Drones com explosivos viram nova arma em disputa de facções no Rio

Pelo menos três pessoas feridas em ataques recentes, incluindo duas crianças atingidas em festa de rua; moradores vivem com medo constante dentro de suas casas e comunidades.
Vive-se com muito medo mesmo dentro do próprio quintal
Uma moradora descreve o sentimento de conviver com ataques de drones em sua comunidade.
Mark

Como é que explosivos caseiros conseguem ser lançados com precisão por um drone?

Mimi

Não é uma questão de precisão cirúrgica. As "bombas tubo" são tubos de PVC preenchidos com pólvora, parafusos e vidro — artefatos relativamente simples que explodem por impacto. O drone apenas precisa chegar perto o suficiente e soltar. A imprecisão é parte do problema: atingem casas, carros, pessoas que não têm nada a ver com a disputa.

Mark

Por que as facções investem em equipamentos antidrone se eles próprios usam drones?

Mimi

Porque a vantagem está em quem controla o espaço aéreo. Se você consegue detectar e derrubar os drones do rival antes que lancem os explosivos, você ganha a batalha. É como uma corrida armamentista, mas no céu. Quem tem os melhores equipamentos de detecção e defesa tem a vantagem territorial.

Mark

As coberturas que estão instalando nas ruas — elas realmente funcionam?

Mimi

Funcionam para proteger os traficantes e seus pontos de venda. Mas o custo é alto para quem vive ali. Essas estruturas bloqueiam a visão da polícia também, dificultam o monitoramento aéreo legítimo. É uma proteção que piora a situação geral da comunidade.

Mark

Como é viver em um lugar onde explosivos podem cair do céu a qualquer momento?

Mimi

Muda tudo. Crianças não brincam em rua. Festas de aniversário acontecem com homens armados ao lado. Campos de futebol ficam vazios à noite. O medo não é abstrato — é o som das hélices, é ouvir a explosão, é ver estilhaços atingindo a perna de um vizinho.

Mark

As autoridades têm capacidade de responder a isso?

Mimi

Estão começando a reconhecer a escala do problema. Criaram uma divisão especializada, vão receber drones e equipamentos antidrone do governo federal. Mas é claro que estão atrás da curva — a tecnologia nas mãos das facções evoluiu mais rápido que a resposta institucional.

  • Drones carregados com granadas improvisadas de PVC, pólvora e estilhaços são lançados sobre ruas movimentadas durante o dia, sem distinção entre combatentes e civis.
  • Duas crianças e um homem foram feridos em uma festa de rua atingida por explosivos; o número de denúncias saltou de uma ocorrência em 2023 para 73 apenas no ano passado.
  • Para se proteger dos ataques aéreos rivais, traficantes cobriram ruas com estruturas físicas e adquiriram 'bazucas antidrone', transformando o conflito em uma corrida armamentista pelo domínio do céu.
  • Campos de futebol ficam vazios à noite e moradores vivem em medo constante dentro de suas próprias casas, com o som de hélices funcionando como alarme de perigo iminente.
  • A Secretaria de Segurança Pública criou uma divisão especializada e busca integração federal para obter drones e equipamentos antidrone, reconhecendo que a resposta do Estado ainda corre atrás da ameaça.

No Rio de Janeiro, o espaço aéreo sobre comunidades pobres tornou-se o mais novo campo de batalha entre facções criminosas, que passaram a lançar explosivos improvisados por meio de drones sobre ruas residenciais. O que antes era uma disputa travada no nível do asfalto elevou-se literalmente ao céu, atingindo inocentes — inclusive crianças — e forçando moradores a temer até o som de hélices. Diante dessa escalada tecnológica da violência urbana, as autoridades reconhecem que ignorar o fenômeno não é mais uma opção.

O som de hélices virou sinal de perigo nas comunidades do Rio de Janeiro. Vídeos obtidos pela polícia e registrados por moradores documentam uma escalada brutal: facções criminosas passaram a lançar explosivos improvisados do céu, transformando ruas residenciais em zonas de combate aéreo. Em um dos registros, um homem avista um drone carregando uma granada e grita para a mãe antes da explosão ecoar entre as casas.

Os ataques não escolhem alvos. Bombas caseiras destruíram telhados, estouraram janelas e atingiram carros. Uma festa de rua foi bombardeada, deixando duas crianças e um homem feridos. Os artefatos usados são as chamadas 'bombas tubo' — tubos de PVC recheados com pólvora, parafusos e cacos de vidro. Uma moradora resume o que se tornou o cotidiano: vive-se com muito medo, mesmo dentro do próprio quintal.

A tecnologia mudou a dinâmica territorial de forma visível. Na Favela do Quitungo, campos de futebol ficam vazios à noite. Traficantes instalaram coberturas sobre as ruas para dificultar ataques vindos do alto e adquiriram equipamentos capazes de derrubar drones rivais. O delegado Marcos Mota, coordenador da unidade especializada em aeronaves não tripuladas, reconhece que essas coberturas protegem os criminosos, mas prejudicam o monitoramento policial.

Os registros do Disque Denúncia revelam a progressão da ameaça: uma ocorrência em 2023, quatro em 2024 e 73 denúncias no ano seguinte, incluindo casos envolvendo milicianos. Diante disso, a Secretaria de Segurança Pública criou uma divisão especializada e busca integração com o governo federal para obter drones e equipamentos antidrone. Para o delegado Mota, não há como fechar os olhos: é preciso compreender o fenômeno e tentar antecipar o futuro. Para os moradores, o risco agora vem não apenas das ruas, mas também do céu.

Nas comunidades do Rio de Janeiro, o som das hélices de um drone passou a ser sinal de perigo iminente. Vídeos obtidos pela polícia e registrados por moradores documentam uma escalação brutal: facções criminosas agora lançam explosivos improvisados do céu, transformando ruas residenciais em zonas de combate aéreo. Em um dos registros, um homem avista a aproximação de um drone carregando uma granada e grita para a mãe: o aparelho solta o artefato na rua, seguido de uma explosão que ecoa entre as casas.

Os ataques não discriminam. Uma bomba caseira atingiu o telhado de uma casa, destruindo parte da cozinha e um quarto. Em outra, o explosivo caiu sobre uma árvore no quintal e estourou uma janela. Moradores relatam que as explosões se tornaram frequentes, e a violência já atinge quem não tem envolvimento algum com a disputa entre facções. Uma mulher resume o sentimento de quem vive sob essa ameaça: vive-se com muito medo, mesmo dentro do próprio quintal, mesmo dentro de casa.

Em um ataque registrado pelo próprio drone dos criminosos, uma bomba foi lançada contra um carro onde estariam integrantes de uma facção rival. Após a explosão, é possível ouvir os envolvidos comemorando. Dois homens corriam ao lado do veículo quando um deles foi atingido. Imagens feitas por moradores mostram ferimentos na perna da vítima e marcas de estilhaços na lateral do carro. O ataque aconteceu durante o dia, em uma área onde circulavam pessoas comuns. Na semana anterior ao relato, uma festa de rua foi atingida por explosivos lançados de um drone: duas crianças e um homem ficaram feridos.

Os artefatos usados são granadas improvisadas conhecidas como "bombas tubo" — tubos de PVC preenchidos com pólvora, parafusos e cacos de vidro. A tecnologia mudou a rotina das comunidades de forma visível. Na Favela do Quitungo, na Zona Norte, campos de futebol ficam vazios à noite. Ao menor sinal de um drone, até criminosos evitam permanecer em áreas abertas. Em algumas comunidades, traficantes começaram a instalar coberturas sobre as ruas para dificultar ataques vindos do alto. O delegado Marcos Mota, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas, reconhece que essas estruturas funcionam como proteção contra os artefatos explosivos, mas prejudicam significativamente o monitoramento feito pela polícia.

A disputa territorial evoluiu para uma disputa pelo espaço aéreo. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, traficantes passaram a usar aparelhos capazes de identificar equipamentos de detecção no céu e as chamadas "bazucas antidrone", que interrompem a comunicação entre o drone e seu operador. Para Mota, ter esse tipo de equipamento representa uma vantagem clara na disputa por território: você ganha olhos no céu. Os registros do Disque Denúncia mostram a progressão da ameaça. O primeiro relato de um drone equipado com granada foi registrado em 2023. Em 2024, foram quatro ocorrências. No ano passado, houve 73 denúncias envolvendo traficantes e outras 14 relacionadas a milicianos que também utilizam drones para lançar granadas e explosivos.

As autoridades reconhecem que essa realidade se impôs e não pode ser ignorada. A Secretaria de Segurança Pública do Rio afirmou que o enfrentamento do problema exige integração com o governo federal, que vai destinar drones e equipamentos antidrone para reforçar o trabalho das forças de segurança. A secretaria criou uma divisão especializada para combater esse tipo de crime. O delegado Mota é claro sobre a necessidade de antecipar o que virá: é uma realidade que se impôs e não se pode fechar os olhos, é preciso compreender o fenômeno e tentar antecipar o futuro. Para os moradores das comunidades disputadas, o risco agora vem não apenas das ruas, mas também do céu.

Você ganha olhos no céu. A gente está falando aqui de disputa de espaço aéreo.
— Delegado Marcos Mota, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas
É uma realidade que se impôs e nós não podemos fechar os olhos, a gente tem que compreender o fenômeno e tentar antecipar o que vai vir no futuro.
— Delegado Marcos Mota
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