Don Corleone teria inveja do STF

A ética da máfia deveria ser adotada quando o STF enfrenta escrutínio externo
Crítica à posição de Gilmar Mendes de invocar código mafioso para proteger colega sob investigação.
Mark

O que exatamente aconteceu na sessão de terça-feira que justifica essa comparação com a máfia?

Mimi

O plenário precisava votar se havia razões para investigar Moraes. Mas em vez de votar, quatro ministros criaram uma confusão processual que impediu qualquer decisão. Moraes votou em seu próprio caso, Dino pediu vista mesmo já tendo votado, e o resultado foi que nada foi decidido.

Luke

Mas espera — Dino já tinha votado sobre o mérito? Isso está confirmado?

Mimi

Sim, segundo a coluna. Ele votou e depois pediu vista, o que é inusitado.

Mark

E a fala de Gilmar sobre a máfia — ele estava sendo irônico ou sério?

Mimi

Parece que estava sendo sério, ou pelo menos estava racionalizando. Ele disse que a omertà era errada, mas depois invocou a ética mafiosa como razão para proteger um colega suspeito.

Luke

Ele realmente disse "até a máfia tem ética"? Porque isso é uma frase muito específica.

Mimi

Sim, está no registro. É uma frase que resume o absurdo da posição dele.

Mark

E isso já tinha acontecido antes?

Mimi

Em fevereiro, com Toffoli. Um relatório da PF mostrou conexões dele com o Master, os ministros se reuniram em sigilo, Toffoli saiu do caso, mas nunca foi declarado suspeito e recebeu apoio público dos colegas.

Luke

Então o padrão é: quando um ministro fica em apuros, a corte fecha fileiras. Mas quantas vezes isso aconteceu? Dois casos não é necessariamente um padrão sistemático.

Mimi

Verdade, mas são dois casos muito visíveis em menos de um ano. E a colunista está argumentando que o padrão é estrutural — opacidade, espírito de corpo, resistência a investigações.

Mark

O que muda se essa investigação de Moraes for autorizada?

Mimi

Teoricamente, haveria uma apuração formal sobre as relações dele com Vorcaro. Mas agora, com a manobra processual, isso pode nunca acontecer.

Luke

E ninguém pode forçar a votação? Não há um mecanismo para isso?

Mimi

Aparentemente não, ou pelo menos não foi usado. Uma vez que Dino pediu vista, o processo fica suspenso.

  • O STF tinha diante de si uma decisão objetiva — investigar ou não o ministro Alexandre de Moraes por vínculos com Daniel Vorcaro — e escolheu não decidir.
  • Moraes votou no próprio caso; Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin transformaram a sessão em uma arena de acusações e obstruções processuais.
  • Gilmar Mendes primeiro denunciou a 'omertà mafiosa' de um colega e, em seguida, invocou o código da máfia como modelo de decência no trato entre pares — sem aparente consciência da contradição.
  • O padrão não é novo: em fevereiro, ministros se reuniram em sigilo após relatório da PF sobre Dias Toffoli, que abandonou a relatoria sem jamais ser formalmente declarado suspeito.
  • O resultado acumulado é uma corte que resolve seus conflitos nos bastidores enquanto exige transparência de todos os demais — corroendo o princípio republicano de igualdade perante a lei.

Quando uma corte suprema recorre a manobras processuais para evitar investigar um de seus próprios membros, ela não apenas falha em seu dever — ela inverte sua razão de existir. No dia 15 de setembro de 2026, o plenário do STF transformou uma questão jurídica relativamente simples, a abertura de investigação formal contra o ministro Alexandre de Moraes, em um espetáculo de confrontos cruzados e pedidos de vista que sepultaram qualquer decisão. O episódio levanta uma pergunta incômoda que toda república deve eventualmente responder: quem vigia os vigilantes?

Na cena mais célebre de 'O Poderoso Chefão', Don Vito Corleone reúne os chefes das famílias não para fazer justiça, mas para preservar a organização: lealdade acima de tudo, problemas resolvidos internamente, silêncio absoluto para fora. Essa lógica encontrou um espelho inesperado no Supremo Tribunal Federal em 15 de setembro de 2026.

O plenário enfrentava uma questão direta: havia indícios suficientes para investigar formalmente o ministro Alexandre de Moraes por suas relações com Daniel Vorcaro? A resposta nunca veio. Moraes votou mesmo tendo interesse direto no resultado. Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin tomaram a sessão com objeções processuais e confrontos mútuos. Dino pediu vista apesar de já ter se manifestado sobre o mérito. A decisão desapareceu nos meandros do procedimento.

O momento mais revelador veio da fala de Gilmar Mendes. Ele acusou André Mendonça de praticar um 'jogo de omertà, de máfia' — e depois, numa reviravolta notável, defendeu que nem mesmo um colega 'eventualmente envolvido' deveria ser submetido àquele 'vexame', porque 'até a máfia tem ética'. A contradição expõe o núcleo do problema: o código mafioso, primeiro invocado como acusação, reaparece como parâmetro de decência institucional. Gilmar descrevia, sem perceber, exatamente o que o tribunal fazia naquele instante.

O episódio não é isolado. Em fevereiro, após relatório da Polícia Federal apontar conexões entre Dias Toffoli e o Master, os ministros se reuniram em sigilo. Toffoli abandonou a relatoria, mas jamais foi formalmente declarado suspeito — e recebeu apoio público dos colegas. O padrão se repete: opacidade, espírito de corpo, resistência sistemática a qualquer apuração que possa expor um dos seus.

Uma instituição cuja missão essencial é demonstrar que a lei vale para todos não pode bloquear investigações com manobras procedimentais, permitir que ministros votem em causas próprias e resolver seus conflitos nos bastidores. A república não é uma família. E o silêncio de uma corte sobre si mesma é, em si, uma forma de falar.

Na cena mais memorável de "O Poderoso Chefão", Don Vito Corleone convoca os líderes das famílias criminosas para restaurar a paz após uma guerra sangrenta. Seu objetivo não é punir os culpados, mas preservar a organização — impedir que brigas internas a destruam por dentro. A lógica é simples: lealdade ao grupo acima de tudo, investigações internas resolvidas nos bastidores, silêncio absoluto diante do mundo exterior.

Essa mesma lógica pareceu governar o Supremo Tribunal Federal na terça-feira, 15 de setembro, quando o plenário enfrentou uma questão aparentemente simples: havia razões suficientes para investigar formalmente o ministro Alexandre de Moraes por suas relações com Daniel Vorcaro? A corte precisava apenas autorizar uma apuração baseada em um conjunto considerável de indícios graves. Mas o que aconteceu foi bem diferente.

Moraes, que tinha interesse direto no resultado, votou mesmo assim. Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin tomaram a sessão com acusações cruzadas, objeções processuais e confrontos que impediram qualquer decisão. Dino pediu vista do processo de forma desesperada, apesar de já ter votado sobre o mérito. O resultado previsível: tudo terminou em pizza, como se diz no jargão institucional quando uma decisão incômoda desaparece nos meandros do procedimento.

O que Gilmar Mendes disse em seguida revelou o cerne do problema. Acusou André Mendonça de praticar um "jogo de omertà, de máfia". Mas depois, numa reviravolta notável, defendeu que nem mesmo um colega "eventualmente envolvido" deveria ser submetido àquele "vexame", porque "até a máfia tem ética". A contradição é gritante: primeiro a omertà aparece como corrupção; em seguida, o código mafioso surge como padrão de decência no trato entre colegas. Gilmar estava, sem perceber, descrevendo exatamente o que o STF estava fazendo naquele momento.

Da fala de Gilmar extrai-se uma conclusão perturbadora: a ética mafiosa — fundada na lealdade ao grupo, na proteção dos seus e em arranjos para resolver conflitos internos — seria o padrão apropriado quando o tribunal enfrenta escrutínio externo. É um insulto direto ao espírito republicano, que repousa na ideia de que ninguém está acima da lei e que as instituições devem demonstrar isso com transparência e atos, não apenas com palavras.

Este não foi um episódio isolado. Em fevereiro, quando um relatório da Polícia Federal revelou conexões entre o ministro Dias Toffoli e o Master, os ministros se reuniram em sigilo. Toffoli abandonou a relatoria do caso, mas nunca foi declarado suspeito formalmente. Seus colegas ainda lhe ofereceram apoio público. O padrão é claro: opacidade, espírito de corpo, resistência sistemática a investigações que possam expor qualquer um dos seus.

Uma instituição que tem como dever fundamental demonstrar que a lei vale para todos não pode funcionar assim. Não pode bloquear investigações com manobras procedimentais. Não pode permitir que ministros votem em casos que os afetam diretamente. Não pode resolver seus problemas nos bastidores enquanto o país observa. Don Corleone, se visse tudo isso, teria inveja da eficiência com que o STF protege seus membros.

Até a máfia tem ética
— Gilmar Mendes, durante sessão do STF
Opacidade, espírito de corpo e resistência a investigações formam padrão intolerável numa instituição que tem o dever de demonstrar que ninguém está acima da lei
— Análise da colunista sobre o comportamento do STF
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