Em um dia marcado por confluências raras, o mercado financeiro brasileiro encontrou no cenário político interno e na política monetária americana dois ventos favoráveis que, juntos, empurraram o Ibovespa a um recorde histórico acima de 161 mil pontos e derrubaram o dólar a R$ 5,32. A aproximação eleitoral entre Lula e Tarcísio reacendeu cálculos sobre o futuro fiscal do país, enquanto a expectativa de corte de juros pelo Federal Reserve tornou o Brasil ainda mais sedutor para o capital estrangeiro em busca de retorno. É o momento em que política e economia se olham nos olhos e decidem, juntas,
Dólar cai e Bolsa bate recorde com pesquisa eleitoral e expectativa de corte de juros nos EUA
O mercado fazendo contas de inflação e juros
Por que uma pesquisa eleitoral movimenta tanto o mercado de ações?
Porque o mercado faz contas sobre o futuro fiscal do país. Se um candidato que o mercado favorecia perde terreno, isso muda as expectativas sobre gastos, juros e inflação nos próximos anos.
Mas a pesquisa mostrou Lula ainda liderando com 48,4% contra 32,5% de Tarcísio. Por que isso seria bom para quem apostava em Tarcísio?
Porque a margem diminuiu. Era 21 pontos, agora é 16. O mercado vê redução de risco em um cenário que o preocupava.
E o carry trade — isso é realmente tão importante para explicar o movimento do dólar?
É um dos fatores principais. Com juros americanos caindo e juros brasileiros em 15%, o Brasil fica mais atrativo para quem quer ganhar com a diferença.
Mas a produção industrial caiu 0,5% em relação ao ano anterior. Isso não deveria preocupar?
Deveria, e preocupa. Mas naquele dia, os fatores políticos e monetários foram mais fortes que os dados econômicos domésticos.
O que significa que o real se valorizou enquanto o dólar caía em todo o mundo?
Significa que o Brasil estava recebendo capital estrangeiro buscando retorno, enquanto outros mercados emergentes não tinham o mesmo atrativo.
E quanto ao adiamento do Imposto de Renda sobre dividendos? Isso ajudou ou prejudicou?
Ajudou. Removeu a pressão de investidores que queriam antecipar remessas para escapar da tributação, permitindo que o real se valorizasse mais.
El Pulso
- O Ibovespa ultrapassou 161 mil pontos pela primeira vez na história, sinalizando que o otimismo dos investidores encontrou combustível suficiente para romper barreiras simbólicas.
- A pesquisa AtlasIntel reduziu a vantagem de Tarcísio sobre Lula de 21 para menos de 16 pontos, reacendendo apostas sobre uma possível mudança no cenário fiscal caso haja alternância de poder.
- A expectativa de novo corte de juros pelo Fed reforça o carry trade favorável ao real, atraindo capital estrangeiro para um Brasil com Selic em 15% ao ano.
- A produção industrial de outubro frustrou o mercado ao crescer apenas 0,1%, lembrando que os fundamentos da economia real ainda caminham em ritmo mais lento que o entusiasmo das bolsas.
- O adiamento da cobrança de IR sobre dividendos para abril aliviou pressões pontuais sobre o câmbio, contribuindo para que o real fosse uma das poucas moedas a se valorizar no mundo naquele dia.
Em um dia marcado por confluências raras, o mercado financeiro brasileiro encontrou no cenário político interno e na política monetária americana dois ventos favoráveis que, juntos, empurraram o Ibovespa a um recorde histórico acima de 161 mil pontos e derrubaram o dólar a R$ 5,32. A aproximação eleitoral entre Lula e Tarcísio reacendeu cálculos sobre o futuro fiscal do país, enquanto a expectativa de corte de juros pelo Federal Reserve tornou o Brasil ainda mais sedutor para o capital estrangeiro em busca de retorno. É o momento em que política e economia se olham nos olhos e decidem, juntas, o humor de uma nação.
Na terça-feira, 2 de dezembro, o mercado financeiro brasileiro viveu um dia de euforia contida. O dólar recuou para R$ 5,32, queda de 0,52%, enquanto o Ibovespa superou pela primeira vez a marca de 161 mil pontos durante o pregão, encerrando o dia em 161.092,25 pontos com alta de 1,56%.
Dois motores impulsionaram esse movimento. O primeiro foi uma pesquisa eleitoral do AtlasIntel que mostrou Lula liderando todos os cenários de primeiro turno, com 48,4% das intenções de voto contra 32,5% de Tarcísio de Freitas. A diferença entre os dois encolheu de quase 21 para menos de 16 pontos — e, para o mercado, que historicamente aposta em Tarcísio, qualquer fortalecimento de Lula mexe com as expectativas sobre o futuro fiscal do país. Especialistas explicam que uma eventual mudança de governo poderia aliviar as curvas futuras de juros, tornando ativos brasileiros mais atrativos.
O segundo motor veio de fora: a expectativa de que o Federal Reserve cortaria os juros americanos na semana seguinte. Com a Selic brasileira em 15% ao ano e os juros americanos em queda, o diferencial favorece o chamado carry trade — estratégia em que investidores tomam dinheiro barato nos EUA e aplicam no Brasil, embolsando a diferença. Estrategistas observam que a Bolsa brasileira, apesar dos recordes, ainda está abaixo de sua média histórica, sugerindo espaço para novas altas.
Nem tudo foi celebração. A produção industrial de outubro cresceu apenas 0,1% na comparação mensal, bem abaixo dos 0,4% esperados, e recuou 0,5% frente a outubro do ano anterior. No final da sessão, o Senado adiou a cobrança de Imposto de Renda sobre dividendos para abril, o que aliviou pressões cambiais e ajudou o real a se destacar como uma das poucas moedas valorizadas no mundo naquele dia.
No campo externo, os investidores ficaram frustrados com Jerome Powell, presidente do Fed, que discursou na Califórnia sem dar pistas sobre os próximos passos dos juros americanos. Donald Trump, por sua vez, voltou a mencionar que anunciará em breve o nome do sucessor de Powell, reacendendo incertezas sobre o futuro da política monetária nos Estados Unidos.
Na terça-feira, 2 de dezembro, o mercado financeiro brasileiro acordou para notícias que o deixaram animado. O dólar recuou 0,52% frente ao real, fechando cotado a R$ 5,32. Mais impressionante ainda foi o desempenho da Bolsa: o Ibovespa bateu novo recorde histórico durante o pregão, ultrapassando pela primeira vez a marca de 161 mil pontos — chegando aos 161.001,87 pontos às 17h50 — e fechando o dia em 161.092,25 pontos, com alta de 1,56%.
Dois fatores principais explicam essa movimentação. O primeiro foi a divulgação de uma pesquisa eleitoral do instituto AtlasIntel sobre a sucessão presidencial. O levantamento mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera todos os cenários de primeiro turno. Na comparação com Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, Lula obtém 48,4% das intenções de voto contra 32,5% do adversário. O que importa ao mercado é que a diferença entre ambos diminuiu: era de quase 21 pontos e agora é inferior a 16 pontos. Historicamente, os investidores têm se posicionado a favor de Tarcísio na disputa presidencial, então qualquer movimento que fortaleça Lula tende a gerar reações nos mercados.
Especialistas apontam que essa pesquisa eleitoral não representa apenas uma questão política, mas uma questão de contas. Rubens Cittadin Neto, especialista em renda variável da Manchester Investimentos, explica que o governo atual enfrenta dificuldades em alinhar o fiscal — a relação entre despesas e receitas — o que se reflete na taxa de juros. Uma possível mudança de governo poderia resultar em redução nas curvas futuras de juros, o que atrai investidores para ativos brasileiros.
O segundo fator foi a expectativa de um novo corte de juros por parte do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, para a semana seguinte. Isso reduz a atratividade do dólar e reforça o diferencial de juros a favor do Brasil. A Selic, a taxa básica de juros brasileira, deve se manter em 15% ao ano, mantendo o que os investidores chamam de carry trade favorável ao real. Essa é uma estratégia em que investidores tomam dinheiro emprestado em mercados com juros baixos — como os Estados Unidos — e aplicam esse capital em países com taxas mais altas, como o Brasil, embolsando a diferença. Com juros americanos caindo e juros brasileiros altos, o Brasil se torna ainda mais atrativo para esse tipo de operação.
Max Bohm, estrategista da Nomos, observa que a previsão de corte dos juros nos EUA faz com que o capital estrangeiro busque opções de maior retorno em mercados emergentes. A Bolsa brasileira, apesar dos recordes, ainda está abaixo de sua média histórica, o que sugere espaço para novas altas.
Nem tudo foi positivo no dia. A produção industrial brasileira divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística decepcionou: registrou alta de apenas 0,1% em outubro na comparação com o mês anterior, quando o mercado esperava 0,4%. Na comparação com outubro do ano anterior, houve queda de 0,5%, contra previsão de alta de 0,2%. Apesar disso, a produção industrial está 2,4% acima do nível pré-pandemia de fevereiro de 2020, embora 14,8% abaixo do recorde de maio de 2011.
Outro movimento importante ocorreu no final da sessão. O Senado adiou a cobrança de Imposto de Renda sobre dividendos para abril do ano que vem. Essa notícia fez o real alcançar uma nova mínima no dia, reduzindo a pressão de investidores que buscavam antecipar remessas de recursos para escapar da tributação. André Valério, economista sênior do Inter, observa que o real foi uma das poucas moedas que se valorizou no mundo naquele dia, em grande medida por causa de um leilão de títulos do Tesouro.
O mercado também registrou frustração com as declarações do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, na noite de segunda-feira no Hoover Institution, em Stanford, na Califórnia. Os investidores buscavam pistas sobre o comportamento dos juros nos EUA, mas Powell não abordou o assunto. Enquanto isso, o presidente Donald Trump afirmou que "provavelmente" anunciará no início do próximo ano o nome do sucessor de Powell à frente do Fed, voltando a mencionar que havia oferecido o cargo ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, que recusou.
Citas Notables
Aqui não é o mercado sendo político, mas é o mercado fazendo contas de inflação e juros— Rubens Cittadin Neto, especialista em renda variável da Manchester Investimentos
Como a Bolsa, apesar dos recordes, ainda está abaixo da sua média história, ela deve subir ainda mais— Max Bohm, estrategista da Nomos