Em silêncio, ao longo de treze anos, o Brasil viu quintuplicar o número de pessoas vivendo com doenças inflamatórias intestinais — condições crônicas, sem cura, que atacam o próprio corpo. Apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, um estudo baseado em dados do SUS revela que a incidência saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, com projeções que apontam para uma crise de saúde pública comparável à hipertensão e ao diabetes até 2040. Por trás dos números, há uma geração de brasileiros diagnosticados jovens, condenados a décadas de tratamento e a cu
Doenças inflamatórias intestinais crescem 5 vezes no Brasil em 13 anos
Doenças que eram raras em 2015 agora crescem como epidemia silenciosa
Por que essas doenças cresceram tanto em tão pouco tempo? Isso é genético?
Não é só genética. O estudo mostra que é multifatorial — tem predisposição genética, mas nem todos com as variações genéticas desenvolvem a doença. O ambiente mudou muito.
Mas como sabemos que são os aditivos alimentares? O estudo correlaciona isso ou apenas sugere?
O pesquisador aponta os aditivos como um fator associado, baseado em mudanças nos hábitos alimentares. Não é uma relação de causa e efeito comprovada, mas uma observação sobre como a dieta mudou.
E quanto aos números? Eles vêm de onde?
Do Sistema Único de Saúde, registros oficiais. Então temos dados concretos de diagnósticos entre 2012 e 2025.
Mas diagnósticos aumentaram porque a doença aumentou ou porque melhorou a capacidade de diagnosticar?
Ótima pergunta. O estudo não separa isso explicitamente. Pode haver mais diagnósticos porque há mais casos, ou porque os médicos estão mais atentos, ou ambos.
E a projeção para 2035 — como eles chegaram naquele número?
Extrapolando a tendência atual. Se os novos casos continuarem crescendo no ritmo observado, chegariam a 22,7 por 100 mil habitantes.
Isso assume que a tendência continua igual. Mas e se as pessoas mudarem dieta? Se houver intervenção?
Verdade. É um cenário baseado na continuidade. Não leva em conta mudanças de comportamento ou políticas públicas.
Qual é o impacto real na vida de quem tem isso?
Diagnóstico geralmente quando jovem, décadas de tratamento, custos de até R$ 500 mil por ano, sem cura à vista.
E esses R$ 500 mil — é o custo do SUS ou do paciente?
O estudo não especifica. Provavelmente é o custo total do tratamento, que pode ser coberto pelo SUS ou por seguros privados.
O Pulso
- Em apenas treze anos, o número de brasileiros com doenças inflamatórias intestinais cresceu cinco vezes, passando de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes — uma aceleração que surpreendeu até os especialistas.
- Sem cura conhecida e com tratamentos que podem custar até R$ 500 mil por paciente ao ano, o impacto financeiro e humano ameaça sobrecarregar o sistema de saúde nas próximas décadas.
- Pesquisadores apontam os aditivos dos alimentos ultraprocessados — conservantes, corantes e espessantes presentes no cotidiano alimentar moderno — como um dos principais gatilhos ambientais dessas doenças autoimunes.
- As projeções são alarmantes: até 2035, a incidência de novos casos deve chegar a 22,7 por 100 mil habitantes, e a partir de 2040 essas doenças devem se tornar um problema de saúde pública de primeira magnitude no Brasil.
- A resposta científica avança com colaborações entre universidades brasileiras e internacionais, mas o diagnóstico precoce e a mudança nos hábitos alimentares surgem como os caminhos mais urgentes diante de uma tendência ainda sem freio visível.
Em silêncio, ao longo de treze anos, o Brasil viu quintuplicar o número de pessoas vivendo com doenças inflamatórias intestinais — condições crônicas, sem cura, que atacam o próprio corpo. Apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, um estudo baseado em dados do SUS revela que a incidência saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, com projeções que apontam para uma crise de saúde pública comparável à hipertensão e ao diabetes até 2040. Por trás dos números, há uma geração de brasileiros diagnosticados jovens, condenados a décadas de tratamento e a custos que podem chegar a R$ 500 mil por ano — enquanto a dieta moderna, repleta de aditivos industriais, figura entre os principais suspeitos.
Em treze anos, o Brasil assistiu a uma transformação silenciosa em sua saúde coletiva. O número de pessoas vivendo com doenças inflamatórias intestinais — doença de Crohn e retocolite ulcerativa — aumentou cinco vezes entre 2012 e 2025, saltando de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. Os dados foram apresentados no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú, e compilados com base em registros do SUS por pesquisadores da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, em parceria com universidades como USP, Unicamp e a Universidade de Calgary, no Canadá.
Essas doenças são autoimunes: o próprio organismo ataca seus tecidos, desencadeando inflamação crônica sem origem única. O pesquisador Abel Quaresma, da Universidade do Oeste de Santa Catarina, explica que a combinação de predisposição genética, fatores ambientais e hábitos alimentares está no centro do problema. A dieta moderna ocupa lugar de destaque entre os suspeitos: aditivos como conservantes, corantes e espessantes — responsáveis por fazer um pão de forma durar três meses em vez de poucos dias — são apontados como indutores do processo inflamatório.
As projeções para o futuro aprofundam a preocupação. Até 2035, a incidência de novos casos deve chegar a 22,7 por 100 mil habitantes, crescimento de quase 84% em relação a 2025. O número total de pessoas vivendo com essas condições pode alcançar 264 por 100 mil habitantes no mesmo período. A partir de 2040, os pesquisadores estimam que as doenças inflamatórias intestinais se tornarão um problema de saúde pública comparável à hipertensão e ao diabetes.
O custo humano já é pesado. Não há cura — o tratamento visa apenas controlar a inflamação. Os medicamentos podem custar até R$ 500 mil por paciente ao ano, e muitos recebem o diagnóstico ainda jovens, enfrentando décadas de acompanhamento contínuo. É essa a trajetória que se desenha: uma geração inteira de brasileiros convivendo com uma doença crescente, cara e sem perspectiva de resolução definitiva.
Em treze anos, o Brasil assistiu a uma transformação silenciosa e perturbadora em sua paisagem de saúde. O número de pessoas vivendo com doenças inflamatórias intestinais — condições crônicas que incluem a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa — aumentou cinco vezes entre 2012 e 2025. A incidência saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes. Novos diagnósticos, que eram de 9,35 por 100 mil habitantes ao ano em 2012, chegaram a 12,34 em 2025. Os números vêm de um estudo apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, realizado em Balneário Camboriú, Santa Catarina, e foram compilados por pesquisadores da Sociedade Brasileira de Coloproctologia com base em registros do Sistema Único de Saúde.
O trabalho foi conduzido por Abel Quaresma, da Universidade do Oeste de Santa Catarina, e Paulo Kotze, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em colaboração com universidades internacionais como a de Calgary, no Canadá, e brasileiras como USP e Unicamp. Essas doenças inflamatórias intestinais são autoimunes — o corpo ataca suas próprias células e tecidos, desencadeando um processo crônico de inflamação que não tem origem única. Quaresma explica que tanto a doença de Crohn quanto a retocolite ulcerativa são multifatoriais, resultado de uma combinação de predisposição genética, fatores ambientais, hábitos alimentares e exposição a poluentes.
A genética importa, mas não conta a história toda. Nem todos os pacientes com essas doenças carregam as variações genéticas que estudos associam ao seu desenvolvimento. O ambiente, portanto, desempenha um papel crucial — e aqui a dieta moderna emerge como suspeita principal. Quaresma aponta uma mudança radical nos últimos vinte anos: um pão comprado em padaria há duas décadas ficava mofado em quatro ou cinco dias; hoje, um pão de forma permanece pronto para consumo por três meses. Essa durabilidade vem de conservantes, corantes e espessantes — aditivos que tornam o alimento mais barato, aumentam seu volume, melhoram sua aparência e o preservam. Segundo o pesquisador, essas substâncias induzem o desenvolvimento de doenças inflamatórias intestinais.
O que torna esses números ainda mais preocupantes é a projeção para o futuro. Os pesquisadores estimam que em 2035, a incidência de novos casos chegará a 22,7 por 100 mil habitantes — um aumento de quase 84% em relação a 2025. Se essa tendência se confirmar, o número total de pessoas vivendo com essas doenças poderia alcançar 264 por 100 mil habitantes em 2035, representando um crescimento de 67% em apenas dez anos. Quaresma observa que até 2015, essas condições eram consideradas raras. Agora estão em expansão acelerada em todo o mundo, inclusive no Brasil. A projeção é que a partir de 2040, as doenças inflamatórias intestinais se tornem um problema de saúde pública de primeira magnitude, comparável à hipertensão e ao diabetes.
O custo humano e financeiro dessa trajetória é substancial. Não existe cura para essas doenças; o tratamento visa apenas controlar a inflamação e os sintomas. Os medicamentos necessários custam até R$ 500 mil por paciente ao ano. Muitos pacientes recebem o diagnóstico quando ainda são jovens e precisarão de acompanhamento médico contínuo por décadas. Essa é a realidade que se desenha: uma geração de brasileiros enfrentando décadas de tratamento, custos elevados e a ausência de perspectiva de cura, tudo enquanto a prevalência dessas doenças cresce de forma consistente e previsível.
Citações Notáveis
Não sabemos ainda qual é o fator causal. Sabemos que são doenças multifatoriais. Tem a genética, a poluição, os hábitos alimentares. Nossa dieta mudou muito nos últimos anos.— Abel Quaresma, pesquisador da Universidade do Oeste de Santa Catarina
São doenças que até por volta de 2015 eram consideradas raras. E que estão tendo um boom em todo o mundo, inclusive no Brasil. A gente projeta que, a partir de 2040, vai se tornar problema de saúde pública, como é a pressão alta, o diabetes.— Abel Quaresma