em 35-40%, abaixo da média histórica de 46%
- De janeiro a agosto de 2026, foram liberados R$ 35,2 bilhões, aumento de 21% em relação a 2022
Emendas parlamentares atingem recorde de R$ 165,4 bilhões na legislatura atual, 54% acima do ciclo eleitoral anterior (2019-2022). Recursos criam distorção eleitoral ao vincular voto a benefícios municipais em vez de posicionamento em matérias legislativas, reduzindo renovação esperada.
Pagamento de emendas parlamentares cresceu 54% em relação ao ciclo anterior, atingindo R$ 165,4 bilhões na legislatura atual. O volume de recursos dificulta renovação no Congresso e permite que parlamentares se blindem contra votos impopulares.
Os números chegaram ao recorde em agosto de 2026. Desde o início daquele ano, o governo federal havia liberado R$ 35,2 bilhões em emendas parlamentares — verbas que deputados e senadores incluem no Orçamento para financiar obras e investimentos em seus redutos eleitorais. Era um aumento de 21% comparado ao mesmo período de 2022, quando o país se preparava para aquela eleição. Mas o crescimento mais impressionante vinha de trás: na legislatura inteira, de janeiro de 2023 a agosto de 2026, o volume total de emendas pagas atingiu R$ 165,4 bilhões. Isso representava um salto de 54% em relação ao ciclo anterior, que havia durado três anos e oito meses e consumido R$ 107 bilhões.
Para entender o que isso significava, era preciso recuar alguns anos. Em 2015, durante o governo Dilma, a União havia pago apenas R$ 24,4 bilhões em emendas ao longo de três anos. Agora, em 2026, o país gastava esse valor inteiro em pouco mais de um ano. A trajetória era clara: as emendas haviam se tornado a moeda mais valiosa da política brasileira, e seu crescimento acelerado estava redesenhando como as eleições funcionavam.
As emendas funcionam de forma simples. Um deputado ou senador insere uma verba no Orçamento para financiar uma obra — uma escola, uma estrada, um centro de saúde — em um município onde tem apoio político. Quando a obra é entregue, o parlamentar colhe o crédito. Mas havia uma camada mais profunda nessa dinâmica. Os prefeitos, que dependem desses repasses para reforçar os cofres municipais e melhorar sua própria aprovação, tornavam-se aliados cativos dos parlamentares que os financiavam. O sistema criava uma rede de lealdade que transcendia votações no Congresso. Bruno Bondarovsky, pesquisador da PUC-Rio e gestor da Central das Emendas, descrevia o fenômeno com precisão: o parlamentar deixava de ser visto como legislador e passava a ser visto como um entregador de produtos e serviços. A imagem mudava. O voto deixava de estar vinculado a como o deputado votava nas matérias importantes e passava a estar vinculado ao que ele trazia para a prefeitura.
Essa transformação tinha consequências eleitorais mensuráveis. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar projetava que a renovação da Câmara em 2026 ficaria entre 35% e 40% — abaixo da média histórica de 46%. Neuriberg Dias, analista político que coordenou um estudo sobre as eleições para deputado federal, apontava que as emendas, combinadas com o fundo eleitoral concentrado em quem já tinha mandato, tornavam mais difícil a eleição de candidatos sem experiência. Mesmo campanhas do governo Lula contra um "Congresso inimigo do povo" e mobilizações populares contra propostas que blindassem parlamentares de investigações criminais teriam pouco efeito sobre o resultado. As emendas criavam uma distorção que a retórica política não conseguia vencer.
Havia ainda uma questão de transparência e desvio. Mais de R$ 2 bilhões em emendas haviam sido direcionados para organizações da sociedade civil e entidades do terceiro setor, nem sempre com aplicação correta. Bondarovsky relatava histórias encontradas em auditorias de ONGs que funcionavam apenas como intermediárias para contratação de cabos eleitorais ou compra de votos. Além disso, cientistas políticos como Fenelon Rocha apontavam que as emendas haviam se tornado a principal fonte de caixa dois das candidaturas, com indícios de desvios para uso direto nas campanhas. No Piauí, estimava-se que campanhas para deputado federal custassem R$ 30 milhões cada — dez vezes o teto legal.
O tamanho do fenômeno podia ser medido de outra forma. Levantamento da Folha com dados do Siga Brasil e do Tribunal Superior Eleitoral identificou 503 parlamentares que haviam sido autores de emendas individuais ao Orçamento e que concorriam a cargos eletivos em 2026. Eram 44 senadores e 459 deputados. Juntos, eles haviam recebido R$ 62,8 bilhões em pagamentos de emendas durante a legislatura. Não eram números abstratos — eram recursos que financiavam máquinas políticas, que compravam lealdades municipais, que tornavam a reeleição mais provável e a renovação mais improvável.
O crescimento das emendas também revelava algo sobre o timing político. O valor empenhado — o termo técnico para despesas autorizadas pelo governo — havia crescido apenas 28% entre os dois períodos. Mas o valor pago havia crescido 54%. Isso significava que muitas obras financiadas em ciclos anteriores estavam sendo entregues agora, em ano eleitoral, quando seus efeitos políticos eram máximos. Os entraves da burocracia estatal que atrasavam as obras funcionavam, inadvertidamente, como um mecanismo de sincronização com o calendário eleitoral. A máquina pública, lenta em sua execução, tornava-se rápida em sua entrega política.
Citas Notables
A imagem do parlamentar começa a ir para a de uma pessoa que entrega produtos e serviços para a população— Bruno Bondarovsky, pesquisador da PUC-Rio
As emendas criam uma distorção. O voto não passa mais a ser vinculado a como ele vota nas matérias. É mais destinado a que benefício o parlamentar traz para a prefeitura— Neuriberg Dias, analista político