Do sertão cearense ao cume do Everest: documentário estreia no Canal OFF

Nasci em meio à escassez, mas nunca imaginei que chegaria tão longe
Rosier Alexandre reflete sobre sua trajetória do sertão cearense ao cume do Everest.
Mark

Como um menino do sertão cearense chega a escalar o Everest? Parece improvável.

Mimi

Começou com uma conversa. Aos 9 anos, um médico explicou que a Terra era redonda e que havia outros países. Aquilo mudou tudo na cabeça dele.

Luke

Mas entre entender que a Terra é redonda e chegar ao Everest há décadas de vida. O que preencheu esse tempo?

Mimi

Trabalho, estudo interrompido, frustração financeira. Aos 28 anos ele estava quebrado, mas resgatou aquele sonho de criança e começou a estudar escalada.

Mark

E conseguiu na primeira tentativa?

Mimi

Não. Tentou em 2014, mas uma geleira se rompeu e matou 16 pessoas, incluindo colegas dele. Em 2015, um terremoto devastador o impediu novamente.

Luke

Essas são tragédias reais. Quantas pessoas morreram no Nepal naquele terremoto?

Mimi

Mais de 12 mil no país inteiro, 19 delas no campo-base do Everest.

Mark

E ele voltou mesmo assim?

Mimi

Voltou. Em 2016, conseguiu chegar ao cume no dia 21 de maio.

Luke

O documentário foi feito depois disso. Quem pagou?

Mimi

O diretor Ian Ruas abriu mão do custo do equipamento, mas Alexandre continua pagando pelos custos de cada exibição até hoje.

Mark

Então ele ainda está investindo nessa história?

Mimi

Sim. Ganhou prêmios em dois festivais, mas do próprio bolso. Diz que ficou muito melhor do que imaginava.

  • Duas catástrofes — uma avalanche em 2014 e um terremoto devastador em 2015 — mataram dezenas de pessoas e forçaram Alexandre a descer o Everest de mãos vazias por duas vezes consecutivas.
  • Os comentários de descrença e escárnio se acumularam, e Alexandre chegou a se fechar para a imprensa, carregando a frustração de quem viu colegas morrerem e ainda assim precisava justificar o sonho.
  • Em 2016, na terceira tentativa, ele chegou ao cume no dia 21 de maio, tornando-se o primeiro nordestino a alcançar o ponto mais alto do planeta.
  • Transformar a conquista em filme foi outro obstáculo: empresas queriam ficção, mas Alexandre recusou ceder sua história até encontrar o diretor Ian Ruas, que abriu mão dos custos de equipamento para viabilizar o projeto.
  • Premiado em dois festivais nacionais, o documentário ainda é bancado do próprio bolso por Alexandre a cada exibição — a luta pela visibilidade continua mesmo depois do cume.

Da casa de taipa no sertão cearense ao topo do mundo, a trajetória de Rosier Alexandre desafia as fronteiras que a pobreza costuma impor ao destino humano. Aos 9 anos, a revelação de que a Terra era redonda e que existiam outros mundos além da caatinga plantou nele uma sede que nem geleiras rompidas nem terremotos conseguiram apagar. Agora, aos 58, o primeiro nordestino a conquistar o Everest vê sua história chegar às telas no documentário 'O Engraxate que Escalou o Everest', estreando no Canal OFF em setembro de 2026 — um lembrete de que a imaginação de uma criança pode ser a força mais persistente do universo.

Rosier Alexandre tinha 9 anos quando um médico de Monsenhor Tabosa, no interior do Ceará, lhe apresentou um visitante alemão e revelou que a Terra era redonda e que existiam países além daquele sertão. A descoberta ficou guardada como brasa. Décadas depois, aos 58 anos, Alexandre se tornaria o primeiro nordestino a alcançar o cume do Everest. Sua história chega agora às telas no documentário 'O Engraxate que Escalou o Everest', que estreia no Canal OFF.

Criado numa casa de taipa, Alexandre trabalhou como engraxate enquanto alimentava o sonho de conhecer o mundo. Aos 28 anos, financeiramente quebrado, resgatou aquele propósito da infância e decidiu escalar os sete cumes mais altos do planeta. Estudou por mais de cinco anos e, em 2002, convocou a imprensa cearense para anunciar o plano. Os jornalistas duvidaram. Nenhum nordestino havia feito algo assim.

O Everest não cedeu fácil. Em 2014, uma geleira se rompeu e matou 16 pessoas, entre elas três colegas seus. Em 2015, um terremoto devastador fechou novamente a montanha. Alexandre voltou ao Brasil duas vezes com a frustração no peito e os comentários cruéis ecoando ao redor. Mas em 2016 viabilizou uma terceira expedição e chegou ao topo no dia 21 de maio.

Transformar a conquista em filme foi quase tão difícil quanto a própria escalada. Empresas queriam ficção; ele recusou. O caminho só se abriu quando encontrou o diretor Ian Ruas, que se apaixonou pelo projeto e abriu mão dos custos de equipamento. Filmaram em quatro países e três continentes, com trilha de Oswaldo Montenegro. O documentário venceu como Melhor Longa-Metragem Nacional no Festival Internacional YVY e recebeu o Troféu Corcovado no Rio Mountain Festival. Até hoje, Alexandre banca do próprio bolso cada exibição. A partir de 11 de setembro, o filme estará disponível no Globoplay.

Rosier Alexandre tinha 9 anos quando um médico de sua cidade levou um visitante alemão para Monsenhor Tabosa, no interior do Ceará. O menino nunca havia visto alguém assim — pele clara, olhos azuis, cabelo encaracolado — e acreditava estar diante de um extraterrestre. Naquele encontro casual, o médico lhe explicou que a Terra era redonda, não plana como ele imaginava, e que existiam países além daquele sertão árido onde vivia. A revelação marcou fundo. Décadas depois, aos 58 anos, Alexandre se tornaria o primeiro nordestino a alcançar o cume do Everest, a montanha mais alta do mundo. Sua história agora chega às telas através do documentário "O Engraxate que Escalou o Everest", que estreia nesta quinta-feira no Canal OFF.

A trajetória de Alexandre não foi linear. Nascido e criado numa casa de taipa em meio à escassez da caatinga sertaneja, ele trabalhou como engraxate enquanto sonhava em viajar pelo mundo. Aos 16 anos, mudou-se para Fortaleza para estudar técnico agrícola, depois tentou faculdade, mas precisou abandonar os estudos para trabalhar. Apenas com mais de 30 anos conseguiu completar uma graduação em administração. Aos 28, quebrado financeiramente e emocionalmente esgotado, ele resgatou aquele propósito plantado na infância: viajar e conhecer o mundo. Decidiu que escalaria os sete cumes mais altos do planeta, um de cada continente. Passou mais de cinco anos estudando, lendo, aprendendo técnicas de escalada, até que em 2002 chamou a imprensa cearense para anunciar seu plano. Os jornalistas duvidaram, acharam que era loucura — nenhum nordestino havia feito algo assim.

Mas o Everest se mostrou implacável. Na primeira tentativa, em 2014, uma geleira se rompeu e matou 16 pessoas, incluindo três colegas de Alexandre. O governo nepalês fechou a montanha e mandou todos de volta. Na segunda tentativa, em 2015, um terremoto de magnitude devastadora — o maior em 85 anos — deixou mais de 12 mil mortos no Nepal, 19 deles apenas no campo-base do Everest. Voltou ao Brasil duas vezes com a frustração no peito. Os comentários cruéis vieram: será que esse maluco teria coragem de voltar? Ele se recusou a falar com jornalistas por um tempo, mas insistiu. Em 2016, viabilizou uma terceira expedição e chegou ao cume no dia 21 de maio.

Transformar essa história em filme provou ser tão desafiador quanto a própria montanha. Depois de retornar, empresas o procuraram, mas todas queriam fazer ficção. Alexandre recusou — aquela era sua história, não uma invenção. O tempo passou até que viu um documentário do diretor Ian Ruas sobre o músico Oswaldo Montenegro e se identificou com a forma como a narrativa era contada. Mandou uma mensagem, conversaram, e Ruas gostou da proposta. O orçamento inicial era impossível para Alexandre bancar, mas o diretor se apaixonou pelo projeto e abriu mão do custo do equipamento, pedindo apenas que cobrisse os gastos diretos da equipe. Filmaram em quatro países e três continentes — Bolívia, Estados Unidos, Nepal e Brasil — entrevistando alguns dos melhores montanhistas da atualidade, colegas de escola, professora da infância.

O documentário conquistou prêmios em dois festivais: o de Teresópolis, onde venceu como Melhor Longa-Metragem Nacional no Festival Internacional YVY, e o Rio Mountain Festival, onde recebeu o Troféu Corcovado pelo voto do júri popular. Até agora, Alexandre continua pagando do próprio bolso pelos custos de cada exibição e divulgação. "Nasci em meio à escassez, na caatinga sertaneja, acreditando que o trabalho poderia me levar para uma vida diferente", disse ele. "Mas nunca imaginei que chegaria tão longe a ponto de minha história virar um filme". O filme estreia nesta quinta-feira às 23h no Canal OFF, com reprises na sexta às 17h e no sábado às 15h. A partir de 11 de setembro, estará disponível no Globoplay.

Nasci em meio à escassez, na caatinga sertaneja, acreditando que o trabalho poderia me levar para uma vida diferente. Mas nunca imaginei que chegaria tão longe a ponto de minha história virar um filme.
— Rosier Alexandre
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