A alma fica adormecida porque não quer ouvir
Em tempos em que a ficção serve de espelho para as tensões que a sociedade ainda não sabe nomear, Tony Ramos ocupa o centro do debate ao dar vida a Otoniel, um avô conservador que ama o neto gay mas não consegue compreendê-lo na novela 'Quem Ama Cuida', da Globo. Com mais de seis décadas de dramaturgia, o ator separa com clareza o homem que é do personagem que representa, afirmando que observa o mundo sem julgamentos enquanto Otoniel impõe convicções como verdades inegociáveis. A novela, escrita por Walcyr Carrasco, propõe que o diálogo — e não o afeto mal direcionado — é o único caminho capaz de atravessar o abismo entre gerações e curar o preconceito que muitas famílias brasileiras ainda carregam em silêncio.
- A tensão entre o amor de um avô e a incapacidade de aceitar a orientação sexual do neto coloca no centro da novela uma ferida real e cotidiana de muitas famílias brasileiras.
- Tony Ramos recusa qualquer identificação com a homofobia de Otoniel, deixando claro que o personagem representa uma parcela da sociedade com quem o ator não se reconhece.
- A novela provoca desconforto intencional ao mostrar que o preconceito geracional não é exclusividade dos mais velhos — jovens também reagem com agressividade diante do que não querem compreender.
- Ramos é categórico: o amor não justifica atitudes preconceituosas, e a única saída é o diálogo — uma posição que ancora sua fé cristã na tolerância e no acolhimento, não em verdades absolutas.
- A trajetória do personagem funciona como alerta social, convidando o público a refletir sobre quem são e como tratam aqueles que vivem de forma diferente.
Tony Ramos faz questão de deixar claro, antes de qualquer outra coisa, que Otoniel não tem nada a ver com ele. O personagem que interpreta em 'Quem Ama Cuida' é um avô conservador que reage com rigidez ao descobrir que o neto Mau Mau é gay — impondo suas convicções como verdades inegociáveis. Ramos, por sua vez, diz que olha para as pessoas pela janela da vida sem julgá-las. A distância entre ator e personagem é, para ele, tanto uma questão de integridade pessoal quanto uma chave para entender o que a novela quer dizer.
O convite para o papel veio do autor Walcyr Carrasco em setembro de 2025, durante um evento da Globo. Ao ler os primeiros capítulos, Ramos encontrou um homem de classe média baixa que trabalhou a vida inteira, economizou, construiu sua casa e foi atingido por uma tragédia familiar. O que o conquistou foi justamente a tensão interna do personagem: o conservadorismo que o define e a incapacidade de aprender e compreender o outro. Para o ator, esse conflito não é exclusividade dos mais velhos — há jovens igualmente fechados diante do que não querem entender.
A relação entre Otoniel e Mau Mau é o coração da trama. O avô ama o neto, mas não consegue aceitar plenamente quem ele é. Ramos vê nisso o maior mérito da novela: colocar em debate a intolerância e os conflitos geracionais que atravessam famílias brasileiras reais. Quando perguntado se o amor pode justificar o preconceito, ele é direto: não. O afeto pode ser a origem, mas não torna a atitude aceitável. O diálogo, insiste, é o único caminho.
Religioso, Ramos rejeita verdades absolutas e se inspira na mensagem de acolhimento de Cristo. Para ele, não é preciso ser igual ao outro — é preciso compreender, respeitar e apoiar. 'Às vezes, a alma fica adormecida porque não quer ouvir', diz o ator, numa frase que poderia ser dita tanto sobre Otoniel quanto sobre qualquer um de nós.
Tony Ramos senta à mesa para falar sobre Otoniel, o avó que interpreta na novela "Quem Ama Cuida", e a primeira coisa que deixa claro é a distância entre o homem que ele é e o personagem que representa. Enquanto Otoniel reage com rigidez ao descobrir que seu neto Mau Mau é gay, impondo suas próprias convicções como verdade inegociável, Ramos afirma que na vida privada procura observar as pessoas sem julgá-las. "Eu olho pela janela da vida e espio sem julgar o próximo. Otoniel é um brasileiro que não tem nada a ver comigo", diz o ator, que acumula mais de seis décadas de trabalho na dramaturgia.
O convite para o papel chegou em setembro de 2025, durante um evento da Globo, quando o autor Walcyr Carrasco o procurou pedindo que interpretasse um aposentado com quem muita gente pudesse se identificar. Ao ler os primeiros doze capítulos, Ramos se viu diante de um homem de classe média baixa que trabalhou a vida inteira, fez horas extras, economizou para construir sua casa e foi atingido por uma tragédia familiar. O personagem o conquistou imediatamente. O que torna Otoniel fascinante, segundo o ator, é justamente essa tensão entre o conservadorismo que o define e a incapacidade que ele demonstra de aprender, evoluir e compreender o outro. "Todos nós temos algum conservadorismo, mas muitas vezes ele é confundido com a incapacidade de aprender, evoluir e compreender o outro."
A relação entre Otoniel e Mau Mau é o coração da trama. O avó ama o neto, mas não consegue aceitar plenamente sua orientação sexual nem compreender suas escolhas. Para Ramos, esse é exatamente o mérito da novela: colocar em debate a intolerância, o preconceito e os conflitos geracionais que atravessam muitas famílias brasileiras. O ator reconhece que Otoniel representa uma parcela real da sociedade, e não apenas os mais velhos. Há jovens também que reagem com agressividade diante daquilo que não querem compreender. A novela funciona como um alerta para todos, provocando reflexão sobre quem somos e como tratamos o próximo.
Quando perguntado se o amor pode justificar atitudes preconceituosas, Ramos é categórico: não. O afeto pode ser a origem do preconceito, mas isso não o torna aceitável. O diálogo, para ele, é o único caminho para a compreensão. Religioso, o ator rejeita a ideia de verdades absolutas e se inspira na mensagem de acolhimento de Jesus Cristo. "Se a maioria das pessoas se declara cristã, é importante lembrar que não existe verdade absoluta. Acima de qualquer verdade está Deus. Cristo foi um homem de tolerância, de afeto e de acolhimento." Ele enfatiza que não é preciso ser igual ao outro, mas é necessário compreender, respeitar e apoiar. "Às vezes, a alma fica adormecida porque não quer ouvir."
Sobre a personagem misteriosa Francesca, interpretada por Nathalia Dill, que aparece e desaparece da trama, Ramos evita especulações. Ele reconhece que tem experiências pessoais de fé — frequentemente evoca sua avó materna em suas orações e às vezes sente sua presença — mas recusa a soberba de quem acredita ser dono da única verdade. Sua fé é forte, mas não cega nem obsessiva. Nasceu das experiências que viveu e é profundamente pessoal e intransferível.
A conversa se estende para além da novela. Ramos é um brasileiro que ama a seleção, e a lembrança que mais o emociona é a de 1958, quando celebrou o primeiro título mundial do Brasil na Vila Maria, em São Paulo, usando a camisa azul. Com a Copa do Mundo se aproximando, ele confia em Carlo Ancelotti e torce por cada jogador convocado. Sobre Neymar, sua posição é clara: levaria o craque para o Mundial. Pela experiência, pela criatividade e pelo que representa para as novas gerações. "Mesmo na partida contra a Croácia, na última Copa, ele mostrou sua capacidade ao criar jogadas e marcar um gol. Com Neymar em campo, você impõe outro tipo de respeito ao adversário."
Citações Notáveis
Eu olho pela janela da vida e espio sem julgar o próximo. Otoniel é um brasileiro que não tem nada a ver comigo— Tony Ramos
O amor não pode servir de justificativa para atitudes preconceituosas— Tony Ramos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que uma novela é o lugar certo para discutir homofobia e preconceito geracional?
Porque a novela entra na casa das pessoas semana após semana, capítulo após capítulo. Não é um discurso único. É uma história que permite que cada um reflita sobre si mesmo enquanto acompanha a vida de Otoniel e Mau Mau.
Mas Otoniel ama o neto. Como você equilibra isso — o amor genuíno com a rejeição à orientação sexual dele?
Exatamente. Esse é o ponto. O amor não justifica o preconceito. Você pode amar alguém e ainda estar errado sobre quem essa pessoa é. A novela mostra que isso precisa ser enfrentado e superado.
Você disse que observa as pessoas sem julgá-las. Como você faz isso na prática?
Tentando ouvir. Tentando entender de onde vem a pessoa, qual é a história dela. Otoniel foi educado de uma forma, e reage a partir disso. Mas isso não significa que ele não possa aprender.
E a fé? Você é religioso, mas parece rejeitar o fundamentalismo.
Completamente. Minha fé nasceu das minhas experiências, não foi imposta. E respeito todas as manifestações de fé. O que não suporto é a soberba de quem aponta o dedo e acredita ser dono da única verdade.
Você mencionou que às vezes sente a presença de sua avó. Acha que Francesca, aquela personagem misteriosa, é algo parecido?
Não tenho autoridade para falar sobre essas coisas publicamente. É um tema delicado. Mas sim, há coisas que não conseguimos explicar racionalmente, e tudo bem deixá-las em paz.
Como você vê o Brasil em 2026, considerando esses conflitos que a novela retrata?
Vejo um país que precisa aprender a dialogar. Temos muita gente com alma adormecida, que não quer ouvir. Mas também temos histórias como a de Otoniel e Mau Mau sendo contadas. Isso já é um começo.