Em quase um século desde que as sufragistas conquistaram o direito ao voto, o Brasil ainda reserva às mulheres menos de um quinto das cadeiras do Parlamento — uma desproporção que não é apenas aritmética, mas uma falha estrutural diante de uma epidemia de violência que ceifa vidas femininas a cada poucos minutos. A colunista argumenta que a representação política não é um ideal abstrato, mas uma necessidade concreta: as leis que mais protegeram mulheres foram escritas por mulheres que conheciam a dor por dentro. Enquanto homens que desrespeitam corpos femininos votam sobre eles, o voto permane
Eleger mulheres é essencial para combater violência de gênero no Brasil
Sabemos onde nos doem os calos
Por que a representação feminina no Parlamento é tão importante para combater violência de gênero? Não seria mais direto focar em políticas públicas específicas?
Porque quem vive o problema entende suas nuances de forma que ninguém mais consegue. As mulheres que escreveram a Lei Maria da Penha sabiam exatamente onde dói. Mas também porque quando mulheres estão na mesa de decisão, pautas que afetam mulheres não são votadas na calada da noite como moeda de troca.
Mas é justo dizer que a Lei Maria da Penha foi "capitaneada" por mulheres se foi feita "a muitas mãos"? A fonte reconhece isso, mas a narrativa pode dar a impressão de que foi um esforço principalmente feminino.
Verdade. O que importa é que mulheres estavam lá, sintonizadas com a questão, e isso fez diferença. Mas você está certo em questionar se a liderança foi exclusivamente feminina.
E quanto aos números de violência — uma morte a cada dois dias por aborto inseguro, um estupro a cada seis minutos — de onde vêm essas cifras? São números consolidados?
A coluna não cita a fonte desses dados. São números que circulam em debates sobre violência de gênero no Brasil, mas não sabemos se vêm de pesquisas do governo, de ONGs, ou de estimativas. Precisaríamos verificar.
Mesmo assim, ninguém discute que a violência é epidêmica. Os números exatos podem variar, mas a escala do problema é inegável.
O que você acha do argumento de que mulheres no Parlamento sofrem violência também — que isso mostra que o problema é estrutural?
Mostra que nenhuma posição de poder protege uma mulher da misoginia. Isa Penna, Maria do Rosário, Manuela D'Ávila — todas enfrentaram violência justamente porque estavam em espaços de poder. Isso reforça que o problema não é individual, é cultural.
Mas também levanta uma questão: se mulheres eleitas sofrem violência mesmo dentro do Parlamento, como mais representação feminina vai resolver isso sem mudanças culturais mais profundas?
Não resolve sozinha. Mas é um começo. Você não muda cultura sem ter vozes diferentes na mesa. E você não tem vozes diferentes se mulheres são 18% da Câmara.
El Pulso
- O Brasil vive uma emergência silenciosa: uma mulher morre a cada dois dias por aborto inseguro, um estupro ocorre a cada seis minutos e quatro feminicídios acontecem por dia — números que tornam urgente a questão de quem legisla sobre violência de gênero.
- Com apenas 18% da Câmara e 19% do Senado ocupados por mulheres, o Parlamento brasileiro governa metade da população com uma fração ínfima de sua voz — uma contradição democrática que se traduz em leis votadas na calada da noite e direitos reprodutivos usados como moeda de troca.
- Nem as portas do Parlamento protegem as eleitas: deputadas foram encoxadas por colegas, ameaçadas de morte e humilhadas publicamente, revelando que a violência estrutural não respeita mandatos nem cargos.
- As leis mais eficazes no combate à violência de gênero — como a Lei Maria da Penha e a Lei Lola — nasceram de mulheres legisladoras sintonizadas com a experiência vivida, provando que representação não é símbolo, mas método.
- A resposta proposta é direta: usar o voto com propósito deliberado para eleger mulheres que compreendem a luta por dentro, transformando um direito conquistado há quase cem anos em instrumento ativo de proteção.
Em quase um século desde que as sufragistas conquistaram o direito ao voto, o Brasil ainda reserva às mulheres menos de um quinto das cadeiras do Parlamento — uma desproporção que não é apenas aritmética, mas uma falha estrutural diante de uma epidemia de violência que ceifa vidas femininas a cada poucos minutos. A colunista argumenta que a representação política não é um ideal abstrato, mas uma necessidade concreta: as leis que mais protegeram mulheres foram escritas por mulheres que conheciam a dor por dentro. Enquanto homens que desrespeitam corpos femininos votam sobre eles, o voto permanece como o instrumento mais imediato de transformação disponível.
As sufragistas que conquistaram o direito ao voto feminino há quase um século dificilmente imaginariam que, décadas depois, algumas mulheres cogitariam abrir mão dele em favor de um voto único familiar — exercido, claro, pelo homem. O movimento é marginal, mas sintomático: em quase cem anos de democracia, pouco se aproveitou esse direito para eleger outras mulheres.
Hoje, mulheres ocupam apenas 18% da Câmara e 19% do Senado brasileiro. A desproporção vai além da injustiça simbólica — ela tem consequências diretas sobre quem legisla em meio a uma epidemia de violência: uma morte a cada dois dias por aborto inseguro, um estupro a cada seis minutos, quatro feminicídios por dia em média.
Não por acaso, as leis mais importantes no combate a essa violência foram escritas por mulheres. A Lei Lola, que combate a misoginia digital, foi proposta pela deputada Luizianne Lins. A Lei Maria da Penha teve como relatora Jandira Feghali e foi construída por mãos femininas — porque, como disse uma de suas autoras, Leila Barsted, 'sabemos onde nos doem os calos'.
Mas a violência não para na porta do Parlamento. Deputadas foram encoxadas por colegas diante de outros parlamentares, ameaçadas de morte e publicamente humilhadas. As mulheres eleitas para proteger outras mulheres também precisam ser protegidas — e isso revela o quanto as construções culturais que sustentam a violência são profundas e se retroalimentam.
É nesse contexto que o argumento se torna urgente: o voto está nas mãos. Usá-lo para eleger mulheres que conhecem essa luta por dentro não é apenas um gesto de solidariedade — é a continuação do trabalho que as sufragistas começaram.
As sufragistas que conquistaram o direito ao voto para as mulheres há quase um século provavelmente não imaginavam um cenário em que algumas mulheres considerassem abrir mão desse direito em nome de um voto único por família — obviamente exercido pelo homem. Esse movimento é minúsculo, uma aberração conservadora que merece atenção apenas como documento de uma época sombria. Mas ele aponta para uma realidade mais ampla: em quase cem anos de democracia, pouco aproveitamos o voto que nos foi conquistado para eleger outras mulheres.
No Brasil de hoje, mulheres ocupam apenas 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 19% do Senado. Não chegam a duas para cada dez parlamentares. A desproporção é gritante quando se considera que mulheres são metade da população. Mas a importância de aumentar essa representação vai além da aritmética democrática. A esfera política precisa refletir quem ela governa. Precisamos de diversidade de perspectivas nas decisões que afetam toda a sociedade. E, talvez mais urgentemente, precisamos de mulheres legislando sobre questões de gênero porque vivemos uma epidemia de violência que as afeta de forma única e devastadora.
As leis mais importantes no combate a essa violência foram capitaneadas por mulheres que entendem o problema na pele. A Lei Lola, que combate a misoginia na internet, teve como autora a deputada federal Luizianne Lins, do PT, apoiada por coletivos feministas. A Lei Maria da Penha, marco na proteção contra violência doméstica, teve como relatora Jandira Feghali, do PCdoB, embora tenha sido construída por muitas mãos — mãos de mulheres, como ressaltou uma de suas autoras, Leila Barsted, porque "sabemos onde nos doem os calos".
Mas a violência contra mulheres não respeita nem as portas do Parlamento. Isa Penna, deputada estadual do PCdoB, foi encoxada por um colega na frente de outros parlamentares. Maria do Rosário enfrentou um diálogo infame com Jair Bolsonaro, então deputado, que disse não a estupraria porque ela não merecia. Manuela D'Ávila recebeu uma série de ameaças à sua integridade física que quase a afastaram da política. As mulheres eleitas para nos proteger também sofrem violência no exercício dessa proteção. Somos todas afetadas por construções culturais e sociais que estruturam as relações e se retroalimentam, como apontou a própria Maria do Rosário.
É revoltante ver homens que não respeitam nossos corpos legislando sobre eles, votando pautas cruciais para mulheres na calada da noite, usando direitos reprodutivos como moeda de troca para benefício pessoal. E isso acontece em um país onde uma mulher morre a cada dois dias por aborto inseguro. Onde ocorre um estupro a cada seis minutos. Onde há, em média, quatro feminicídios por dia. Os números não deixam espaço para dúvida sobre a urgência da questão.
Desanimar diante desse quadro seria compreensível, mas as sufragistas já nos mostraram o caminho. Elas conquistaram o direito de votar. Agora cabe a nós usá-lo com propósito: eleger mulheres que entendem essa luta, que estão sintonizadas com as questões que nos afetam, que podem legislar com a autoridade de quem vive a violência que buscam combater. O voto está nas mãos. A escolha é clara.
Citas Notables
Sabemos onde nos doem os calos— Leila Barsted, autora da Lei Maria da Penha, sobre por que mulheres entendem violência de gênero
Somos todas afetadas por construções culturais e sociais que estruturam as relações e se retroalimentam— Maria do Rosário, sobre a natureza estrutural da violência de gênero