Num sábado de fim de outubro, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo fez uma conta que ninguém gostaria de ver fechada: 5.026 mortes entre 10.351 infectados desde maio. A doença, provocada pela espécie Bundibugyo do vírus ebola, já é a segunda mais letal da história, atrás apenas da epidemia da África Ocidental. Por trás dos números há famílias e comunidades do leste do país, onde o vírus avança enquanto a ciência ainda não oferece ferramenta específica para detê-lo. É a lembrança de que epidemias medem-se também pela distância entre quem adoece e quem chega a tempo de cuidar.
Ebola ultrapassa 5 mil mortes no Congo e atinge letalidade próxima de 50%
Pessoas que nunca tivemos a oportunidade de tentar salvar
Os números são enormes. O que mais chama a atenção neles?
Um terço dos mortos nunca chegou a um centro de tratamento. Morreram antes de serem testados. Para a OMS, essa é uma das maiores preocupações.
Por que é tão difícil conter o surto?
Cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias de contato monitoradas. Há ainda conflitos armados no leste, resistência de parte da população e greves por salários atrasados.
Esse dado dos 80% vem do Africa CDC. É a estimativa de uma fonte, não uma contagem do Ministério.
E a questão da vacina?
A espécie é a Bundibugyo. Vacinas e tratamentos feitos para a Zaire não têm eficácia comprovada contra ela. Hoje só há cuidados de suporte.
Vale notar a formulação: eficácia não comprovada, não ineficácia comprovada. O texto não diz que funcionem ou não funcionem.
A letalidade de quase 50% é definitiva?
Não necessariamente. É a razão entre mortes e casos hoje. Com 10.351 infectados, 5.026 mortes e 2.788 recuperados, sobram casos cujo desfecho o texto não informa.
E a greve em Tchomia mostra o peso disso: quatro meses sem salário numa unidade com cinco confirmados e dez suspeitos.
O Pulso
- Mais de cinco mil mortes já foram registradas, e quase metade dos infectados não sobreviveu.
- Cerca de 80% dos novos casos surgem fora das cadeias de contato que as autoridades conseguem acompanhar.
- Um terço dos mortos morreu antes de chegar a qualquer centro de tratamento, sem sequer ser testado.
- Em Tchomia, equipes de um centro de tratamento cruzaram os braços após meses sem salário, deixando pacientes sem assistência.
- Sem vacina ou terapia aprovada para a Bundibugyo, a resposta depende de encontrar os doentes mais cedo e manter as equipes em campo.
- O vírus já cruzou fronteiras e foi confirmado no Quênia e na Nigéria, ampliando o alcance geográfico do surto.
Num sábado de fim de outubro, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo fez uma conta que ninguém gostaria de ver fechada: 5.026 mortes entre 10.351 infectados desde maio. A doença, provocada pela espécie Bundibugyo do vírus ebola, já é a segunda mais letal da história, atrás apenas da epidemia da África Ocidental. Por trás dos números há famílias e comunidades do leste do país, onde o vírus avança enquanto a ciência ainda não oferece ferramenta específica para detê-lo. É a lembrança de que epidemias medem-se também pela distância entre quem adoece e quem chega a tempo de cuidar.
No sábado, 31 de outubro, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo atualizou os números de um surto que o país enfrenta desde maio: 5.026 mortes entre 10.351 infectados, com letalidade próxima de 50%. Outras 2.788 pessoas se recuperaram. É o segundo surto mais letal da história do ebola, perdendo apenas para a epidemia da África Ocidental, entre 2014 e 2016.
A doença já chegou a 67 das 178 zonas de saúde do país, com maior concentração no leste, sobretudo em Ituri e Kivu do Norte. Para o médico Patrick Otim, da Organização Mundial da Saúde, cada número representa famílias e comunidades devastadas.
O maior desafio é rastrear quem foi exposto ao vírus. Segundo o Africa CDC, cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias de contato monitoradas. Um terço das vítimas morreu sem nunca chegar a um centro de tratamento. A pergunta central, segundo Otim, é como alcançá-las mais cedo e convencê-las a buscar atendimento.
A resposta enfrenta conflitos armados, resistência de parte da população e greves de trabalhadores sem salário. Em Tchomia, em Ituri, funcionários de um centro de tratamento pararam para cobrar quatro meses de pagamentos atrasados, deixando sem assistência cinco pacientes confirmados e dez casos suspeitos.
O surto também ultrapassou fronteiras. Quênia e Nigéria confirmaram casos em outubro, e Uganda já havia registrado infecções. Não há vacina nem terapia aprovada para a Bundibugyo, espécie que não responde às ferramentas desenvolvidas contra a Zaire. Por enquanto, o combate depende de cuidados de suporte, de encontrar os doentes antes e de manter as equipes de saúde em campo.
No sábado, 31 de outubro, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo atualizou os números do surto de ebola que o país enfrenta desde maio: 5.026 mortes entre 10.351 pessoas infectadas. A letalidade chega a quase 50%. Outras 2.788 pessoas se recuperaram da doença.
O surto é causado pelo vírus Bundibugyo e foi declarado em meados de maio. Já é o segundo mais mortal da história do ebola. Só fica atrás da epidemia da África Ocidental, entre 2014 e 2016, que matou 11 mil pessoas em diferentes países.
Desde maio, a doença chegou a 67 das 178 zonas de saúde do Congo, em oito das 26 províncias. A maior concentração está no leste, sobretudo em Ituri e Kivu do Norte, que juntas somam 9.782 casos confirmados e 4.792 mortes. Para o médico Patrick Otim, gerente de área de programas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o marco é trágico porque não se trata apenas de um número: são famílias e comunidades devastadas.
Um dos maiores obstáculos é rastrear os contatos dos infectados. Segundo o Africa CDC, cerca de 80% dos novos casos estão fora das cadeias de contatos monitoradas pelas autoridades. Além disso, um terço das pessoas que morreram nunca chegou a um centro de tratamento e morreu antes mesmo de ser testada, segundo Otim. Ele descreveu essas vítimas como pessoas que a equipe nunca teve a chance de tentar salvar, e disse que a pergunta central é como chegar mais cedo a elas e levá-las a procurar atendimento.
A resposta esbarra em conflitos armados no leste, na resistência de parte da população às medidas de saúde e em greves de profissionais sem salário. Na sexta-feira, 30, os funcionários de um centro de tratamento em Tchomia, em Ituri, pararam para cobrar quatro meses de pagamentos atrasados. A unidade atendia cinco pacientes com diagnóstico confirmado e dez casos suspeitos.
O surto também cruzou fronteiras. Em outubro, Quênia e Nigéria confirmaram casos. O Quênia registrou oito infecções e duas mortes. Na Nigéria, o único paciente confirmado foi transferido para a Suíça. Já havia registros em Uganda. Com casos em três regiões africanas, é considerado o de maior alcance geográfico já observado no continente.
O ebola é uma doença grave causada por vírus da família Filoviridae, com espécies como Zaire, Sudan e Bundibugyo. É uma zoonose, e acredita-se que morcegos frugívoros sejam hospedeiros naturais, relação ainda em estudo. A transmissão entre pessoas ocorre pelo contato direto com sangue ou outros fluidos de alguém infectado, vivo ou morto, ou com objetos contaminados. Não é transmitida pelo ar. Os sintomas incluem febre alta repentina, dor de cabeça, dores musculares, fraqueza intensa, diarreia e vômitos; nos casos graves, hemorragias e falência de órgãos.
A espécie Bundibugyo foi identificada em 2007, no distrito de mesmo nome, em Uganda, e difere da Zaire, responsável pela epidemia de 2014 a 2016. A diferença pesa: vacinas e tratamentos desenvolvidos contra a Zaire não têm eficácia comprovada contra a Bundibugyo. Não há vacina nem terapia específica aprovada, e os pacientes recebem apenas cuidados de suporte para aliviar sintomas e tratar complicações. Sem isso, o controle depende de encontrar os doentes mais cedo e manter as equipes de saúde em campo.
Citações Notáveis
Não se trata apenas de um número: são famílias e comunidades devastadas por esse surto.— Patrick Otim, gerente de área de programas da OMS