Dólar sobe e Bolsa cai com reação a queda na aprovação de Lula

A política ainda importa, mas menos que o preço do petróleo
O Ibovespa abriu em alta com reação à desaprovação de Lula, mas caiu quando os preços do petróleo despencaram.
Mark

Por que o mercado abriu em alta se a pesquisa mostrava desaprovação recorde do Lula?

Mimi

Porque há um padrão que os investidores conhecem bem. Quando a aprovação cai, historicamente há movimento de reposicionamento — alguns apostam em mudança política, outros em volatilidade. É o "trade eleitoral". Mas dessa vez durou apenas horas.

Luke

Durou horas porque o petróleo caiu. Ou porque o mercado percebeu que a pesquisa não muda nada no curto prazo? Qual era realmente o gatilho?

Mimi

O petróleo foi o gatilho imediato — a Saudi Aramco cortou preços. Mas você tem razão em questionar. O mercado pode ter simplesmente percebido que uma pesquisa de desaprovação não altera as decisões de política monetária ou fiscal nos próximos dias.

Mark

E quanto ao IOF? Por que adiar as medidas compensatórias para o fim de semana criou tanta incerteza?

Mimi

Porque o governo precisa compensar a perda de receita, e ninguém sabe ainda como. Será corte de gastos? Aumento de outro imposto? Essa indefinição paralisa as decisões.

Luke

Mas o governo já tinha um plano, certo? Não era só uma questão de comunicação?

Mimi

A fonte não deixa claro se havia um plano pronto ou se ainda estava sendo elaborado. Sabemos que foi adiado, não sabemos por quê.

Mark

Trump criticando Powell — isso afeta o Brasil?

Mimi

Afeta porque influencia a taxa de juros americana, que por sua vez afeta fluxos de capital global. Se o Fed cortar juros, dólares podem sair dos EUA em busca de retorno em outros países.

Luke

Mas o relatório ADP mostrou emprego fraco. Isso já estava pressionando o dólar para baixo antes de Trump falar qualquer coisa.

Mimi

Verdade. O dólar estava enfraquecido pelos dados de emprego. Trump estava criticando algo que o mercado já estava fazendo.

Mark

Então no fim, o que realmente moveu o mercado?

Mimi

Petróleo em queda, dados de emprego americano fraco, e incerteza doméstica sobre compensação fiscal. A política foi apenas o ruído da abertura.

Luke

E a emissão de títulos soberanos que limitou a alta do dólar — isso significa que investidores estrangeiros ainda confiam no Brasil?

Mimi

Ou significa que a taxa de juros brasileira ainda é atrativa o bastante para compensar os riscos. Não é exatamente confiança — é cálculo.

  • A pesquisa Genial/Quaest revelando desaprovação recorde de Lula acendeu um 'trade eleitoral' na abertura, mas o entusiasmo durou apenas horas antes de se esvair.
  • A Saudi Aramco anunciou corte de preços para compradores asiáticos, derrubando o petróleo e arrastando Petrobras e outras petroleiras para o vermelho.
  • O governo adiou para o fim de semana a divulgação das medidas compensatórias ao fim da cobrança do IOF, deixando investidores sem clareza sobre como o Tesouro recomporia a arrecadação.
  • Nos EUA, Trump pressionou publicamente o Fed a cortar juros, enquanto o relatório ADP mostrou criação de apenas 37 mil vagas em maio — muito abaixo das 110 mil esperadas.
  • A emissão de títulos soberanos brasileiros no exterior atraiu forte demanda estrangeira, ajudando a conter a alta do dólar e evitando um fechamento ainda mais negativo.

Em um pregão marcado por sinais contraditórios, os mercados brasileiros encerraram a quarta-feira em leve recuo — o Ibovespa cedeu 0,40% e o dólar subiu a R$ 5,64 —, depois de uma breve euforia provocada pelo recorde de desaprovação do presidente Lula logo dissipar-se diante da queda no petróleo e da névoa de incerteza fiscal. O episódio ilumina uma verdade persistente sobre a economia brasileira: a política captura a atenção, mas são as commodities e o cenário global que, no fim, ditam o ritmo.

Os mercados brasileiros abriram a quarta-feira sob o peso de uma pesquisa incômoda: a Genial/Quaest mostrava a aprovação do presidente Lula em queda recorde. Por algumas horas, o Ibovespa subiu — o chamado 'trade eleitoral', reação reflexa quando a política domina as manchetes. Mas a euforia foi breve. Ao fim do pregão, o índice havia recuado 0,40%, fechando aos 137.001 pontos, enquanto o dólar subia 0,17%, a R$ 5,64.

O economista Alexsandro Nishimura, da fintech Nomos, reconheceu o padrão: em fevereiro, uma queda de 11 pontos na aprovação presidencial havia gerado reação semelhante — entusiasmo inicial seguido de reversão. Desta vez, o efeito foi ainda mais fugaz. No meio da manhã, o culpado já não era a política, mas o petróleo. A Saudi Aramco anunciou redução de preços para compradores asiáticos, derrubando os contratos futuros do Brent e puxando as ações da Petrobras e de outras petroleiras para o vermelho. O episódio reafirmou algo sobre o mercado brasileiro: a política ainda move os índices na abertura, mas as commodities determinam o fechamento.

Sobre tudo isso pairava uma camada adicional de incerteza: o governo havia adiado para o fim de semana a divulgação das medidas compensatórias ao fim da cobrança do IOF. Sem saber quais ferramentas seriam usadas para recompor a arrecadação, os investidores operaram com cautela. No cenário externo, Trump voltou a criticar Jerome Powell pelo Truth Social, cobrando cortes de juros que considerava atrasados, enquanto o Livro Bege do Fed apontava leve desaceleração econômica com preços em alta moderada.

Um dado amenizou o quadro: o relatório ADP mostrou criação de apenas 37 mil vagas nos EUA em maio, bem abaixo das 110 mil esperadas, enfraquecendo o dólar globalmente. Além disso, a emissão de títulos soberanos brasileiros no exterior atraiu forte demanda estrangeira, trazendo dólares ao país e contendo a pressão sobre a moeda. O mercado encerrou o dia exatamente como começou — em múltiplas camadas de incerteza, aguardando o fim de semana para ganhar alguma clareza fiscal.

Os mercados brasileiros abriram nesta quarta-feira sob o peso de uma pesquisa incômoda. A Genial/Quaest havia divulgado números que mostravam a aprovação do presidente Lula em queda recorde, e por algumas horas o Ibovespa respondeu como se isso importasse — subindo na abertura com o que os analistas chamam de "trade eleitoral", aquele movimento reflexo que acontece quando a política ganha as manchetes. Mas a reação foi breve. Quando o pregão terminou, o índice principal da Bolsa brasileira havia caído 0,40%, fechando aos 137.001 pontos. O dólar, por sua vez, subiu levemente 0,17%, cotado a R$ 5,64.

Alexsandro Nishimura, economista da fintech Nomos, observou que o padrão era familiar. Em fevereiro, quando o Datafolha havia mostrado uma queda acentuada de 11 pontos percentuais na aprovação presidencial, o mercado havia reagido de forma semelhante — com entusiasmo inicial e depois reversão. Desta vez, porém, o efeito foi ainda mais fugaz. No meio da manhã, o Ibovespa começou a cair, e o culpado não era mais a política, mas o petróleo.

Os contratos futuros da commodity despencaram após a Saudi Aramco, a gigante estatal saudita, anunciar redução de preços para compradores na Ásia. O Brent com vencimento em julho recuou 1,17%, fechando a US$ 64,86 o barril, enquanto o WTI subiu 0,88% para US$ 62,85. Essa queda no petróleo puxou as ações da Petrobras e de outras petroleiras para o vermelho, explicou Nishimura. O movimento revelava algo importante sobre o mercado brasileiro: a política ainda importa, mas menos do que os preços das commodities que financiam o país.

Há, porém, uma camada adicional de incerteza que permanecia pairando sobre as negociações. O governo havia adiado para o fim de semana a divulgação de medidas compensatórias ao fim da cobrança do IOF — um imposto sobre operações financeiras que afeta diretamente a arrecadação federal. Essa indefinição contribuiu para um sentimento geral de cautela, segundo Nishimura. Os investidores não sabiam exatamente que ferramentas o governo usaria para compensar a perda de receita, e essa falta de clareza pesava nas decisões de compra e venda.

No cenário externo, a turbulência vinha de Washington. Donald Trump voltou a criticar Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, através da rede Truth Social, dizendo que Powell estava atrasado em cortar os juros e que era "inacreditável". Trump apontou que a Europa já havia reduzido os juros nove vezes, criando pressão implícita para que o banco central americano fizesse o mesmo. No mesmo dia, o Fed havia divulgado seu Livro Bege — o relatório sobre as condições econômicas dos EUA — indicando uma leve redução na atividade econômica enquanto os preços subiam em ritmo moderado. O mercado de trabalho permanecia estável, mas cercado por incerteza relacionada ao aumento de tarifas.

O dólar operou enfraquecido após a divulgação do Relatório ADP sobre empregos americanos, que mostrou a criação de apenas 37 mil vagas em maio, bem abaixo da previsão de 110 mil que os analistas esperavam. Bruno Shahini, especialista em investimentos da fintech Nomad, observou que no plano doméstico a indefinição sobre as medidas compensatórias ao IOF continuava sendo o destaque principal. Havia, porém, um fator que ajudou a limitar a alta do dólar: a emissão de títulos soberanos no exterior havia atraído forte demanda dos investidores estrangeiros, trazendo dólares para o país e contendo a pressão sobre a moeda.

O dia revelava um mercado em múltiplas camadas de incerteza. A política ainda podia mover os índices na abertura, mas a commodity e a macroeconomia global determinavam o fechamento. O fim de semana traria clareza sobre as medidas de compensação fiscal, mas até lá o sentimento permanecia cauteloso — nem otimista o bastante para ignorar os riscos, nem pessimista o bastante para desistir das posições.

O Ibovespa abriu em alta com o trade eleitoral em foco, depois da divulgação da pesquisa Genial/Quaest, que mostrou um recorde de desaprovação do governo Lula
— Alexsandro Nishimura, economista da fintech Nomos
A expectativa em torno de medidas alternativas ao aumento do IOF, agora adiadas para o fim de semana, contribuiu para o sentimento de incerteza no mercado doméstico
— Alexsandro Nishimura
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