No domingo que se aproxima, o Brasil decide mais do que seu próprio destino: decide se a América Latina terá voz própria na ordem global que se redesenha. A cientista política Guadalupe González, do Colégio do México, situa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro como o eixo em torno do qual giram os planos americanos de restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental — planos que, segundo ela, já não se apoiam na persuasão, mas na força. Um continente de 214 milhões de brasileiros, com assento real nos fóruns multilaterais, escolhe entre ser contrapeso ou aliado desse projeto.
Eleição no Brasil pode frear ou impulsionar agenda de Trump na América Latina
Estamos dando absolutamente tudo para os EUA e não recebendo nada em troca
Por que essa eleição brasileira importa tanto para os EUA? Não é apenas uma eleição nacional?
Porque o Brasil governa 214 milhões de pessoas e tem peso real em instituições globais como o Brics. Se o Brasil se alinhar completamente com Washington, a América Latina inteira fica sem contrapeso.
Mas a pesquisadora está especulando sobre consequências. Sabemos que Trump quer restaurar influência — isso está no documento de segurança nacional. Mas quanto dessa agenda depende realmente de quem governa o Brasil?
Depende muito. Lula historicamente resiste a pressões americanas. Flávio Bolsonaro seria muito mais dócil. É a diferença entre uma região que negocia e uma que obedece.
E por que os governos latino-americanos estariam cometendo esse erro?
Porque estão assustados. A insegurança é real — narcotráfico, violência. Trump oferece uma solução linha-dura. Seus aliados usaram isso para vencer eleições em toda a região.
Mas González está criticando governos por serem "míopes" enquanto Trump tem aprovação em mínimas históricas. Isso não sugere que talvez a situação seja mais complexa do que ela está apresentando?
Talvez. Mas o ponto dela é que esses governos estão apostando tudo em um parceiro instável, sem garantias de retorno.
E se os democratas vencerem em novembro nos EUA?
Aí toda essa América Latina alinhada fica em posição fraca com uma administração que pode ter prioridades completamente diferentes.
Isso é especulação sobre o futuro. O que sabemos agora é que há uma tendência de vitórias de direita na região e que Trump está sendo mais agressivo. O resto é análise de cenários.
Então o Brasil é o termômetro?
Exatamente. Se Lula vencer, a região mantém alguma autonomia. Se Flávio vencer, Washington ganha um aliado-chave em um momento em que está reorganizando sua estratégia hemisférica.
Il Polso
- Washington declarou abertamente, em sua Estratégia de Segurança Nacional, a intenção de 'restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental' — e a eleição brasileira é o maior obstáculo ou o maior facilitador desse objetivo.
- A captura de Nicolás Maduro, atribuída a operações americanas sem provas públicas e sem resistência regional, revelou uma nova doutrina: força unilateral com custo político mínimo, sinalizando o que pode vir a seguir.
- O medo da insegurança varreu a região para a direita — Bolívia, Chile, Colômbia e Peru já elegeram governos alinhados a Washington, deixando o Brasil como o último grande pivô em disputa.
- González alerta que governos latino-americanos estão 'entregando tudo aos EUA sem receber nada em troca', num momento em que Trump enfrenta mínimas históricas de aprovação interna e eleições de meio mandato se aproximam.
- Se Flávio Bolsonaro vencer, o México ficará isolado como única grande economia de centro-esquerda num continente que se move para a direita — e a janela para uma negociação regional de força pode se fechar definitivamente.
No domingo que se aproxima, o Brasil decide mais do que seu próprio destino: decide se a América Latina terá voz própria na ordem global que se redesenha. A cientista política Guadalupe González, do Colégio do México, situa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro como o eixo em torno do qual giram os planos americanos de restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental — planos que, segundo ela, já não se apoiam na persuasão, mas na força. Um continente de 214 milhões de brasileiros, com assento real nos fóruns multilaterais, escolhe entre ser contrapeso ou aliado desse projeto.
No domingo que se aproxima, o Brasil vai às urnas carregando um peso que ultrapassa suas fronteiras. Para a cientista política Guadalupe González, pesquisadora do Colégio do México, a escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro definirá se a América Latina consegue manter agenda geopolítica própria ou se aceita o projeto americano de restaurar sua esfera de influência — objetivo declarado na Estratégia de Segurança Nacional divulgada por Washington no ano passado.
O Brasil ocupa posição singular nessa equação. Com 214 milhões de habitantes e presença real em fóruns como o Brics, é o país com maior margem de manobra para servir de contrapeso aos planos americanos. Uma vitória de Lula funcionaria como travão; uma vitória de Bolsonaro representaria alinhamento quase total com Washington. O México, outro gigante governado pela esquerda, não possui o mesmo alcance institucional para equilibrar a balança.
Esse cenário se desenrola numa América Latina que já se moveu significativamente para a direita. Bolívia, Chile, Colômbia e Peru elegeram governos alinhados a Washington, impulsionados pelo medo da insegurança — uma ansiedade que González descreve como 'carta branca para políticas de segurança'. A captura de Maduro, operação americana sem provas públicas e sem resistência regional, ilustrou a nova doutrina: força unilateral com custo político e militar mínimo.
González vê nesse movimento um cálculo equivocado. Os EUA, argumenta, deixaram de ser parceiro confiável até para aliados próximos, enquanto Trump enfrenta mínimas históricas de aprovação interna às vésperas das eleições de meio mandato. 'Estamos dando absolutamente tudo para os EUA e não recebendo nada em troca', critica a pesquisadora. O Brasil, com seu peso global, poderia ser o fulcro de uma região que negocia de posição de força. A pergunta que fica é se essa oportunidade ainda estará disponível depois de domingo.
No domingo que se aproxima, o Brasil vai às urnas em um momento que transcende suas fronteiras. A escolha entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro não é apenas sobre quem governará os 214 milhões de brasileiros nos próximos anos — é sobre qual caminho a América Latina inteira seguirá na próxima década, segundo a cientista política Guadalupe González, pesquisadora do Colégio do México.
O contraste é nítido. Uma vitória de Lula, na avaliação de González, funcionaria como um travão nos planos de Washington para a região. Uma vitória de Bolsonaro significaria um alinhamento quase total com os interesses americanos. O que está em jogo, explica a pesquisadora, é se a América Latina conseguirá manter sua própria agenda geopolítica ou se aceitará o projeto dos Estados Unidos de restaurar sua esfera de influência — um objetivo que ganhou clareza quando Washington divulgou, em novembro do ano passado, sua Estratégia de Segurança Nacional, na qual afirma querer "restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental".
O peso do Brasil nessa equação é desproporcional. Enquanto 64% da população latino-americana vive sob governos de centro ou centro-esquerda, apenas 35% ou 36% está sob administrações de direita ou centro-direita. Mas o Brasil não é apenas um número demográfico. É um dos poucos países da região com influência real em fóruns multilaterais de alcance global — particularmente no Brics, o bloco de economias emergentes. González define o Brasil como "aquele com a maior margem de manobra" para servir como contrapeso aos planos americanos. O México, outro gigante governado pela esquerda, não possui esse mesmo alcance institucional.
A eleição brasileira ocorre em um contexto de mudança profunda na postura americana. Os Estados Unidos, segundo González, estão deixando de ser uma potência hegemônica que governa através da persuasão e da construção de instituições para se tornar uma potência de domínio em declínio que impõe mudanças pelo uso da força. Esse deslocamento ficou evidente no caso de Nicolás Maduro. A captura do ditador venezuelano em janeiro deste ano, após meses de ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico que Washington atribuiu ao narcotráfico sem apresentar provas, exemplifica essa nova abordagem. Nenhum soldado americano morreu. Não houve reação de resistência da América Latina. O Conselho de Segurança da ONU não retaliou. Foi, na análise de González, um uso unilateral da força com custo político e militar mínimo.
Essa transformação deixa a região em território incerto. A insegurança — uma preocupação histórica dos latino-americanos — tornou-se a plataforma eleitoral perfeita para Trump e seus aliados. "O medo é uma carta branca para políticas de segurança", observa González. Candidatos de direita em toda a região souberam explorar essa ansiedade com eficácia. Rodrigo Paz venceu na Bolívia, José Antonio Kast no Chile, Abelardo de la Espriella na Colômbia, Keiko Fujimori no Peru. Se Flávio Bolsonaro vencer no Brasil, o México permanecerá como uma ilha de centro-esquerda em um continente que se move para a direita.
Mas González vê nesse movimento um cálculo estratégico equivocado. Os Estados Unidos, argumenta, deixaram de ser um parceiro confiável — até mesmo para seus aliados mais próximos. Internamente, Trump enfrenta mínimas históricas de aprovação. As eleições de meio mandato nos EUA, marcadas para novembro, ocorrerão enquanto o republicano lida com essa instabilidade política. Ainda assim, governos latino-americanos parecem dispostos a um alinhamento cego com Washington. "Nossos governos estão extremamente míopes, guiados por um horizonte político e eleitoral muito imediato", critica a pesquisadora. "Estamos dando absolutamente tudo para os EUA e não recebendo nada em troca, em um momento em que Trump perde sua aprovação interna."
A pergunta que paira é incômoda: o que acontecerá com essa América Latina alinhada se os democratas vencerem as eleições americanas? González vê o momento como uma oportunidade perdida. O Brasil, com sua capacidade de influência global e seu peso demográfico, poderia ser o fulcro de uma região que negocia de posição de força. Em vez disso, a região corre o risco de entregar suas cartas enquanto o jogo ainda está sendo jogado.
Citazioni salienti
O que está em jogo é a capacidade da América Latina, nas próximas décadas, de ser um ator com sua própria agenda ou de acatar o projeto dos EUA de restaurar sua esfera de influência— Guadalupe González, pesquisadora do Colégio do México
Estamos testemunhando algo monumental: o fim de um tipo de ordem liberal e multilateral na América Latina— Guadalupe González