Às vésperas do primeiro turno, o Brasil assiste a uma avalanche de escândalos judiciais e políticos que embaralham as fronteiras entre culpados e inocentes. O episódio do avião compartilhado entre Flávio Bolsonaro e figuras investigadas revelou-se apenas um fio num novelo maior, onde cada puxão expõe outro emaranhado. Quando a lama cobre a todos de forma indistinta, o eleitor perde a bússola moral — e é justamente nessa névoa que os extremos costumam prosperar.
Eleição no meio da lama: Brasil vira lixo da festa de tribunais, finanças e política
quando há lama demais, ninguém consegue distinguir quem está mais sujo
Por que o episódio do avião importa? Parece um detalhe.
Porque mostra a proximidade entre Flávio Bolsonaro e pessoas acusadas de crimes graves. Mas também porque a correção — primeiro era um avião, depois era outro — alimenta a sensação de que há sempre algo sendo escondido.
Mas a reportagem da Piauí confirmou que era compartilhado? Ou estamos falando de versões conflitantes?
A revista reportou que viajaram juntos. Flávio depois explicou que era o avião de Tomaz, não de Vorcaro. Depois veio a informação de que era de sócios.
Então temos uma sequência de correções, não necessariamente uma mentira provada.
E o impacto eleitoral? Isso muda votos?
Isoladamente, talvez não. Mas é parte de uma avalanche. Escândalos no Supremo, investigações, vazamentos. Tudo junto cria uma sensação de que o sistema está podre.
Mas o Datafolha não mostra movimento nas pesquisas. Então ou a avalanche não está funcionando, ou está neutralizando tudo igualmente.
Exatamente. Quando há lama demais, ninguém consegue distinguir quem está mais sujo. Todos parecem iguais.
E o governo Lula? Como responde?
Com medidas que chegam tarde. Bolsa Família em outubro, proibição de bets agora. Tenta também se aproximar do eleitor de classe média que o apoiou em 2022.
Essas medidas têm chance de funcionar?
A Bolsa Família só chega depois do primeiro turno. As bets vão gerar confusão legal. Provavelmente não são suficientes.
O Pulso
- A revelação de que Flávio Bolsonaro viajou com investigados em desvios do INSS gerou uma cadeia de correções que transformou um escândalo em três, corroendo ainda mais a credibilidade das explicações oficiais.
- A quantidade de vazamentos de investigações policiais e judiciais é tão densa e técnica que começa a produzir o efeito oposto ao esperado: em vez de punir os envolvidos, nivela todos os candidatos na mesma suspeita generalizada.
- As suspeitas sobre ministros do Supremo Tribunal Federal ainda não moveram as pesquisas eleitorais, mas analistas temem que as revelações mais explosivas estejam sendo guardadas para os dias imediatamente anteriores ao primeiro turno.
- O governo Lula, com avaliação em queda, anunciou reajuste do Bolsa Família e proibição das bets — medidas que chegam tarde, geram confusão e revelam um governo que perdeu o compasso da realidade política.
- Parte do entorno governista pressiona Lula a reconquistar o microcentro — a classe média que o elegeu em 2022 e hoje oscila entre a decepção com seu governo e o medo de um retorno bolsonarista.
Às vésperas do primeiro turno, o Brasil assiste a uma avalanche de escândalos judiciais e políticos que embaralham as fronteiras entre culpados e inocentes. O episódio do avião compartilhado entre Flávio Bolsonaro e figuras investigadas revelou-se apenas um fio num novelo maior, onde cada puxão expõe outro emaranhado. Quando a lama cobre a todos de forma indistinta, o eleitor perde a bússola moral — e é justamente nessa névoa que os extremos costumam prosperar.
A revista Piauí colocou Flávio Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes no mesmo avião — e o que veio depois foi uma sequência de correções que transformou um escândalo em vários. Primeiro, disse-se que a aeronave pertencia a Daniel Vorcaro. Depois, a Willer Tomaz, companheiro de safári de Bolsonaro e acusado de envolvimento em desvios do INSS. Por fim, revelou-se que a aeronave era de sócios que incluíam ambos. Cada explicação abria uma nova ferida.
O episódio é apenas o mais recente numa campanha presidencial marcada por uma chuva constante de vazamentos institucionais. A quantidade de lama é tão vasta e tão técnica que, para boa parte dos eleitores, começa a parecer que todos os candidatos estão igualmente sujos — o que, paradoxalmente, pode neutralizar o impacto político de cada denúncia individual.
Até o momento, as suspeitas que recaem sobre metade do Supremo Tribunal Federal não produziram efeitos visíveis nas pesquisas do Datafolha. Mas o calendário eleitoral sugere que as revelações mais pesadas podem ter sido guardadas para os dias que antecedem o primeiro turno — um recurso clássico da guerra de informação em períodos eleitorais.
Nas projeções, Flávio Bolsonaro não se aproxima de Lula no primeiro turno, mas o eleitor de última hora — aquele que camufla sua intenção real — historicamente favorece a extrema direita na hora da urna. A avaliação do governo piorou desde setembro, e as respostas escolhidas revelam o descompasso: o reajuste do Bolsa Família só chegará às contas após o primeiro turno, e a proibição das bets, embora simbolicamente potente, chega tarde e promete confusão jurídica.
Parte do núcleo governista insiste que Lula precisa estender a mão ao microcentro — a classe média que o ajudou a vencer em 2022 e que hoje oscila entre a decepção com seu governo e o temor de um segundo mandato de Bolsonaro. O presidente, por ora, limitou-se a jantar com empresários. Como as demais medidas anunciadas, qualquer aceno a esse eleitorado chegaria tarde e com resultado incerto — mas, depois de quatro anos de erros acumulados, as alternativas restantes são poucas.
A revista Piauí publicou uma reportagem que colocou Flávio Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes no mesmo avião. A explicação veio em seguida, como aqueles telefonemas antigos em que se pedia desculpas pelo engano. Bolsonaro não havia pegado carona com Daniel Vorcaro, corrigiu. Era com Willer Tomaz, seu companheiro de safári e muito mais — um homem acusado de envolvimento em desvios do INSS. Depois veio outra correção: a aeronave não era propriedade de um ou outro, mas de sócios que incluíam tanto Vorcaro quanto Tomaz. O que começou como um escândalo se transformou em outro, e depois em mais outro ainda.
O episódio do avião foi apenas o mais recente na torrente de revelações que tem marcado esta campanha presidencial. Desde o início, a disputa se desenrola sob uma chuva constante de vazamentos de investigações policiais e judiciais — documentos que saem de porões institucionais e ganham as ruas. Até certo ponto, parecia que cada novo vazamento, cada operação policial divulgada, poderia ser decisivo para um candidato ou outro. Mas a quantidade de lama é tão vasta, tão técnica em suas ramificações, que para a maioria dos eleitores começa a parecer que todos estão no mesmo saco, que a sujeira não distingue entre eles.
As suspeitas que recaem sobre metade do Supremo Tribunal Federal não produziram, até quinta-feira (24), efeitos notáveis nas pesquisas de intenção de voto para presidente, segundo o Datafolha. Mas a chuva promete ficar mais pesada. Há vazamentos envolvendo Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro. Há escândalos que chegam até Kassio Nunes Marques. Não é exagero suspeitar que as maiores bombas tenham sido guardadas para as vésperas do primeiro turno.
Flávio Bolsonaro, pelo PL, não se aproxima mais de Luiz Inácio Lula da Silva, pelo PT, nas projeções de votação do primeiro turno. Mas o eleitor que muda de ideia no último momento, aquele que camufla sua intenção real, costuma despejar seus votos na extrema direita quando chega a hora de marcar a cédula. A avaliação do governo Lula piorou desde o início de setembro. Estava em 11 pontos negativos — a diferença entre quem aprova e quem desaprova — e caiu para 6. Ainda é vermelho, mas menos intenso.
O governo respondeu com duas medidas. Anunciou um reajuste do Bolsa Família, que só chegará às contas dos beneficiários em 19 de outubro — depois do primeiro turno. Anunciou também a proibição total das apostas online, as chamadas bets, um gesto que pode render votos cruciais mas que chega tarde demais, gerará confusão legal e provavelmente não impedirá o jogo de continuar. Ambas as ações revelam um governo que perdeu o ritmo da realidade política.
Parte do núcleo governista tenta convencer Lula a estender a mão para o que chamam de microcentro — aquele eleitorado de classe média que o ajudou a vencer em 2022. Lideranças desse universo fazem apelos públicos, mandam mensagens para a campanha. Detestaram o terceiro mandato de Lula, mas têm muito medo de um segundo mandato de Bolsonaro. O presidente, por enquanto, apenas jantou com empresários, com o PIB em forma de gente.
Como o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets, um aceno para o microcentro chegaria tarde e com resultado incerto. Mas depois de quatro anos de negligência política e erros econômicos, não há muitas alternativas restantes. O Brasil segue em campanha eleitoral enquanto a lama seca e endurece, e ninguém sabe mais quem está sujo e quem está limpo.
Citações Notáveis
O Brasil virou lixo da festa dos quengos de tribunais, finanças e política— análise do colunista sobre o estado institucional durante a campanha