Do frango ao foguete: Joesley Batista assume controle da Avibras

Acordo trabalhista envolveu 850 demissões de remanescentes e 450 readmissões na Avibras.
Do frango ao foguete: como o agronegócio virou defesa
Os Batista, maiores produtores de proteína animal, assumem controle da principal fabricante de armas do Brasil.
Mark

Como exatamente os Batista, que vêm do agronegócio, conseguem credibilidade para gerir uma fabricante de armas?

Mimi

Eles não tinham credibilidade no setor, e foram honestos sobre isso. Mas tinham dois ativos: contatos na Indonésia e capital. O governo precisava de uma solução brasileira, e eles ofereceram uma.

Luke

Mas quem realmente vai tocar a operação? Hassuani é o CEO, Dantas é conselheiro. Joesley está realmente envolvido no dia a dia ou apenas como investidor?

Mimi

Joesley decidiu assumir o controle direto em meados do ano, comprando o Brasil Crédito. Isso sugere envolvimento além do financeiro. Mas ele não comenta publicamente sobre o assunto.

Mark

E os trabalhadores? Como ficaram depois da greve?

Mimi

Houve um acordo: 850 demissões de remanescentes e 450 readmissões. Então cerca de metade dos 1.400 originais saiu.

Luke

Isso é uma redução de 50% da força de trabalho. Mas qual era a situação antes? A empresa estava operando com capacidade reduzida durante a greve?

Mimi

A greve durou meses em 2024. A empresa estava em recuperação judicial. Não sabemos os detalhes operacionais, mas claramente havia excesso de pessoal para a realidade financeira.

Mark

Por que o Qatar cancelou aquele contrato de 820 milhões?

Mimi

Israel pressionou o governo Bolsonaro. O contrato era para o Míssil Tático de Cruzeiro, e Israel tinha interesse em bloquear.

Luke

Isso é atribuído a integrantes da gestão Bolsonaro, certo? Não é confirmado publicamente pelo Qatar ou por Israel.

Mimi

Correto. É o que pessoas próximas ao governo disseram. O fato é que o contrato foi vetado.

Mark

E agora, com Lula no poder, há chance de recuperar negócios como esse?

Mimi

Lula prometeu investimento renovado em defesa, mas o cenário fiscal é difícil. Os 300 milhões anunciados para a Avibras já foram contingenciados em agosto.

Luke

Então o investimento foi anunciado mas não desembolsado?

Mimi

Exatamente. O governo está apertado financeiramente.

  • Avibras fundada em 1961 por engenheiros do ITA em Jacareí
  • Greve de 1.400 trabalhadores em setembro de 2024; recuperação judicial em março de 2024
  • Contrato de US$ 820 milhões com Qatar vetado em 2018, principalmente por pressão de Israel
  • Batista investiram aproximadamente R$ 300 milhões através do Brasil Crédito
  • Acordo trabalhista: 850 demissões e 450 readmissões

A Avibras, criada em 1961 por engenheiros do ITA, enfrentou crise agônica com greve de 1.400 trabalhadores e pedido de recuperação judicial em março de 2024. Os Batista, maiores produtores de proteína animal, investiram cerca de R$ 300 milhões através do Brasil Crédito para sanear a empresa e reposicioná-la estrategicamente.

Os irmãos Joesley e Wesley Batista assumem o controle da Avibras em outubro, transformando a maior fabricante de armas do Brasil após crise que resultou na mais longa greve da história brasileira.

Em outubro, os irmãos Joesley e Wesley Batista assumem o controle da Avibras, a principal fabricante de armas do Brasil, marcando o início de um novo capítulo para uma empresa que atravessou uma crise devastadora. A transição encerra um período de turbulência que incluiu a mais longa greve da história brasileira, quando cerca de 1.400 trabalhadores paralisaram as atividades em setembro de 2024, organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região.

A chegada dos Batista ao intrincado mercado de defesa surpreendeu muitos. Os irmãos construíram sua fortuna como maiores produtores de proteína animal do país, sem qualquer experiência prévia no setor de armamentos. Quando Joesley foi apresentado ao ministro da Defesa José Múcio Monteiro no início deste ano, sua falta de familiaridade era evidente. "O que é essa Avibras?", perguntou o empresário. Múcio respondeu com humor, esclarecendo que o "avi" do nome não tinha relação com aves, mas sim com a origem da empresa: fundada em 1961 por engenheiros do Instituto Tecnológico da Aeronáutica como fabricante de sistemas aeroespaciais e de defesa.

A Avibras havia entrado em colapso financeiro. Em março de 2024, a empresa solicitou recuperação judicial. Seus problemas eram múltiplos: o último grande sucesso de exportação havia ocorrido em 2012, quando vendeu seu principal produto, o sistema de artilharia Astros-2, para a Indonésia. O Exército brasileiro, seu maior cliente doméstico, mantinha investimentos baixos. Pior ainda, um contrato de 820 milhões de dólares com o Qatar para fornecer o Míssil Tático de Cruzeiro foi vetado, principalmente pela pressão de Israel sobre o governo Bolsonaro. A dívida da empresa ultrapassava 600 milhões de reais, com 230 milhões em débitos trabalhistas.

A solução veio através de uma estrutura complexa. Em agosto de 2024, o fundo de investimento Brasil Crédito comprou a dívida de aproximadamente 220 milhões de reais que a empresa indonésia PDS mantinha com a Avibras. Os Batista, com seus contatos na Indonésia desenvolvidos através de investimentos em energia e proteína animal, foram recomendados para assumir a recuperação. O presidente eleito Lula havia deixado claro que rejeitava qualquer solução envolvendo capital estrangeiro, o que eliminou propostas da australiana DefendTex e do grupo emirati Edge. A Norinco chinesa também ficou de fora.

Em meados de 2026, Joesley decidiu assumir o controle direto. Através da Globe Investimentos, o family office dos Batista, ele comprou o controle do Brasil Crédito em 21 de agosto. O Cade aprovou a transação em 14 de setembro. Os Batista investiram aproximadamente 300 milhões de reais para sanear a empresa e reposicioná-la. Um acordo trabalhista foi celebrado envolvendo 850 demissões de remanescentes e 450 readmissões.

A nova gestão foi estruturada com cuidado. Sami Hassuani, engenheiro do ITA que havia presidido a Avibras durante seu período áureo de 2008 a 2016, foi trazido de volta como presidente. Joesley convidou Bruno Dantas, que deixava a presidência do Tribunal de Contas da União, para o conselho de administração. Dantas havia presidido a Intosai, a organização internacional de órgãos de controle, e tinha experiência em regulamentações de negócios de defesa. Nem Joesley nem Dantas tinham experiência no setor, mas o plano era que Hassuani permanecesse como CEO enquanto Dantas estruturasse novas exportações.

As ambições são claras. Hassuani havia estabelecido metas de chegar a 2028 com mil funcionários e faturamento de 500 milhões de reais, focado em exportação. Além do Astros-2 e do MTC, a empresa aposta em um novo míssil balístico, drones e outros sistemas. Países como Arábia Saudita, Malásia e Indonésia já operam o Astros-2. A Índia, onde os Batista vendem frango congelado, é vista como cliente potencial. A próxima década promete um dos maiores processos de rearmamento da história, impulsionado pelas tensões geopolíticas. A Avibras, que ganhou fama global nos anos 1980 armando o Iraque de Saddam Hussein, está posicionada para aproveitar essa demanda.

O que é essa Avibras?
— Joesley Batista, ao ministro da Defesa José Múcio Monteiro
Meta de chegar a 2028 com mil funcionários e faturamento de R$ 500 milhões, focado em exportação
— Sami Hassuani, presidente da Avibras
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