Cantor Alexandre Pires e empresários Diego e Matheus Possebon são investigados por lavagem de dinheiro relacionada à extração ilegal de minério em terra indígena. Grupo criminoso utilizava sistema financeiro paralelo (dólar-cabo) para transferir recursos entre países, com intermediárias cobrando 3% de comissão sobre valores movimentados.
Dólar-cabo: sistema paralelo usado para lavar dinheiro de fraude com cassiterita envolve Alexandre Pires
Enviaram pó de brita no lugar de cassiterita para cumprir contrato
Como exatamente o dólar-cabo funcionava neste esquema? Parece complicado.
Basicamente, em vez de dinheiro viajar entre países, ele ficava parado. A empresa suíça pagava uma intermediária norte-americana, que depositava em conta da Empire Strong nos EUA. Depois a Global Soluções no Brasil compensava isso em reais para as pessoas indicadas por Diego.
Mas quem garantia que o dinheiro chegava certo? Havia alguma segurança ou era só confiança?
Havia documentos. Diego enviava comprovantes de depósito em dólares por WhatsApp, em um grupo chamado "GRUPO CONTA USD". Ele informava os dados bancários das pessoas que receberiam em reais.
E as duas empresárias que operavam isso — por que denunciaram?
Elas perceberam que estavam movimentando dinheiro para pessoas ligadas ao esquema de cassiterita ilegal. Provavelmente entenderam que estavam envolvidas em algo muito maior e mais grave.
Mas isso foi só depois de meses operando? Elas não desconfiaram antes?
A investigação não deixa claro quando exatamente elas perceberam. Só diz que foi após a primeira fase, ainda em 2023. Elas se tornaram colaboradoras premiadas em troca de documentos e conversas.
E Alexandre Pires? Como ele se encaixa nisso tudo?
Sua produtora musical recebeu R$ 31 milhões de contas ligadas ao esquema. A investigação suspeita que ele e a empresa foram usados para fracionar e ocultar o dinheiro.
Mas a defesa dele nega envolvimento. Há evidência de que ele sabia o que estava acontecendo?
A reportagem não apresenta evidência de conhecimento direto. Só que o dinheiro passou pela conta da empresa dele.
E o prejuízo total? US$ 48 milhões é muito dinheiro.
Sim. A empresa suíça contratou intermediários para comprar cassiterita, mas recebeu pó de brita em vez de minério. Descobriu isso em maio de 2023, meses depois de ter visitado os armazéns em Manaus.
The Pulse
- Cantor Alexandre Pires e empresários Diego e Matheus Possebon investigados por lavagem de dinheiro
- Produtora musical de Alexandre Pires recebeu R$ 31 milhões de contas ligadas ao esquema
- Prejuízo estimado em US$ 48 milhões (R$ 247 milhões) causado pela fraude com cassiterita
- Dólar-cabo operado com comissão de 3% sobre valores movimentados entre EUA e Brasil
- Mais de 100 toneladas de cassiterita apreendidas em fevereiro de 2022 em Roraima
Cantor Alexandre Pires e empresários Diego e Matheus Possebon são investigados por lavagem de dinheiro relacionada à extração ilegal de minério em terra indígena. Grupo criminoso utilizava sistema financeiro paralelo (dólar-cabo) para transferir recursos entre países, com intermediárias cobrando 3% de comissão sobre valores movimentados.
Polícia Federal investiga esquema milionário de lavagem de dinheiro envolvendo venda ilegal de cassiterita da Terra Yanomami, com cantor Alexandre Pires entre os alvos. Grupo usava sistema paralelo de câmbio conhecido como dólar-cabo para ocultar recursos.
A Polícia Federal está investigando um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou milhões de reais através de um sistema financeiro paralelo conhecido como dólar-cabo. No centro da operação estão o cantor Alexandre Pires e dois empresários irmãos, Diego Possebon — apontado como principal articulador — e Matheus Possebon, que era empresário de Alexandre. O esquema envolvia a venda ilegal de cassiterita extraída da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, um minério de alto valor usado na produção de estanho para latas de alimentos, peças automotivas, vidros e equipamentos eletrônicos.
O dólar-cabo funciona como um sistema de transferência de dinheiro entre países sem que o dinheiro saia fisicamente de um país para outro. Quem quer transferir recursos entrega reais a um doleiro no Brasil, que usa contas próprias ou de terceiros no exterior para fazer o pagamento. Neste caso, o fluxo operava ao contrário. Segundo as investigações, em janeiro de 2023, advogados intermediaram o contato entre Diego Possebon e duas empresárias responsáveis pela Empire Strong, nos Estados Unidos, e Global Soluções, no Brasil. As duas empresas faziam operações de câmbio paralelo. Uma empresa suíça compradora da cassiterita pagava os valores a uma intermediadora norte-americana, que depositava o dinheiro nas contas das doleiras. Para prestar esses serviços, elas cobravam uma comissão de 3% sobre o valor total movimentado.
O funcionamento era assim: uma empresa intermediária norte-americana, contratada pela empresa suíça, depositava os pagamentos feitos pela firma suíça na conta bancária da Empire. Os valores eram compensados no Brasil por meio da Global Soluções, que fazia os pagamentos equivalentes em reais. Diego Possebon enviava os comprovantes dos depósitos em dólares em um grupo de WhatsApp mantido com as operadoras, chamado "GRUPO CONTA USD". Ele também informava os dados bancários de pessoas físicas, empresas de fachada e laranjas no Brasil. Entre as contas estava a de uma empresa de Alexandre Pires, uma produtora musical. Segundo a investigação, Alexandre Pires e a produtora musical ligada a ele receberam R$ 31 milhões de firmas apontadas como parte da organização criminosa. O cantor e a empresa são suspeitos de terem sido usados para fracionar, ocultar e dissimular valores obtidos com a fraude.
A fraude começou quando uma empresa suíça de comércio de metais apresentou uma notícia-crime à Polícia Federal. A empresa havia contratado, em 2021, uma firma norte-americana para intermediar a compra de cassiterita. Por intermédio de Diego Possebon, a empresa norte-americana passou a adquirir cassiterita da mineradora Betser, de Christian Costa dos Santos, apontado como um dos líderes do grupo investigado. A Betser tinha licença para extrair minério em Itaituba, no Pará, mas a autorização era usada para dar aparência de legalidade ao minério extraído ilegalmente da Terra Yanomami. Em fevereiro de 2022, a Polícia Federal apreendeu mais de 100 toneladas de cassiterita na sede e no depósito de uma filial da Betser em Roraima. Depois da apreensão, o grupo ficou sem o minério para cumprir o contrato com a empresa suíça e enviou pó de brita no lugar da cassiterita.
Em abril de 2023, a empresa suíça enviou um representante ao Brasil para inspecionar a operação. Ele visitou os armazéns em Manaus e acompanhou o carregamento dos contêineres que seriam enviados. Diego e Christian estavam no local. Segundo a investigação, eles simularam nos armazéns o empacotamento do minério. Para que os embarques ocorressem, emitiram laudos de inspeção e testes químicos falsificados que indicavam que a suposta cassiterita tinha até 75% de estanho. Em maio de 2023, cerca de um mês após a visita ao Brasil, a empresa suíça constatou que os contêineres recebidos estavam carregados de areia e formalizou a denúncia à Polícia Federal. O prejuízo estimado foi de US$ 48 milhões, cerca de R$ 247 milhões na cotação atual. Isso deu origem à segunda fase da Operação Disco de Ouro, deflagrada em 23 de setembro de 2026.
Após a primeira fase da operação em 2023, as duas empresárias perceberam que tinham movimentado dinheiro para pessoas ligadas ao esquema de extração ilegal de cassiterita e denunciaram à Polícia Federal. Na investigação, elas são citadas como "colaboradoras premiadas". Ao denunciarem o esquema, fizeram um acordo de colaboração. Em troca dos benefícios previstos, entregaram documentos bancários, planilhas e conversas que ajudaram os investigadores a rastrear o caminho do dinheiro e identificar outros envolvidos.
A defesa de Alexandre Pires afirmou que o cantor nunca teve envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena, e que foi tomado de surpresa diante dos novos desdobramentos da operação. A defesa de Diego Possebon informou que ele atuou regularmente e segue à disposição para esclarecimentos. A defesa de Matheus Possebon disse que ele é empresário dos setores de música e entretenimento e nunca atuou no comércio ou na exportação de minérios, acrescentando que em 2023 o Tribunal Regional Federal da 1ª Região revogou sua prisão por reconhecer que os elementos então apresentados contra ele não bastavam para caracterizar os crimes investigados.
Notable Quotes
O cantor Alexandre Pires não tem e nunca teve qualquer envolvimento com garimpo ou extração de minério, muito menos em área indígena— Defesa de Alexandre Pires
Matheus é empresário dos setores de música e entretenimento e nunca atuou no comércio ou na exportação de minérios— Defesa de Matheus Possebon