Em um momento em que os indicadores econômicos brasileiros apontam para cima — emprego, renda e atividade em expansão —, Lula enfrenta uma das mais antigas armadilhas da política: a distância entre o que os números dizem e o que as pessoas sentem. Enquanto o governo deixou a narrativa econômica sem disputa, a oposição preencheu esse vazio com imagens de supermercados caros e famílias endividadas. A eleição de 2026 se torna, assim, um estudo sobre como a percepção pode superar a realidade na formação do voto.
Economia favorável não se converte em votos para Lula enquanto oposição explora custo de vida
A economia pode muito, mas não pode tudo quando há cansaço institucional
Por que a economia melhorando não ajuda Lula? Parece contraditório.
Porque ninguém sente a melhora no bolso. O governo tinha números bons mas não disputou a narrativa. Deixou a oposição falar de preço alto e dívida.
Mas os números de poder de compra melhoraram desde 2022. O salário mínimo compra mais cesta básica agora.
Verdade. Mas 49% das pessoas dizem que a renda não é suficiente. E 82% das famílias têm dívidas. Isso pesa mais na cabeça das pessoas do que um gráfico.
Então é um problema de comunicação?
Principalmente. Flávio aparecia em supermercados, fazia propaganda. Lula não respondeu. E teve a crise do STF no meio.
Espera — 71% das pessoas esperam melhora nos próximos 12 meses. Isso não deveria ajudar Lula?
Deveria, mas a eleição é agora. O otimismo futuro não vira voto presente quando você está endividado.
E qual é o risco daqui para frente?
Flávio está crescendo. Passou de 45% para 46% em dez dias, ganhando em grupos-chave como classe média e evangélicos.
Dentro da margem de erro ainda.
Sim, mas a curva dele é ascendente. A de Lula está caindo.
Il Polso
- Com 82% das famílias endividadas e quase 30% inadimplentes, a sensação de aperto financeiro domina o cotidiano mesmo onde os dados macroeconômicos mostram melhora.
- Flávio Bolsonaro ocupou o espaço deixado vazio pelo governo, aparecendo em supermercados e veiculando spots sobre inflação alimentar enquanto o Palácio do Planalto permanecia em silêncio narrativo.
- Economistas alertam para um 'mini 2013' institucional: um cansaço difuso em relação a Lula, agravado pela crise envolvendo o STF, que corrói o aproveitamento político dos bons indicadores.
- O paradoxo é revelador — grupos que pior avaliam a própria situação financeira são justamente os mais otimistas com o futuro, o que torna a disputa por esses eleitores ainda mais imprevisível.
- A última pesquisa Datafolha coloca Lula com 47% e Flávio com 46% no segundo turno, dentro da margem de erro, com a curva do candidato do PL em ascensão entre classe média, evangélicos e o Sudeste.
Em um momento em que os indicadores econômicos brasileiros apontam para cima — emprego, renda e atividade em expansão —, Lula enfrenta uma das mais antigas armadilhas da política: a distância entre o que os números dizem e o que as pessoas sentem. Enquanto o governo deixou a narrativa econômica sem disputa, a oposição preencheu esse vazio com imagens de supermercados caros e famílias endividadas. A eleição de 2026 se torna, assim, um estudo sobre como a percepção pode superar a realidade na formação do voto.
A economia brasileira cresce, o emprego sobe e a renda melhora — mas Lula não consegue transformar esses avanços em capital político. Seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, avança explorando exatamente o oposto: a percepção de que a vida ficou mais cara e as dívidas explodiram.
Para economistas e cientistas políticos, o erro central do governo foi deixar a oposição dominar a narrativa econômica. Enquanto notícias sobre endividamento e preços altos tomavam conta do debate público, o Palácio do Planalto não respondeu. Flávio foi eficiente: apareceu em supermercados, usou spots na televisão e na internet, e explorou a sensação de que a comida continua cara. A disseminação de desinformação nas redes sociais dificultou ainda mais que a população enxergasse a melhora dos indicadores.
O endividamento das famílias é o peso que puxa para baixo. Dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto de 2026 — o maior nível desde 2010. Quase 30% estavam inadimplentes. Economistas apontam que a expansão do crédito e da bancarização iniciada no governo anterior chegou agora como uma conta a pagar.
A percepção dos brasileiros sobre a própria vida é menos sombria do que a narrativa pública sugere, mas ainda longe do conforto. Quarenta e três por cento avaliam sua situação financeira como ótima ou boa, mas 49% relatam algum grau de insuficiência financeira. O quadro é mais duro entre os mais pobres: apenas 32% das classes D e E consideram sua situação boa — e ainda assim 65% desse grupo esperam melhora nos próximos 12 meses.
O poder de compra do salário mínimo cresceu desde 2022, e o rendimento médio do trabalhador compra mais cestas básicas do que há quatro anos. Mas esses ganhos reais não se convertem em voto. A última pesquisa Datafolha antes da votação coloca Lula com 47% e Flávio com 46% no segundo turno — empate dentro da margem de erro —, com a curva do candidato do PL em ascensão consistente entre classe média, Sudeste, homens e evangélicos. A economia melhorou; a eleição ficou mais apertada.
A economia brasileira está crescendo. O emprego está subindo. A renda está melhorando. Mas Luiz Inácio Lula da Silva não consegue transformar esses números em votos, enquanto seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, ganha terreno explorando exatamente o oposto: a sensação de que a vida ficou mais cara e as dívidas explodiram.
Essa desconexão entre os dados macroeconômicos e a percepção do eleitor explica por que a campanha de Lula está travada. Segundo Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o governo tem à mão indicadores concretos de atividade, emprego e geração de renda que poderiam sustentar uma narrativa positiva. Mas não usou. O cientista político Antônio Lavareda é ainda mais direto: o principal erro foi deixar a oposição dominar a conversa sobre economia. Enquanto notícias sobre endividamento, inadimplência e preços altos tomavam conta do debate público, o Palácio do Planalto não respondeu. "O governo nunca enfrentou a narrativa da oposição de que a economia está no rumo errado. Esse tipo de propaganda não existiu", diz Lavareda.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, foi eficiente. Apareceu em supermercados. Usou spots na internet e na televisão. Explorou a percepção de que a comida continua cara. Vale observa que essa estratégia, combinada com a disseminação de notícias falsas nas redes sociais, torna difícil para a população enxergar a melhora dos indicadores. Há também, segundo ele, um certo cansaço em relação a Lula, agravado pela recente crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Vale compara o ambiente a um "mini 2013" institucional, referência aos protestos que varreram o país naquele ano. "Neste cenário, a economia de Lula pode muito, mas não pode tudo", afirma.
O endividamento das famílias é o peso que puxa para baixo. Dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto de 2026, o maior nível desde que a série começou em 2010. Em agosto de 2022, esse percentual era de 79%. Quase 30% das famílias estavam inadimplentes. José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, aponta que houve uma disseminação do crédito com maior bancarização desde o governo Jair Bolsonaro. "Essa conta chegou", diz. Ele também nota um cansaço em relação ao discurso de Lula, "até mais na forma do que no conteúdo".
A percepção das pessoas sobre suas próprias vidas, porém, é menos sombria do que a narrativa pública sugere. Quarenta e três por cento dos brasileiros avaliam como ótima ou boa sua situação financeira pessoal. Mas quase metade a considera regular, e uma parcela semelhante afirma que o dinheiro disponível não é suficiente para manter o orçamento. Segundo pesquisa Datafolha, 45% classificam a situação financeira pessoal e familiar como regular, enquanto 12% dizem que ela é ruim ou péssima. Quando a pergunta trata especificamente da renda, 34% afirmam que o dinheiro que ganham, somado ao da família, não é suficiente e às vezes falta. Outros 15% dizem que a renda é muito baixa e traz muitas dificuldades. Ao todo, 49% relatam algum grau de insuficiência financeira.
O quadro é particularmente desfavorável entre os segmentos que concentram a maior parte do eleitorado. Apenas 36% dos entrevistados com ensino fundamental consideram sua situação financeira ótima ou boa. O percentual cai para 33% entre aqueles com renda familiar de até dois salários mínimos e para 32% nas classes D e E. Mas há um paradoxo importante: mesmo entre os grupos que pior avaliam a própria situação atual, predomina a expectativa de melhora. Sessenta e cinco por cento dos integrantes das classes D e E acreditam que sua situação financeira vai melhorar nos próximos 12 meses, assim como 62% dos entrevistados com ensino fundamental. No conjunto da população, 71% esperam alguma melhora.
Em relação aos preços dos alimentos, fator que pesa entre eleitores mais pobres, o poder de compra melhorou desde 2022. Em agosto de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava o equivalente a 1,8 cesta básica em São Paulo, contra 1,62 em agosto de 2022. O rendimento médio brasileiro chegou a R$ 3.777 no trimestre encerrado em agosto, comprando 4,07 cestas básicas, acima das 3,54 de agosto de 2022. Mas esses ganhos não se traduzem em voto.
Na última pesquisa Datafolha antes da votação, Lula aparece com 47% dos votos totais no segundo turno, contra 46% de Flávio, em empate dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No levantamento anterior, o petista tinha 48%, e o adversário, 45%. A curva de Flávio, porém, é ascendente. Em cerca de dez dias, o candidato avançou de forma consistente em praticamente todos os grupos considerados mais sensíveis pelo bolsonarismo: classe média, Sudeste, homens e evangélicos. A economia está melhorando, mas a eleição está ficando mais apertada.
Citazioni salienti
O governo nunca enfrentou a narrativa da oposição de que a economia está no rumo errado. Esse tipo de propaganda não existiu.— Antônio Lavareda, cientista político
Neste cenário, a economia de Lula pode muito, mas não pode tudo.— Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados