No coração do mercado editorial brasileiro, uma disputa silenciosa sobre o preço dos livros revela tensões mais profundas: quem tem o direito de decidir quanto vale o conhecimento, e a que custo se democratiza a leitura? As críticas de Alexandre Martins Fontes às políticas de desconto provocaram editoras a saírem das sombras para defender sua sobrevivência num país onde livrarias escasseiam e leitores ainda são poucos. O debate, longe de ser apenas comercial, toca na essência de como uma sociedade valoriza — ou desvaloriza — seus livros.
Editoras rebatem críticas de Martins Fontes sobre descontos em livros
O desafio é encontrar equilíbrio entre canais que têm papéis complementares
Por que Martins Fontes está tão preocupado com descontos em livros? Parece que preços mais baixos beneficiariam os leitores.
Ele representa as livrarias independentes, que não conseguem competir com a Amazon em volume de descontos. Se a Amazon vende um livro novo com 40% de desconto, a livraria de bairro não consegue acompanhar e fecha.
Mas o próprio Martins Fontes é dono de uma editora. Não há um conflito de interesse aí? Ele quer proteger as margens das editoras, não necessariamente as livrarias.
É verdade, mas a Associação Nacional de Livrarias que ele preside realmente sofre com a concorrência de preço. O ponto dele é que descontos agressivos prejudicam todo o ecossistema.
E as editoras maiores concordam com isso?
Parcialmente. A Sextante e a Record reconhecem que os descontos são excessivos, mas argumentam que precisam deles para chegar a mais leitores num país com baixíssimos índices de leitura.
Então qual é o número real de cidades sem livrarias? A Record menciona "inúmeras cidades", mas não diz quantas. Isso é um dado importante que não está no texto.
Exato. E a Lei Cortez em tramitação no Congresso tenta resolver isso limitando descontos nos primeiros 12 meses de lançamento. Mas ninguém sabe se vai funcionar.
Quem não quis falar?
Companhia das Letras, Rocco e HarperCollins. Três das cinco maiores editoras do país preferiram silêncio.
O que é revelador. Elas podem estar esperando para ver como a Lei Cortez se desenrola antes de tomar posição pública.
O Pulso
- As palavras de Martins Fontes contra os descontos agressivos na Amazon e em feiras universitárias acenderam um conflito latente no setor editorial, forçando editoras a se posicionarem publicamente.
- Editoras de peso como Companhia das Letras, Rocco e HarperCollins optaram pelo silêncio, enquanto bastidores fervilhavam com críticas à postura considerada agressiva e pouco propositiva do presidente da Associação Nacional de Livrarias.
- A Sextante admite que o ecossistema do livro está doente e mantém equipe dedicada a monitorar preços diariamente, mas reconhece a dificuldade de resistir a um mercado que treinou o consumidor a esperar promoções constantes.
- O Grupo Record defende que romper com canais de venda não é solução, e que e-commerce, plataformas digitais e livrarias físicas precisam coexistir de forma complementar e financeiramente sustentável.
- A Lei Cortez, em tramitação no Congresso, surge como possível árbitro: ao limitar descontos em lançamentos recentes, busca proteger a bibliodiversidade sem sufocar o acesso à leitura.
No coração do mercado editorial brasileiro, uma disputa silenciosa sobre o preço dos livros revela tensões mais profundas: quem tem o direito de decidir quanto vale o conhecimento, e a que custo se democratiza a leitura? As críticas de Alexandre Martins Fontes às políticas de desconto provocaram editoras a saírem das sombras para defender sua sobrevivência num país onde livrarias escasseiam e leitores ainda são poucos. O debate, longe de ser apenas comercial, toca na essência de como uma sociedade valoriza — ou desvaloriza — seus livros.
Duas semanas depois de Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias, atacar publicamente as políticas de desconto em livros — da Amazon às feiras universitárias da USP —, suas palavras continuaram a reverberar nos bastidores editoriais. Desta vez, porém, a reação veio de dentro do setor: editores procuraram a coluna em sigilo para contestar o que consideraram uma abordagem excessivamente agressiva e pouco construtiva.
O Sindicato Nacional dos Editores de Livros, pela voz de seu presidente Dante Cid, preferiu não interferir nas práticas comerciais dos associados, mas defendeu a aprovação da Lei Cortez — proposta em tramitação no Congresso que limitaria descontos em lançamentos recentes, com o objetivo de preservar a bibliodiversidade e a saúde do ecossistema editorial.
Das cinco editoras citadas nominalmente por Fontes como responsáveis por agir, três — Companhia das Letras, Rocco e HarperCollins — optaram pelo silêncio. Marcos da Veiga Pereira, da Sextante, concordou em parte com o diagnóstico: o setor está doente e os descontos são agressivos demais. Mas ponderou que a solução é complexa, num mercado que já condicionou o consumidor a preços promocionais constantes.
A análise mais aprofundada veio de Cassiano Elek Machado, do Grupo Record. Ele lembrou que o Brasil tem baixos índices de leitura e muitas cidades sem livrarias, o que obriga as editoras a diversificar canais de distribuição. Ao mesmo tempo, reconheceu que guerras de preço no ambiente digital ameaçam a sustentabilidade de toda a cadeia. Para Machado, a saída não está em romper com nenhum canal, mas em construir relações comerciais equilibradas — onde a conta feche para todos e, ao mesmo tempo, mais brasileiros possam ter acesso aos livros. É nesse ponto que o debate permanece, sem resposta fácil à vista.
Duas semanas após Alexandre Martins Fontes, presidente da Associação Nacional de Livrarias e dono da editora WMF Martins Fontes, criticar duramente a política de descontos em livros em entrevista a esta coluna, suas palavras ecoaram nos bastidores do mercado editorial. Não era a primeira vez que ele atacava as promoções na Amazon, nas feiras universitárias como a da USP, ou nas vendas diretas das editoras aos leitores. Mas desta vez, sua postura ganhou força e respaldo significativo entre livreiros.
A reação não demorou. Vários editores procuraram a coluna em sigilo para questionar os argumentos de Fontes, considerando sua abordagem agressiva demais e pouco propositiva em relação ao trabalho das editoras. Segundo eles, as editoras enfrentam um ambiente comercial cada vez mais desafiador e precisam encontrar maneiras criativas de levar seus livros a mais leitores. O Sindicato Nacional dos Editores de Livros, entidade que representa o setor, foi procurado para esclarecer sua posição neste dilema.
Dante Cid, presidente do sindicato, afirmou que não interfere nas práticas comerciais de seus associados, mas defendeu o avanço da Lei Cortez, medida em tramitação no Congresso que busca limitar os descontos em lançamentos recentes. Segundo Cid, essa lei poderia evitar promoções extremamente agressivas no primeiro ano de lançamento e fortalecer a bibliodiversidade, essencial para a saúde do ecossistema do livro.
A coluna procurou as cinco editoras com maior poder de mercado, todas citadas nominalmente por Martins Fontes como aquelas que deveriam adotar medidas mais decisivas contra os descontos. Companhia das Letras, Rocco e HarperCollins preferiram não se pronunciar. Marcos da Veiga Pereira, diretor da Sextante e ex-presidente do sindicato dos editores, concordou parcialmente com Fontes, reconhecendo que o ecossistema do livro está doente e que as políticas de descontos são excessivamente agressivas. Mas ressalvou que a solução não é simples. Na Sextante, uma equipe monitora diariamente os preços dos lançamentos e dos 50 títulos mais vendidos, tentando minimizar o impacto. Ainda assim, é extremamente difícil competir num ambiente que cria eventos promocionais constantes, acostumando o consumidor a preços mais baixos.
Cassiano Elek Machado, diretor editorial do Grupo Record, ofereceu a análise mais detalhada. Ele apontou os baixos índices de leitura no Brasil e as inúmeras cidades sem livrarias, lembrando que as editoras têm a responsabilidade de disponibilizar os livros de seus autores no maior leque possível de canais de distribuição. Ao mesmo tempo, reconheceu que as livrarias cumprem um papel fundamental no ecossistema. No ambiente digital, certas dinâmicas de marketplace podem estimular guerras de preço que prejudicam a sustentabilidade da cadeia. Dentro dos limites da legislação concorrencial, a Record tem procurado evitar que o preço seja o principal ou único instrumento de competição.
Para Machado, o desafio é encontrar equilíbrio. Ele não acredita que a solução esteja em endurecer a relação com um canal específico ou romper com ele. E-commerce, plataformas digitais e livrarias físicas têm papéis importantes e complementares. A discussão precisa envolver toda a cadeia e buscar relações comerciais sustentáveis, nas quais a conta feche para todos e que, simultaneamente, permitam que mais brasileiros tenham acesso aos livros. É neste ponto que o debate permanece em aberto: como equilibrar a necessidade de ampliar o acesso à leitura com a sustentabilidade financeira de um setor que depende de múltiplos canais de venda.
Citações Notáveis
O ecossistema do livro está doente e as políticas de descontos são excessivamente agressivas, mas a solução não é fácil— Marcos da Veiga Pereira, diretor da Sextante
A discussão precisa envolver toda a cadeia e buscar relações comerciais sustentáveis, nas quais a conta feche para todos— Cassiano Elek Machado, diretor editorial do Grupo Record