Expedição descobre 31 novas espécies em águas profundas da costa brasileira

Trinta e uma espécies em duas semanas, muito mais que o esperado
A expedição do Schmidt Ocean Institute superou suas próprias expectativas ao catalogar novas espécies marinhas em águas profundas.

Em abril, nas águas internacionais do Atlântico Sul Tropical, uma expedição científica conduzida pelo Schmidt Ocean Institute revelou 31 espécies marinhas até então desconhecidas — em apenas duas semanas de navegação. O feito não é apenas um inventário de novidades biológicas: é um lembrete de que o oceano profundo, tão próximo e tão inacessível, ainda guarda dimensões inteiras da vida que a ciência mal começou a nomear. A tecnologia que tornou isso possível não coleta nem destrói — observa, ilumina e registra, como se a humanidade finalmente aprendesse a visitar sem invadir.

  • Trinta e uma espécies desconhecidas catalogadas em duas semanas superaram todas as expectativas da missão, revelando uma biodiversidade oceânica muito maior do que se imaginava.
  • A zona mesopelágica — entre 200 e 1.000 metros de profundidade — abriga organismos tão frágeis que métodos tradicionais de coleta os matariam antes de chegarem à superfície.
  • Sistemas de laser 3D como DeepPIV e EyeRIS, além de câmaras que recriam as condições do fundo do mar, permitiram documentar e coletar criaturas vivas sem destruí-las.
  • Entre os achados: um verme gelatinoso mais veloz que veículos subaquáticos, uma lula quase invisível a 779 metros de profundidade e a primeira estrutura celular 3D de um micróbio unicelular vivo já registrada.
  • As descobertas ampliam o entendimento sobre o ciclo global de carbono e a biodiversidade marinha, com implicações científicas que vão muito além do catálogo de novas espécies.

Em abril, o navio de pesquisa Falkor (too) navegava pelo Atlântico Sul Tropical, próximo à costa brasileira, com uma missão ambiciosa: explorar as profundezas do oceano sem danificar nada. Em duas semanas, a equipe do Schmidt Ocean Institute catalogou 31 espécies marinhas completamente desconhecidas para a ciência — um número que surpreendeu até os próprios pesquisadores.

O obstáculo central era a fragilidade dos organismos da zona mesopelágica, entre 200 e 1.000 metros de profundidade. Muitos têm corpos gelatinosos que não sobrevivem à captura convencional. Para contornar isso, a expedição usou sistemas de imagem com laser — como o DeepPIV e o EyeRIS — capazes de criar representações tridimensionais de animais vivos sem tocá-los. Quando era necessário trazer algum organismo à superfície, uma câmara especial recriava as condições do habitat natural para mantê-lo vivo.

Entre as 31 novas espécies estavam nove águas-vivas, sete sifonóforos, quatro larváceos e outros organismos confirmados por sequenciamento genético. Um destaque foi o microscópio Squid, da Universidade Stanford, com o qual a equipe documentou pela primeira vez a estrutura celular em 3D de um micróbio unicelular vivo — feito inédito na pesquisa marinha.

Os registros visuais trouxeram cenas notáveis: um verme da espécie Tomopteris, de corpo quase gelatinoso, nadando mais rápido do que os veículos subaquáticos; uma fêmea do polvo Haliphron atlanticus — espécie raramente observada viva — se alimentando de uma água-viva vermelha a 800 metros de profundidade; e uma lula-de-vidro coletada a 779 metros, com cores vibrantes em um corpo quase totalmente transparente.

As descobertas, resultado de uma colaboração entre pesquisadores da UFRGS, do Smithsonian e da Universidade do Sul da Flórida, ampliam significativamente o conhecimento sobre a biodiversidade oceânica e o papel da zona mesopelágica no ciclo global de carbono.

Em abril, um navio de pesquisa chamado Falkor (too) navegava por águas internacionais do Atlântico Sul Tropical, próximo à costa brasileira, carregando uma missão ambiciosa: explorar um dos ambientes mais inacessíveis do planeta sem danificar nada. Em apenas duas semanas, a equipe do Schmidt Ocean Institute — uma fundação privada americana — catalogou 31 espécies marinhas completamente desconhecidas para a ciência. O número surpreendeu até os próprios pesquisadores, que esperavam descobertas menores.

O desafio de explorar as profundezas oceânicas é brutal. Não se pode simplesmente enviar um mergulhador com equipamento convencional para as profundidades onde vivem esses organismos. A zona mesopelágica, que fica entre 200 e 1.000 metros abaixo da superfície, é uma região de transição — nem totalmente iluminada pelo sol, nem completamente escura como o fundo do mar. Muitos dos animais que habitam essa faixa têm corpos gelatinosos e frágeis, o que significa que trazê-los à tona usando métodos tradicionais os mataria. Além disso, essa região do oceano desempenha um papel crucial no ciclo global de carbono, tornando seu estudo cientificamente vital.

Para contornar esses obstáculos, a equipe recorreu a tecnologia de ponta. Sistemas de imagem como o DeepPIV e o EyeRIS usam lasers para criar representações tridimensionais de animais marinhos vivos, capturando detalhes sem tocá-los. Uma câmera chamada Shadowgraph registra estruturas ainda mais minuciosas. Todos esses equipamentos foram acoplados a um veículo operado remotamente que desce até a zona mesopelágica. Quando era necessário trazer um organismo à superfície, a equipe usava uma câmara especial que recriava as condições do habitat natural — pressão, temperatura e luminosidade — para manter o animal vivo durante a coleta.

Entre as 31 novas espécies estavam nove águas-vivas, sete sifonóforos (parentes próximos da caravela-portuguesa), quatro larváceos (pequenos organismos de zooplâncton que lembram girinos) e vários outros. A equipe também capturou registros valiosos de animais já conhecidos mas ainda pouco estudados. Para confirmar que se tratava realmente de espécies inéditas, os pesquisadores realizaram sequenciamento genético dos organismos coletados.

Um dos destaques tecnológicos foi o microscópio Squid, desenvolvido pela Universidade Stanford. Com ele, os cientistas conseguem observar a interação entre células de organismos vivos enquanto ainda estão a bordo do navio, tudo em imagens tridimensionais. Durante essa expedição, a equipe documentou pela primeira vez a estrutura celular em 3D de um micróbio unicelular vivo — um feito inédito na pesquisa marinha.

Os registros visuais revelaram cenas notáveis. Uma nova espécie de verme chamada Tomopteris — conhecida como verme-teia-de-aranha — se mostrou um nadador extraordinariamente rápido apesar de seu corpo ser praticamente gelatinoso. Esses animais conseguem nadar para frente ou para trás usando estruturas chamadas parapódios, e segundo o instituto, chegam até a ultrapassar veículos subaquáticos. A espécie também produz uma luz amarela.

Outro registro impressionante foi o de uma fêmea do polvo Haliphron atlanticus — uma espécie já conhecida — se alimentando de uma água-viva vermelha a cerca de 800 metros de profundidade. O manto do polvo media entre 40 e 50 centímetros, mas fêmeas dessa espécie podem atingir até quatro metros de comprimento e pesar mais de 70 quilos. Raramente são observadas vivas.

A expedição também encontrou um filossoma, o estágio larval de lagostas-espinhosas, com um corpo tão fino e transparente que a olho nu só era possível enxergar seus olhos e intestino. Uma lula-de-vidro coletada a 779 metros de profundidade chamou atenção por suas cores vibrantes contrastando com um corpo quase totalmente transparente. Esses achados, reunidos por pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ao Smithsonian National Museum of Natural History e à Universidade do Sul da Flórida, ampliam significativamente o conhecimento sobre a biodiversidade oceânica e o funcionamento da zona mesopelágica.

Segundo o Schmidt Ocean Institute, os vermes-teia-de-aranha conseguem até mesmo ultrapassar veículos subaquáticos
— Schmidt Ocean Institute
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que essas descobertas em águas profundas importam tanto? Não estamos falando apenas de curiosidade científica?

Model

Não é só curiosidade. A zona mesopelágica é fundamental para o ciclo de carbono do planeta. Entender quais organismos vivem ali e como interagem nos ajuda a compreender como o oceano absorve e transporta carbono — algo essencial para prever mudanças climáticas.

Inventor

Mas por que não conseguíamos descobrir essas espécies antes? Temos tecnologia submarina há décadas.

Model

O problema é que a maioria dos métodos tradicionais mata os animais. Você não pode arrastar uma rede por ali e trazer tudo para cima — esses corpos gelatinosos se destroem. Essa expedição usou lasers e câmeras para observar sem tocar, e câmaras especiais para trazer alguns espécimes vivos. É uma abordagem completamente diferente.

Inventor

Trinta e uma espécies em duas semanas parece um número extraordinário. Isso significa que há muito mais lá embaixo que não sabemos?

Model

Muito mais. Estamos falando de uma região que tem um volume imenso e é extremamente difícil de acessar. Essas descobertas sugerem que a biodiversidade da zona mesopelágica é muito maior do que imaginávamos. Cada expedição como essa provavelmente vai encontrar mais.

Inventor

E quanto àquele microscópio Squid que documentou uma célula viva em 3D? Isso é realmente inédito?

Model

Sim. Observar a estrutura celular tridimensional de um micróbio vivo enquanto ele ainda está no oceano, a bordo de um navio, é algo que nunca tinha sido feito. Normalmente você mata o organismo, o congela, o seca — perde a vida real. Aqui conseguiram capturar a célula funcionando.

Inventor

Qual foi a descoberta mais surpreendente para você?

Model

Provavelmente o polvo comendo a água-viva a 800 metros de profundidade. Essas fêmeas são gigantescas — até quatro metros — mas raramente são vistas vivas. Capturar esse comportamento alimentar é um registro valioso que não tínhamos antes.

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