Keiko Fujimori eleita presidente do Peru com 50,13% dos votos em apuração final

A insegurança no Peru afeta milhões de cidadãos, com taxa de homicídios triplicada em Lima e denúncias de extorsão aumentadas nove vezes em cinco anos.
Metade do país não o quer. A legitimidade é frágil.
A vitória de Fujimori por margem mínima deixa um governo que governa um país profundamente dividido.

Com uma diferença de apenas 0,27 pontos percentuais, Keiko Fujimori foi eleita presidente do Peru, encerrando três semanas de contagem que espelharam a fratura profunda de um país dividido entre a capital ansiosa por ordem e o interior empobrecido em busca de justiça. A vitória, anunciada nesta segunda-feira, coloca no poder uma candidata que carrega ao mesmo tempo o legado controverso do pai e a promessa de segurança a qualquer custo. O Peru que ela herda é economicamente estável nos índices, mas socialmente partido entre mundos que mal se reconhecem.

  • A taxa de homicídios em Lima triplicou em cinco anos e as denúncias de extorsão cresceram nove vezes, tornando a violência a ferida mais visível do país.
  • A margem de 0,27 pontos percentuais não é apenas um número eleitoral — é o retrato de uma nação que votou em direções opostas sem conseguir se separar.
  • Sánchez visitou Pedro Castillo na prisão às vésperas do resultado e prometeu indulto, sinalizando que a disputa política está longe de encerrada.
  • Fujimori aposta em militarização e mão dura para conter o crime, enquanto Sánchez argumenta que a cumplicidade entre elites e crime organizado é a verdadeira raiz do problema.
  • O novo governo assumirá com sete em cada dez trabalhadores na informalidade e a tarefa urgente de construir legitimidade num país que mal aceitou o resultado.

Keiko Fujimori venceu a eleição presidencial do Peru com 50,13% dos votos contra 49,86% de Roberto Sánchez — uma margem de 0,27 pontos percentuais que tornou a espera de três semanas pela contagem final quase insuportável. O resultado foi divulgado nesta segunda-feira e confirmou o que as pesquisas já sugeriam: o Peru está partido ao meio.

Filha de Alberto Fujimori, o presidente que estabilizou a economia nos anos 1990 mas acumulou acusações de crimes contra a humanidade, Keiko construiu sua campanha sobre segurança e investimento estrangeiro. Sua base está em Lima, onde a violência explodiu — 23 homicídios por 100 mil habitantes, o triplo de cinco anos atrás. Ela promete militarizar presídios e zonas de conflito, invocando a mesma força que seu pai usou contra a insurgência.

Sánchez, congressista e ex-ministro, apresentou-se como herdeiro político de Pedro Castillo, o presidente destituído em 2022. Usa o chapéu camponês que recebeu de Castillo como símbolo e prometeu conceder-lhe indulto. Sua plataforma combina abertura econômica com combate à corrupção institucional, argumentando que a cumplicidade entre elites e crime organizado é a verdadeira origem da violência. Sua força está no interior empobrecido do país.

O que une os dois lados é a preocupação com a segurança: as denúncias de extorsão aumentaram nove vezes em cinco anos. O que os divide é o diagnóstico e o remédio. Fujimori herda uma economia com PIB crescendo 3,4%, mas onde sete em cada dez trabalhadores vivem na informalidade. Governar um país que se enxerga de formas tão radicalmente diferentes será o verdadeiro teste de seu mandato.

Keiko Fujimori venceu a eleição presidencial do Peru por uma margem tão fina que quase desaparece quando você a escreve: 50,13% contra 49,86%. Seu rival de esquerda, Roberto Sánchez, ficou a apenas 0,27 pontos percentuais de distância. A contagem final das urnas foi divulgada nesta segunda-feira, três semanas depois que os peruanos foram às urnas no segundo turno.

Fujimori é administradora de formação e constrói sua campanha sobre o legado do pai, Alberto Fujimori, que estabilizou a economia peruana e derrotou movimentos insurgentes nos anos 1990 — embora tenha sido acusado de crimes contra a humanidade. Ela defende um programa neoliberal clássico: respeito à propriedade privada, atração de investimento estrangeiro, especialmente americano, e medidas de segurança que incluem militarizar presídios e zonas de conflito. Sua base eleitoral está concentrada em Lima, a capital, onde a violência se intensificou dramaticamente: a taxa de homicídios triplicou entre 2020 e 2025, chegando a 23 mortes por 100 mil habitantes.

Sánchez, aos 57 anos, é congressista e ex-ministro que se apresenta como herdeiro político de Pedro Castillo, o ex-presidente destituído em 2022. Ele visitou Castillo na prisão no domingo anterior à divulgação dos resultados e prometeu conceder-lhe um indulto. Usa o chapéu camponês que recebeu de Castillo como símbolo de sua filiação política. Sua plataforma promete aumentos salariais, manutenção da abertura econômica e independência do banco central — gestos direcionados aos investidores — além de combater a criminalidade através da investigação de corrupção na polícia e no sistema de justiça. Sua base está nas zonas rurais empobrecidas, onde a insegurança é menor que nas cidades.

O que une os peruanos, apesar dessa divisão profunda, é a preocupação com a segurança pública. O país enfrenta uma crise de violência alimentada por quadrilhas criminosas. As denúncias de extorsão aumentaram nove vezes em cinco anos. Fujimori promete enfrentar isso com mão de ferro, invocando a mesma força com que seu pai combateu a insurgência. Sánchez aponta para a corrupção institucional como raiz do problema, argumentando que há cumplicidade entre elites políticas e o crime organizado.

O novo presidente herdará uma economia que, pelo menos nos números, parece sólida. O PIB cresceu 3,4% e o país é economicamente estável. Mas essa estabilidade mascara uma realidade de trabalho precário: sete em cada dez trabalhadores estão na informalidade, sem proteções legais ou benefícios. A vitória de Fujimori por margem tão estreita reflete não apenas uma divisão eleitoral, mas uma divisão geográfica e social profunda no Peru — Lima contra o interior, cidade contra campo, segurança contra redistribuição. O desafio que a aguarda é governar um país que se vê a si mesmo de formas radicalmente diferentes.

Fujimori prometeu enfrentar a violência com militarização de presídios e zonas conflituosas, invocando a mesma força com que seu pai venceu a insurgência nos anos 1990
— Plataforma de campanha de Keiko Fujimori
Sánchez propõe enfrentar a corrupção na polícia e na Justiça, argumentando que há cumplicidade entre elites políticas e a criminalidade
— Plataforma de campanha de Roberto Sánchez
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que essa eleição foi tão apertada? Qual é a divisão real que ela revela?

Model

É geográfica e de classe. Lima, onde a violência explodiu, votou em Fujimori por segurança. O interior pobre votou em Sánchez porque quer salários e menos corrupção. São dois Perus diferentes vendo o mesmo problema de formas opostas.

Inventor

Sánchez prometeu indultar Pedro Castillo. Isso é viável politicamente?

Model

É arriscado. Castillo é figura divisiva — para alguns é símbolo de resistência, para outros é símbolo de caos. Um indulto poderia desestabilizar o país ou consolidar apoio. Mas Sánchez perdeu, então a questão é teórica agora.

Inventor

Fujimori invoca o legado do pai. Mas ele foi acusado de crimes contra a humanidade. Como ela navega isso?

Model

Ela não navega. Ela simplesmente apela ao que funcionou economicamente — a estabilização. Os crimes contra a humanidade não entram na conversa de campanha. É uma escolha política clara.

Inventor

A economia está crescendo, mas 70% dos trabalhadores estão na informalidade. Como isso muda o que Fujimori pode fazer?

Model

Significa que o crescimento não chegou à maioria das pessoas. Não há rede de segurança. Fujimori pode atrair investimento, mas se não criar empregos formais, a insegurança econômica continua alimentando a criminalidade.

Inventor

Qual é o maior risco para o novo governo?

Model

Legitimidade. Ele venceu por 0,27 pontos percentuais. Metade do país não o quer. Se a segurança não melhorar rapidamente, ou se as medidas forem vistas como autoritárias, a polarização pode se aprofundar.

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