Há decisões que nascem de um incômodo pequeno e silencioso: foi a dificuldade de operar um fundo com as ferramentas bancárias disponíveis que levou Pedro Mac Dowell, num fim de ano de 2017, a escrever a um dos empresários mais conhecidos do país. Da ideia de unir a lógica de vender infraestrutura, como a AWS, à facilidade de contratar serviços pela internet, como a Stripe, surgiu a QI Tech, hoje avaliada em cerca de US$ 2 bilhões. Sua trajetória, marcada por recomeços anteriores, mostra que a história da empresa é também a de alguém que insiste em construir aquilo que lhe faltou.
Do e-mail de Natal a Lemann à QI Tech, avaliada em cerca de US$ 2 bilhões
Para cada TED, na teoria, uma nota fiscal
O que chama atenção é que a empresa nasce de um incômodo pessoal, não de uma grande tese.
Sim. Ele contratava bancos para o fundo e via que o sistema não foi feito para isso. Vendeu a si mesmo a solução que queria comprar.
E a relação com Lemann, qual foi o papel dela?
Conversa e porta aberta. Lemann indicou André Street, da Stone, e as conversas ajudaram a desenhar a proposta.
Vale separar: a indicação está relatada, mas não sabemos o que exatamente mudou na proposta por causa dela. E os US$ 2 bilhões de avaliação aparecem como "cerca de", sem dizer quem calculou.
Então o número é uma estimativa solta?
Pelo texto, sim. O mesmo vale para os R$ 2 bilhões de faturamento em 2026: é projeção do próprio fundador, não resultado auditado.
Já o impasse fiscal é concreto: uma nota por TED, na teoria. Resolveram com a Receita e autoridades estaduais.
Mas o texto não detalha como foi resolvido nem quanto tempo levou ao certo. Sabemos só que houve noites sem dormir.
E o que ficou do começo?
As reuniões em pé de um minuto e a ausência de sala própria para o fundador.
O Pulso
- Um e-mail enviado no Natal de 2017 deu início a uma empresa que hoje vale cerca de US$ 2 bilhões.
- Sistemas bancários feitos para o próprio banco travavam operações de terceiros, e cada adaptação custava tempo e negociação.
- Após a licença do Banco Central em 2018, a empresa esbarrou num vácuo fiscal: cada TED poderia exigir uma nota fiscal própria.
- A equipe foi à Receita e às autoridades estaduais para redefinir o enquadramento, enquanto buscava os primeiros clientes entre bancos e gestoras desconfiados.
- Com clientes como Vivo e Wellhub, a empresa mira R$ 2 bilhões em faturamento em 2026, e o desafio agora é sustentar esse ritmo de crescimento.
Há decisões que nascem de um incômodo pequeno e silencioso: foi a dificuldade de operar um fundo com as ferramentas bancárias disponíveis que levou Pedro Mac Dowell, num fim de ano de 2017, a escrever a um dos empresários mais conhecidos do país. Da ideia de unir a lógica de vender infraestrutura, como a AWS, à facilidade de contratar serviços pela internet, como a Stripe, surgiu a QI Tech, hoje avaliada em cerca de US$ 2 bilhões. Sua trajetória, marcada por recomeços anteriores, mostra que a história da empresa é também a de alguém que insiste em construir aquilo que lhe faltou.
No Natal de 2017, Pedro Mac Dowell escreveu a Jorge Paulo Lemann para descrever o que pretendia construir. Ele já havia fundado a gestora Quatá Investimentos, mas enfrentava um problema recorrente: para executar operações de crédito, precisava de bancos cujos sistemas não foram pensados para terceiros. A ideia era entregar essa infraestrutura pronta, cobrada pelo uso e acessada pela internet. Lemann o encaminhou a André Street, da Stone, e as conversas ajudaram a moldar o projeto. Mac Dowell reuniu R$ 3 milhões com sócios e começou a deixar a Quatá.
Recomeçar não era novidade. Aos 24 anos, já havia perdido um negócio inicial por divergências com sócios e por gastos com acabamentos que não tinham prioridade. Em 2008, tentou de novo com a Quatá, que sobreviveu à crise e cresceu. Mesmo lucrativa, a gestora já não oferecia o desafio que ele buscava, e a saída foi gradual.
A QI Tech começou com dez engenheiros e uma decisão controversa: desenvolver o próprio sistema financeiro em vez de comprar um pronto. A cultura de reuniões rápidas em pé e a ausência de sala para o fundador sobreviveram ao crescimento. Em 2018, a empresa recebeu a licença do Banco Central, tornando-se a primeira sociedade de crédito direto do país. Mas a tributação ainda não previa seu modelo, e a equipe precisou negociar com a Receita e os estados para definir como cobrar notas fiscais. Superado o impasse, buscou clientes entre bancos e gestoras que conheciam, fechou 2019 no positivo e hoje atende empresas como Vivo e Wellhub, com a meta de faturar R$ 2 bilhões em 2026.
No dia de Natal de 2017, Pedro Mac Dowell escreveu um e-mail a Jorge Paulo Lemann para contar o que pretendia construir. A ideia combinava duas referências: a AWS, braço da Amazon que vende tecnologia a outros negócios, e a Stripe, fintech americana que permite contratar serviços de pagamento pela internet. Dali nasceu a QI Tech, hoje avaliada em cerca de US$ 2 bilhões.
Lemann, empresário que participou da construção da Ambev e da compra do Burger King, não era um destinatário qualquer. Mac Dowell o conheceu na adolescência, quando treinava para ser tenista profissional, e desde então recorria a ele para conversar sobre os rumos que queria tomar. Naquele Natal, queria mudar de caminho outra vez. Já havia criado uma gestora, a Quatá Investimentos, com R$ 2,5 bilhões de clientes sob gestão, mas viu uma oportunidade maior num problema que enfrentava ao contratar bancos.
Na Quatá, ele escolhia quais empresas receberiam o dinheiro dos investidores, mas precisava de um banco para formalizar os empréstimos e executar as operações. Os sistemas bancários, diz, foram feitos para atender ao próprio banco, e usá-los para montar operações de terceiros exigia adaptações e negociações. A proposta foi entregar essa estrutura pronta a quem precisasse, com cobrança conforme o uso, como na AWS, e integração pela internet, como na Stripe. Lemann respondeu indicando André Street, um dos fundadores da Stone. As conversas ajudaram a moldar a proposta. Mac Dowell começou a deixar o comando da Quatá e reuniu, com sócios, R$ 3 milhões para a nova empresa.
Recomeçar não era novidade para ele. Aos 24 anos, depois de trabalhar com análise de crédito, entrou numa gestora com um amigo, vendeu o carro e investiu as economias. O dinheiro era pouco e os sócios divergiam sobre como gastá-lo: ele queria destinar recursos à equipe, enquanto um sócio pagava por um revestimento que imitava madeira nas paredes do escritório. O negócio durou cerca de seis meses; venderam o que tinham montado e recuperaram parte do dinheiro. Mac Dowell foi então para uma corretora, onde seguiu com operações de crédito, mas com pouca autonomia.
Em 2008, tentou de novo. Vendeu outro carro, resgatou investimentos e juntou o suficiente para manter a estrutura da Quatá por dez meses. A crise financeira afastou parte dos investidores que haviam prometido recursos, mas a gestora saiu do papel e cresceu. Anos depois, já lucrativa, deixara de oferecer o desafio que ele buscava; a saída foi gradual, com recursos mantidos investidos e uma passagem pelo comitê enquanto outros assumiam suas funções.
A QI Tech começou com dez profissionais de engenharia e uma decisão que parecia arriscada até para o mercado: escrever o próprio sistema para organizar contas, transferências, empréstimos e pagamentos, embora houvesse programas prontos à venda. Os fundadores queriam uma tecnologia desenhada para ser usada por outras empresas. A equipe fazia reuniões em pé, com cerca de um minuto por pessoa para dizer o que faria no dia e de quem precisava de ajuda. O hábito sobreviveu ao crescimento, e o fundador segue sem sala reservada: senta junto de todos.
O Banco Central concedeu a autorização no fim de 2018, e a QI Tech foi a primeira sociedade de crédito direto a obter a licença, modalidade criada naquele ano. A operação começou em maio de 2019, mas o modelo ainda não tinha lugar nos cadastros fiscais. A empresa era tratada como prestadora de serviços comum, o que implicaria uma nota fiscal para cada TED enviada. A equipe procurou a Receita e autoridades estaduais para explicar o negócio e resolver o enquadramento, após cerca de um ano e meio de trabalho para montar os sistemas.
Superado o impasse, Mac Dowell foi atrás dos primeiros clientes entre bancos e gestoras que conhecia, com o mesmo problema que motivara o e-mail de Natal. Alguns desconfiavam de contratar um antigo concorrente, mas a operação ganhou clientes e fechou 2019 com resultado positivo. Depois vieram fintechs e marcas como Vivo e Wellhub. Para 2026, ele projeta faturamento de R$ 2 bilhões.
Citações Notáveis
Eu não tenho uma sala, sento com todo mundo.— Pedro Mac Dowell, fundador da QI Tech
Para cada TED que a gente mandava, na teoria eu tinha que emitir uma nota.— Pedro Mac Dowell, fundador da QI Tech