Embaixada dos EUA classifica vitória de Lula como 'definitiva' em relatório ao Departamento de Estado

Apenas 34 mil votos depois das 17h: cerca de 0,03% do total
Segundo o TSE, citado pela embaixada, o número é insuficiente para alterar a diferença de 4,4 milhões de votos.
Mark

O que chama atenção neste relatório é o contraste, não é? A própria embaixada diz uma coisa e o presidente diz outra.

Mimi

Sim. A embaixada chama a vitória de definitiva e diz que a ampliação do horário não mudou nada. Trump, na quinta, ainda falava em vergonha, sem apresentar provas de irregularidades.

Mark

E qual é o argumento numérico?

Mimi

Segundo o TSE, 34 mil votos foram dados depois das 17h, cerca de 0,03%. A diferença entre Lula e Flávio é de aproximadamente 4,4 milhões.

Luke

Convém separar: o número de 34 mil é do TSE, repetido pela embaixada. O relatório não o audita de forma independente, até onde o texto mostra.

Mimi

Verdade. Mas há também a avaliação dos observadores da OEA, que disseram não ter nenhuma dúvida sobre os resultados.

Luke

Que, note-se, também chamaram a gestão da ampliação de mal administrada e a comunicação interna de insatisfatória. Não é um atestado de perfeição.

Mark

E o temor dentro do PL?

Mimi

O relatório diz que integrantes do partido compartilharam, de forma reservada, a preocupação com uma crise política. Mas não os nomeia.

Luke

Exatamente: é uma informação atribuída a fontes não identificadas, relatada pela embaixada. Serve como indício, não como fato comprovado.

Mark

E o que ainda não se sabe?

Mimi

Se Trump vai de fato falar com Lula e se haverá reconhecimento formal. Flávio está em Miami, com vistos confirmados pelo Departamento de Estado.

Luke

E não sabemos se o relatório mudará a postura pública da Casa Branca. Até agora, nada indica isso.

  • A embaixada americana classifica a vitória de Lula como definitiva, contrariando o tom de dúvida adotado por Donald Trump.
  • Uma decisão do STF que ampliou a votação em duas horas virou o principal argumento de Flávio Bolsonaro para contestar a derrota.
  • Apenas 34 mil votos foram registrados após as 17h, cerca de 0,03% do total, insuficientes para mudar a diferença de 4,4 milhões.
  • Flávio já está em Miami com vistos concedidos pelo Departamento de Estado, enquanto Washington ainda não enviou congratulações formais a Lula.
  • Integrantes do PL temem que a contestação provoque uma crise política, e o desfecho depende de uma conversa prometida por Trump.

Dias depois de uma eleição disputada, um relatório da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília chamou a vitória de Lula de surpreendente, mas definitiva, desfazendo a dúvida que parte do cenário político tentava sustentar. O documento, que pesa sobre a relação entre dois países, mostra como a contagem oficial e a voz de observadores independentes podem prevalecer sobre a inquietação de quem perdeu. Resta saber se o gesto diplomático de Brasília se converterá em reconhecimento formal de Washington, onde o presidente segue questionando o pleito.

Na segunda-feira, um dia após o segundo turno, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília enviou a Washington um relatório com um título que não deixa margem: Lula foi eleito em resultado surpreendente, mas definitivo. O texto, obtido pela Folha de S.Paulo, trata como encerrada uma disputa que o presidente Donald Trump insiste em colocar em dúvida.

Lula venceu Flávio Bolsonaro por cerca de 4,4 milhões de votos. A votação foi, em grande parte, pacífica, apesar de problemas de transporte e de acesso a seções no Nordeste e no Sul. Diante disso, as duas campanhas pediram ao TSE a ampliação do horário. O ministro Cristiano Zanin, do STF, autorizou duas horas a mais, mas a medida chegou de forma desigual a algumas seções, e foi justamente ali que Flávio encontrou seu argumento principal.

Os números, porém, não sustentam a contestação. Apenas 34 mil votos entraram depois das 17h, incluindo eleitores que já aguardavam na fila, algo perto de 0,03% do total. Os observadores internacionais acharam a ampliação mal conduzida, mas a eleição organizada, e a OEA afirmou não ter dúvidas sobre o resultado.

Flávio classificou o resultado como impossível de aceitar e prometeu contestá-lo, mas outros líderes conservadores já reconheceram a vitória de Lula, e integrantes do PL temem uma crise. Lula, por sua vez, discursou em São Paulo prometendo governar para todos. Até agora, ao menos 54 países o reconheceram.

Trump, por outro lado, disse que a eleição parecia fraudada e, nesta quinta, afirmou que foi uma vergonha, sem apresentar provas e sem dizer quem considera o legítimo vencedor. Washington ainda não enviou congratulações formais, e Flávio já desembarcou em Miami com vistos concedidos pelo Departamento de Estado. Resta ver se a conversa prometida por Trump acontece e se o governo americano passará a tratar oficialmente como definitivo aquilo que sua própria embaixada já reconheceu.

Na segunda-feira (26), um dia depois do segundo turno, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília enviou a órgãos do governo americano, entre eles o Departamento de Estado, um relatório com um título direto: "Eleições no Brasil: Lula é eleito em resultado surpreendente, mas definitivo; Flávio Bolsonaro considera resultado impossível de aceitar". O documento, a que a Folha de S.Paulo teve acesso, trata como encerrada a disputa que o presidente Donald Trump segue colocando em dúvida.

Segundo a representação diplomática, Lula venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) por cerca de 4,4 milhões de votos. A votação foi majoritariamente pacífica, ainda que tenha havido interrupções no transporte público e dificuldades de acesso a locais de votação no Nordeste e no Sul. A campanha de Lula e a de Flávio pediram ao TSE a ampliação do horário de votação por causa desses problemas.

O ministro Cristiano Zanin, do STF, autorizou a extensão por duas horas, depois do encerramento previsto para as 17h. A medida causou confusão, porque algumas seções eleitorais não haviam recebido a determinação. Foi essa decisão que Flávio passou a usar como principal argumento para contestar a derrota.

O relatório reproduz os números do TSE: apenas 34 mil votos foram registrados após as 17h, incluindo eleitores que já estavam na fila quando a votação deveria terminar. Isso equivale a cerca de 0,03% dos votos, quantia insuficiente para mexer na diferença entre os dois candidatos. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que o horário ampliado não teve influência significativa e não alterou a vitória de Lula.

Os observadores internacionais, de acordo com a embaixada, consideraram a ampliação do horário mal administrada, mas viram uma eleição organizada. Os da OEA disseram não ter "nenhuma dúvida sobre os resultados", embora tenham achado insatisfatória a comunicação interna entre os responsáveis pela organização da votação.

O texto registra que Flávio condenou a decisão do STF e se comprometeu a contestar o resultado, classificando-o como "impossível de aceitar". Outros líderes conservadores, porém, reconheceram publicamente a vitória de Lula. Integrantes do PL, de forma reservada, manifestaram o temor de que a contestação provocasse uma crise política, apesar da diferença decisiva de votos, da ausência de fundamento jurídico e do possível desgaste para o partido. A embaixada anotou ainda que Lula discursou em São Paulo logo após o resultado, prometeu governar para todos e agradeceu especialmente a idosos e jovens. A imprensa brasileira, segundo o relatório, destacou a polarização, os problemas ligados à decisão do STF, possíveis disputas judiciais e a dificuldade de governar com um Congresso de maioria conservadora. Até a elaboração do documento, Lula havia sido reconhecido por pelo menos 54 países, com exceções como Estados Unidos, El Salvador e Argentina. A Folha apurou, porém, que Nayib Bukele, presidente salvadorenho, reconheceu a vitória no próprio dia da eleição.

A avaliação da embaixada destoa do discurso de Trump. Na segunda-feira, ele disse que o pleito parecia fraudado e questionou a ampliação do horário, embora afirmasse não ter tomado partido e manter boa relação com Lula. "A impressão que passou para o mundo foi terrível. Eleições precisam ser indiscutíveis", disse. Nesta quinta-feira (29), repetiu: "Vou falar com ele, mas acho que a eleição no Brasil foi uma vergonha". Perguntado quem considera o legítimo vencedor, não respondeu. Não foram apresentadas provas de irregularidades capazes de comprometer o resultado.

Até esta quinta, Washington não havia enviado mensagem formal de congratulações a Lula. Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami na quarta-feira (28), depois de deixar o Brasil, e o Departamento de Estado confirmou a concessão de vistos a ele e a familiares. Fica a ser visto se a conversa prometida por Trump acontece e se o governo americano passa a tratar oficialmente como definitivo o resultado que sua própria embaixada já descreveu assim.

Vou falar com ele, mas acho que a eleição no Brasil foi uma vergonha.
— Donald Trump, presidente dos EUA, em 29/10
Os observadores da OEA disseram não ter nenhuma dúvida sobre os resultados.
— Relatório da Embaixada dos EUA em Brasília (paráfrase)
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