Em Témiscaming, trabalhadores lutam para recomprar fábrica centenária paralisada pelas tarifas de Trump

A maioria dos 360 funcionários da fábrica está desempregada, e o fechamento ameaça o sustento e o modo de vida da cidade, além de empregos indiretos no setor florestal.
"Não é apenas um emprego. É a nossa casa"
Nadine Suley resume o que a paralisação da fábrica significa para os moradores de Témiscaming.
Mark

Por que Témiscaming importa além dos 360 empregos?

Mimi

Porque a cidade nasceu em torno da fábrica. Se ela não reabrir, os moradores temem perder também mercados, hospitais e outros serviços.

Mark

E o precedente de 1973?

Mimi

Os trabalhadores compraram a fábrica quando o dono americano ameaçou fechá-la, e criaram a Tembec. Agora tentam repetir isso.

Luke

Vale separar: a coalizão existe e quer comprar, mas a RYAM não comenta venda nem compradores. Não há oferta confirmada.

Mark

A economia canadense está mal, então?

Mimi

No conjunto, não. O desemprego ficou em cerca de 6,5%. A dor se concentra em setores atingidos.

Luke

E o temor de cidade fantasma é de moradores, não uma projeção medida. Os 13 demitidos do empreiteiro também são relato de uma fonte.

Mark

O governo está fazendo o bastante?

Mimi

O prefeito e o sindicato dizem que não. O gabinete de Joly cita C$ 400 milhões para o setor florestal e diz trabalhar numa solução.

Luke

Não se sabe quanto desse dinheiro chegaria a Témiscaming, nem se haverá compra. O prazo do inverno é a única pressão concreta.

  • A RYAM suspendeu a produção de papelão de Témiscaming por tempo indeterminado, deixando 360 trabalhadores sem renda plena.
  • Tarifas americanas de 50% sobre produtos canadenses, respondidas com tarifas equivalentes, fecharam a principal saída da fábrica, que envia cerca de 75% da produção aos EUA.
  • Casas perdem valor de um dia para o outro, placas de 'Vende-se' surgem nos jardins e o medo de um êxodo começa a esvaziar a cidade.
  • Uma coalizão de moradores tenta recomprar a unidade, repetindo a façanha de 1973, enquanto aguarda ajuda de Ottawa e de Quebec antes que o frio do inverno danifique os equipamentos parados.

Às margens do rio Ottawa, uma cidade de Quebec construída há mais de um século em torno de um moinho de papel vê o coração da sua vida industrial parar, empurrada pelas disputas comerciais entre dois países que, em última análise, decidem o destino de gente comum. A paralisação por tempo indeterminado da fábrica de Témiscaming reabre uma pergunta antiga: até onde pode ir uma comunidade que já uma vez salvou o próprio moinho com as próprias mãos? Hoje, os moradores olham para o inverno, para as eleições americanas e para governos distantes, enquanto tentam decidir se a história pode, ou não, repetir-se.

Quem atravessa o rio Ottawa rumo a Témiscaming vê, antes de tudo, a fábrica de papel. A cidade cresceu ao redor dela por mais de um século, cercada de pinheiros, bétulas e abetos. Hoje, o principal empregador local está parado.

No início de outubro, a RYAM, empresa americana dona da unidade desde 2017, decidiu mantê-la paralisada por tempo indeterminado, depois que as negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos fracassaram. As tarifas de 50% impostas por Washington atingiram madeira, celulose e papelão, e Ottawa respondeu com medidas equivalentes. Como a fábrica envia cerca de três quartos da produção aos EUA, o golpe foi direto.

A maioria dos 360 funcionários está sem trabalho, vivendo do pagamento parcial de um programa federal. Os imóveis perderam valor, e a cidade começa a sentir o medo de que médicos, professores e comerciantes também partam. "Não é apenas um emprego. É a nossa casa", diz uma moradora. Outro trabalhador prevê uma cidade fantasma.

Em 1973, quando o dono americano ameaçou fechar a fábrica, operários e gestores locais a compraram e criaram a Tembec. Agora, uma coalizão quer repetir o feito, ainda sem saber se a RYAM aceitará vender. O prefeito pede tarifas sobre o papelão importado dos EUA, e o sindicalista espera que o governo federal e o de Quebec ofereçam alívio.

O prazo é o inverno, quando o frio pode danificar equipamentos parados. Muitos moradores apostam nas eleições de meio de mandato nos EUA, mas os produtos de Témiscaming ficaram de fora de uma recente suspensão de tarifas. "Estamos no jogo 7 agora", diz o líder sindical.

Quem cruza o rio Ottawa em direção a Témiscaming, em Quebec, vê a fábrica de papel dominar a paisagem. A cidade foi erguida há mais de um século em torno do moinho e das florestas vizinhas, de pinheiros, bétulas, abetos e pinheiros-do-oregon. Hoje, o principal empregador local está parado.

No início de outubro, a RYAM, empresa americana dona da fábrica desde 2017, decidiu mantê-la em "paralisação por razões econômicas" por tempo indeterminado. A decisão veio depois que as negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos fracassaram. Em agosto, Washington impôs tarifas de 50% sobre cerca de C$ 28 bilhões em produtos canadenses, entre eles madeira, celulose, artigos de papelaria e caixas. O Canadá respondeu com tarifas equivalentes, "dólar por dólar". A unidade de Témiscaming produz papelão para embalagens de alimentos congelados e para bilhetes de loteria instantânea, e envia cerca de 75% da produção aos EUA.

A maioria dos 360 funcionários está sem trabalho e se sustenta, por ora, com o pagamento parcial do programa federal de alívio tarifário. Os imóveis perderam valor quase da noite para o dia, e placas de "Vende-se" aparecem nos jardins das casas de classe média da cidade. Moradores temem que até profissionais de serviços essenciais, de funcionários de supermercado a médicos dos pequenos hospitais, também partam. Um empreiteiro local contou à BBC que já demitiu 13 pessoas, e o impacto pode atingir serrarias e transportadoras do setor florestal.

"Não é apenas um emprego. É a nossa casa", diz Nadine Suley, para quem as tarifas parecem "um ataque pessoal". Ronnie Raymond, de família de operários da fábrica, prevê uma cidade fantasma: "Não vai sobrar nada, absolutamente nada." No conjunto, a economia canadense resistiu: o desemprego nacional ficou em torno de 6,5% desde as tarifas, com crescimento moderado. Mas há bolsões de dificuldade em setores como aço, alumínio, automóveis, madeira, celulose e papel. O líder sindical Stéphane Lefebvre, cujo pai e avô trabalharam na fábrica, diz que uma perda de 10% dos empregos em Toronto ou Montreal estaria em todos os noticiários.

Os trabalhadores buscam repetir 1973, quando o dono americano ameaçou fechar a fábrica e operários e gestores locais a compraram, criando a Tembec, companhia de propriedade quebequense com unidades na América do Norte e na França. Frank Dottori, aposentado de mais de 80 anos, era engenheiro na fábrica, ajudou a convencer os colegas a aceitar um corte salarial de 10% e depois se tornou diretor-executivo. Lembra que foi "educadamente colocado para fora" pelo então primeiro-ministro de Quebec ao pedir apoio. Agora, uma coalizão de moradores quer recomprar a unidade da RYAM, que não comenta uma possível venda nem a existência de compradores. Lefebvre espera que "o raio caia duas vezes no mesmo lugar", mas diz que isso exige ajuda do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, via alívio tarifário ou apoio financeiro.

O prefeito Alain Gauthier não culpa a RYAM e chama as tarifas de "uma bomba" contra a indústria canadense. Pede que Ottawa tarife o papelão importado dos EUA, hoje isento, e afirma que o país foi à guerra "armado com pistolinhas de água". Lefebvre acha que o setor florestal ficou em segundo plano. Neste mês, a ministra Mélanie Joly ameaçou sancionar a Stelco, que planeja demitir cerca de 500 pessoas, e Carney e Doug Ford anunciaram quase C$ 9 bilhões para aço e automóveis em Ontário. O deputado Sébastien Lemire, do Bloc Québécois, diz estar "muito preocupado". O gabinete de Joly cita C$ 400 milhões para o setor florestal rural, um programa de capital de giro e trabalho "ativo" por uma solução em Témiscaming.

Muitos moradores apostam nas eleições de meio de mandato nos EUA, com Trump em queda nas pesquisas. Na semana passada, algumas tarifas foram suspensas após articulação da senadora Susan Collins, candidata à reeleição, mas os produtos de Témiscaming ficaram de fora. O prazo é o inverno: o frio pode congelar os equipamentos parados e dificultar a reabertura. "Estamos no jogo 7 agora", diz Lefebvre.

Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar.
— Stéphane Lefebvre, líder sindical
Sentimos que entramos em uma guerra armados com pistolinhas de água de criança.
— Alain Gauthier, prefeito de Témiscaming
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