Em silêncio, ao longo de treze anos, o Brasil viu as doenças inflamatórias intestinais deixarem de ser raridades para se tornarem uma epidemia em formação — a incidência saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025. Pesquisadores de grandes universidades brasileiras e canadenses apontam que a transformação dos hábitos alimentares, especialmente o consumo de ultraprocessados repletos de aditivos químicos, pode estar alimentando esse avanço junto a fatores genéticos ainda não completamente compreendidos. O que se sabe é que, sem mudanças de rota, essas condições crônicas
Doenças inflamatórias intestinais crescem cinco vezes no Brasil em 13 anos
Doenças que eram raras agora explodem em todo o mundo
Por que esse crescimento é tão dramático? Estamos falando de cinco vezes em apenas treze anos.
Há vários fatores convergindo. A genética não mudou nesse período, mas nosso ambiente mudou radicalmente. A forma como comemos, a qualidade do ar que respiramos, até os aditivos nos alimentos — tudo isso se transformou.
Mas o estudo consegue isolar qual desses fatores é o culpado principal? Ou estamos ainda no terreno das correlações?
Ainda estamos nas correlações. Quaresma é honesto sobre isso — ele diz que não sabem qual é o fator causal ainda. Sabem que é multifatorial.
E quanto aos números? Eles vêm de registros do SUS, então são dados sólidos?
Sim, são baseados em registros do Sistema Único de Saúde. Mas há uma ressalva importante: esses números refletem casos diagnosticados. Pode haver pessoas com a doença que ainda não foram diagnosticadas.
Exatamente. E as projeções para 2035 e 2040 — elas assumem que as tendências atuais continuarão. Se algo mudar, se as pessoas começarem a comer melhor ou se houver intervenção em saúde pública, esses números podem ser diferentes.
Verdade. Mas o ponto é que, mesmo com incerteza, a trajetória é clara. Estamos vendo um crescimento consistente.
E o custo? Quinhentos mil reais por paciente por ano — isso é sustentável para o SUS?
Essa é a pergunta que ninguém está respondendo ainda. Se em 2035 tivermos 264 casos por 100 mil habitantes, e cada um custar meio milhão de reais por ano, os números ficam astronômicos.
E há outra dimensão: esses pacientes são diagnosticados jovens. Estamos falando de décadas de tratamento contínuo. O impacto na qualidade de vida deles é imenso.
Sim. Não é apenas um problema de saúde pública em termos de números. É um problema de vidas que serão moldadas por uma doença crônica.
O Pulso
- Em apenas 13 anos, o número de brasileiros vivendo com doença de Crohn ou retocolite ulcerativa cresceu cinco vezes — um ritmo que surpreendeu até os especialistas.
- Os aditivos químicos que prolongam a vida útil dos alimentos ultraprocessados estão sob suspeita como gatilhos do sistema imunológico, que passa a atacar o próprio intestino.
- Sem cura disponível, os pacientes — muitos diagnosticados ainda jovens — enfrentam décadas de tratamento contínuo com custos que podem chegar a R$ 500 mil por ano.
- Projeções científicas indicam que em 2035 haverá 264 casos por 100 mil habitantes, e que em 2040 a doença atingirá a magnitude de problema de saúde pública de primeira ordem.
- O SUS já registra o aumento dos diagnósticos, mas o sistema de saúde ainda não está preparado para absorver a onda que os pesquisadores preveem para as próximas décadas.
Em silêncio, ao longo de treze anos, o Brasil viu as doenças inflamatórias intestinais deixarem de ser raridades para se tornarem uma epidemia em formação — a incidência saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025. Pesquisadores de grandes universidades brasileiras e canadenses apontam que a transformação dos hábitos alimentares, especialmente o consumo de ultraprocessados repletos de aditivos químicos, pode estar alimentando esse avanço junto a fatores genéticos ainda não completamente compreendidos. O que se sabe é que, sem mudanças de rota, essas condições crônicas e incuráveis devem se tornar, até 2040, um problema de saúde pública comparável ao diabetes e à hipertensão.
Nos últimos treze anos, o Brasil viveu uma transformação silenciosa em sua saúde coletiva. As doenças inflamatórias intestinais — principalmente a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa — passaram de raridades médicas a um fenômeno em expansão acelerada, com a incidência saltando de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025.
Esse retrato foi apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia por pesquisadores da Universidade do Oeste de Santa Catarina, da PUC-Paraná e de outras instituições brasileiras e canadenses, com base em dados do SUS. O número de novos diagnósticos anuais também cresceu, de 9,35 para 12,34 por 100 mil habitantes no mesmo período.
Essas doenças funcionam como um ataque do corpo contra si mesmo: o sistema imunológico passa a inflamar cronicamente o intestino. Suas causas são múltiplas — há componentes genéticos, mas nem todos os pacientes os carregam, o que revela o peso do ambiente. A transformação dos hábitos alimentares surge como suspeita central. Um pão que antes mofava em dias hoje dura três meses graças a conservantes, corantes e espessantes — aditivos que, segundo os pesquisadores, podem induzir o desenvolvimento dessas doenças.
Se as tendências se mantiverem, em 2035 o Brasil terá 264 casos por 100 mil habitantes, um aumento de 67% em relação a 2025. A projeção é que, a partir de 2040, essas enfermidades se tornem um problema de saúde pública de primeira magnitude, comparável à hipertensão ou ao diabetes.
O peso maior recai sobre os pacientes. Sem cura, o tratamento busca apenas controlar a inflamação — e custa cerca de R$ 500 mil por ano por pessoa. Muitos recebem o diagnóstico ainda jovens e carregarão essa condição por décadas. O Brasil está entrando em um período em que essas realidades deixarão de ser exceções clínicas para se tornarem parte da rotina de saúde de centenas de milhares de pessoas.
Nos últimos treze anos, o Brasil testemunhou uma transformação silenciosa e preocupante em sua paisagem de saúde. As doenças inflamatórias intestinais, condições que atacam o próprio sistema digestivo do corpo, deixaram de ser raridades médicas para se tornarem um fenômeno em expansão. Entre 2012 e 2025, a incidência dessas enfermidades — principalmente a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa — saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. É um crescimento de cinco vezes em pouco mais de uma década.
Esse retrato vem de um estudo apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, conduzido por Abel Quaresma, da Universidade do Oeste de Santa Catarina, e Paulo Kotze, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em colaboração com pesquisadores de instituições como a Universidade de São Paulo, a Universidade Estadual de Campinas e a Universidade de Calgary, no Canadá. Os pesquisadores analisaram dados do Sistema Único de Saúde e encontraram que o número de novos diagnósticos por ano também cresceu — de 9,35 para 12,34 por 100 mil habitantes no mesmo período.
As doenças inflamatórias intestinais funcionam como um ataque do corpo contra si mesmo. O sistema imunológico, que deveria proteger, passa a atacar as células e tecidos do intestino, gerando um processo crônico de inflamação. Não existe uma única causa. Quaresma explica que tanto a doença de Crohn quanto a retocolite ulcerativa são multifatoriais — há componentes genéticos envolvidos, mas nem todos os pacientes com essas doenças carregam as variações genéticas que estudos associam ao seu desenvolvimento. Isso significa que o ambiente em que vivemos importa tanto quanto nossos genes.
A transformação dos hábitos alimentares emerge como um suspeito central. Duas décadas atrás, um pão comprado na padaria começava a mofar em poucos dias. Hoje, um pão de forma permanece pronto para consumo por três meses. Essa durabilidade vem de um arsenal de aditivos químicos — conservantes, corantes, espessantes — substâncias que tornam os alimentos mais baratos, mais volumosos, mais atraentes visualmente e mais duráveis. Segundo Quaresma, esses aditivos podem induzir o desenvolvimento de doenças inflamatórias. A poluição e mudanças nos padrões alimentares gerais também figuram na equação, mas o pesquisador é claro: ainda não sabemos exatamente qual é o fator causal determinante.
O que os pesquisadores conseguem fazer é projetar o futuro. Se as tendências atuais se mantiverem, em 2035 o número de novos casos diagnosticados por ano chegará a 22,7 por 100 mil habitantes. Isso significaria que a quantidade total de pessoas vivendo com essas doenças atingiria 264 por 100 mil habitantes — um aumento de 67% em relação a 2025. Quaresma vai além: essas enfermidades, que até 2015 eram consideradas raras, estão em expansão em todo o mundo. Sua projeção é que a partir de 2040 elas se tornem um problema de saúde pública de primeira magnitude, comparável à hipertensão ou ao diabetes.
O peso dessa transformação recai sobre os pacientes. Essas doenças não têm cura. O tratamento busca apenas controlar a inflamação e os sintomas, e os medicamentos custam aproximadamente 500 mil reais por ano, por pessoa. Muitos pacientes recebem o diagnóstico ainda jovens e precisarão de acompanhamento médico contínuo por décadas. É uma sentença de tratamento permanente, de custos elevados e de uma condição que moldará suas vidas adultas inteiras. O Brasil está entrando em um período em que essas realidades deixarão de ser exceções clínicas e se tornarão parte da rotina de saúde de centenas de milhares de pessoas.
Citações Notáveis
Não sabemos o fator causal ainda. Sabemos que são doenças multifatoriais. Tem a genética, a poluição, os hábitos alimentares. Nossa dieta mudou muito nos últimos anos.— Abel Quaresma, pesquisador da Universidade do Oeste de Santa Catarina
São doenças que até por volta de 2015 eram consideradas doenças raras. E que estão tendo um boom em todo o mundo, inclusive no Brasil. A gente projeta que, a partir de 2040, vai se tornar problema de saúde pública, como é a pressão alta, o diabetes.— Abel Quaresma