Edital Cultura dos Trilhos reprova todos os projetos por IA e falta de identidade local

99% das propostas trouxeram elementos que não são da cultura de Campo Grande
Solimar de Almeida, diretora de Programas Culturais, explicou o problema central da reprovação em massa.
Mark

Por que rejeitar todos os projetos? Parece uma decisão extrema.

Mimi

A comissão encontrou problemas sistemáticos. Não era só um ou dois projetos ruins — era praticamente tudo fora do escopo.

Luke

Mas quantos projetos foram inscritos no total? A reportagem não diz.

Mimi

Verdade, não especifica. Sabemos que buscavam dois artistas, mas não quantas propostas chegaram.

Mark

E quanto ao uso de IA — isso foi realmente decisivo?

Mimi

Foi um dos problemas, mas não o único. O maior foi que 99% das propostas trouxeram referências genéricas do estado, não da cidade.

Luke

Esse número de 99% vem de quem? De Solimar apenas?

Mimi

Sim, ela é a diretora de Programas Culturais. É uma estimativa dela, não uma contagem exata.

Mark

Então a questão central é: os artistas não entenderam o que a cidade queria?

Mimi

Ou entenderam, mas acharam mais fácil trabalhar com símbolos amplos do Pantanal do que pesquisar a identidade específica de Campo Grande.

Luke

A reportagem não deixa claro se houve orientação prévia aos candidatos. O edital foi bem divulgado? Os artistas tiveram chance de tirar dúvidas antes?

Mimi

Não aparece na reportagem. Mas agora vão fazer uma ação para esclarecer dúvidas antes das novas inscrições.

Mark

Então essa é a aprendizagem — comunicar melhor o que se espera.

  • A comissão tomou uma decisão rara ao reprovar todos os projetos inscritos, deixando sem selecionados um edital com 120 mil reais em investimento para murais em um viaduto ferroviário.
  • O uso de inteligência artificial como entrega final foi considerado uma substituição inaceitável do processo criativo humano, tornando impossível garantir que o mural real corresponderia à proposta.
  • A falha mais sistemática foi a confusão entre identidade estadual e identidade municipal: onças, lobos-guará e referências ao Pantanal dominaram as propostas, enquanto a cultura específica de Campo Grande ficou ausente.
  • Portfólios sem documentação fotográfica, imagens já publicadas e cronogramas concentrados em fins de semana completaram o quadro de inabilitações.
  • A Prefeitura abrirá um novo edital ainda esta semana, com as mesmas regras, mas com linguagem mais clara e ações de esclarecimento para orientar os artistas antes das novas inscrições.

Em Campo Grande, um edital público de muralismo terminou sem vencedores: a comissão do programa Cultura dos Trilhos rejeitou os dois únicos projetos inscritos, identificando o uso de inteligência artificial como produto final, falta de ineditismo e, sobretudo, uma confusão reveladora entre retratar a capital e retratar o estado. O episódio levanta uma questão mais ampla sobre o que significa conhecer — e representar — o lugar onde se vive. Um novo edital será aberto, desta vez com a esperança de que os artistas olhem para Campo Grande com olhos de Campo Grande.

Na segunda-feira, a comissão do edital Cultura dos Trilhos tomou uma decisão incomum: reprovou todos os projetos inscritos. O programa, lançado pela Prefeitura de Campo Grande por meio da Fundação Municipal de Cultura, buscava dois artistas para pintar murais no viaduto da linha férrea na Rua Maracaju, com 60 mil reais destinados a cada obra. O processo de seleção terminou em reprovação generalizada.

Os problemas foram múltiplos. Candidatos utilizaram inteligência artificial na concepção ou entrega final das propostas — o que a comissão considerou uma substituição do processo criativo humano exigido pelo edital. Outros apresentaram imagens já publicadas, violando a exigência de ineditismo, ou não conseguiram comprovar experiência em muralismo com portfólios adequados. Havia ainda cronogramas inviáveis, com etapas concentradas nos fins de semana.

Mas o problema mais profundo foi outro. O edital pedia obras sobre a identidade e a cultura de Campo Grande — história, patrimônio, fauna, flora, diversidade étnica. Segundo Solimar de Almeida, diretora de Desenvolvimento de Programas e Projetos Culturais, 99% das propostas ignoraram essa exigência, trazendo referências ao estado de Mato Grosso do Sul em geral — especialmente ao Pantanal. Onças e lobos-guará se repetiam, mas pouco tinha a ver com a capital. Alguns projetos até utilizavam imagens de povos indígenas sem presença significativa em Campo Grande, como os Guató, ignorando as comunidades que realmente vivem na cidade.

Sobre o uso de IA, Solimar esclareceu que a ferramenta não era proibida em qualquer etapa do processo criativo — o problema era quando se tornava o produto final. Uma imagem gerada por IA não oferece garantia de que o artista conseguirá reproduzi-la em um mural real.

Com a reprovação total, a Prefeitura abrirá um novo edital ainda esta semana. As regras permanecerão as mesmas, mas o texto será mais claro sobre as expectativas, e haverá uma ação para esclarecer dúvidas antes das novas inscrições. O programa, financiado pela Política Nacional Aldir Blanc, recomeça do zero — desta vez, com a esperança de propostas que realmente falem de Campo Grande.

Na segunda-feira, a comissão responsável pela seleção do edital Cultura dos Trilhos tomou uma decisão incomum: rejeitou todos os projetos inscritos. O programa, lançado pela Prefeitura de Campo Grande através da Fundação Municipal de Cultura, buscava dois artistas para pintar murais no viaduto da linha férrea na Rua Maracaju, com investimento total de 120 mil reais — 60 mil para cada trabalho. O que deveria ter sido um processo de seleção terminou em reprovação generalizada, e agora tudo recomeça do zero.

Os problemas identificados pela comissão foram múltiplos e graves. Vários candidatos utilizaram inteligência artificial na concepção ou produção final de suas propostas, o que a comissão considerou uma substituição do processo criativo humano exigido pelo edital. Além disso, muitos projetos apresentavam imagens ou conteúdos já publicados anteriormente, violando a exigência de ineditismo. Alguns artistas também não conseguiram comprovar experiência anterior em muralismo, apresentando portfólios sem registros fotográficos ou documentação suficiente. Havia ainda cronogramas problemáticos, com etapas de execução concentradas nos fins de semana, o que a comissão considerou inviável operacionalmente.

Mas o problema mais sistemático foi outro. O edital pedia que as obras retratassem aspectos da identidade e cultura de Campo Grande — história, patrimônio, fauna, flora, diversidade étnica, manifestações populares. Segundo Solimar de Almeida, diretora de Desenvolvimento de Programas e Projetos Culturais, 99% das propostas ignoraram essa exigência. Em vez de retratar a capital, os artistas trouxeram elementos associados ao estado de Mato Grosso do Sul em geral, particularmente ao Pantanal. Onças, lobos-guará e outras referências amplas apareciam repetidamente, mas pouco tinha a ver com a identidade específica de Campo Grande.

A questão da representação indígena exemplifica bem o problema. Alguns projetos utilizavam imagens de povos originários — como os Guató — que não têm presença significativa na capital. Solimar explicou que os artistas poderiam trabalhar com a presença indígena em Campo Grande, mas deveriam considerar as etnias e comunidades que realmente fazem parte da realidade local, como as duas grandes comunidades indígenas que vivem na cidade. A diferença entre retratar o estado e retratar a cidade foi o ponto de ruptura.

Sobre o uso de inteligência artificial especificamente, Solimar deixou claro que a ferramenta não estava necessariamente proibida em qualquer etapa do processo criativo. O problema era quando ela se tornava o produto final apresentado. Quando um artista submete uma imagem gerada por IA como resultado final, fica impossível saber se ele conseguirá reproduzir aquilo no mural de verdade. O edital pedia que o artista mostrasse exatamente o que faria — e uma imagem de IA não oferecia essa garantia.

Com a reprovação total, a Prefeitura precisará abrir um novo edital. A assessoria jurídica orientou que um novo processo seria necessário para permitir que os mesmos artistas participassem novamente com propostas reformuladas. As regras permanecerão as mesmas, mas o texto será mais claro sobre o que se espera dos candidatos. A expectativa é que o novo edital seja publicado ainda nesta semana, acompanhado de uma ação para esclarecer dúvidas dos interessados antes das novas inscrições. O programa continua financiado pela Política Nacional Aldir Blanc, mas agora com a chance de começar novamente — desta vez, esperançosamente, com propostas que realmente falem de Campo Grande.

Quando você pede uma obra de arte, você está querendo que o artista mostre exatamente o que é que ele vai fazer
— Solimar de Almeida, diretora de Desenvolvimento de Programas e Projetos Culturais
Trouxeram mais voltados para Mato Grosso do Sul e não para Campo Grande. É mais para o Pantanal praticamente
— Solimar de Almeida
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