Rússia redirecionou exportações de diesel para o Brasil após sanções europeias, tornando-se principal fornecedor até veto de Putin em junho de 2026. Coral Energy controlava 80% do mercado brasileiro, mas foi alvo de sanções europeias por contornar tetos de preço e operava com frota fantasma russa.
Disputa bilionária por diesel russo no Brasil envolve empresa de Dubai e operadora local
Um ecossistema inteiro se formou, depois desabou em litígios
Por que essa disputa entre duas empresas sobre diesel russo importa para o leitor brasileiro comum?
Porque mostra como um vácuo regulatório transformou um negócio legítimo em um caos de acusações e perdas. R$ 3,7 bilhões em disputa não é dinheiro abstrato — é capital que poderia estar em outro lugar da economia.
Mas precisamos ser claros: o Brasil não violou sanções. A Coral Energy foi sancionada pela Europa, não pelo Brasil. Isso muda a narrativa de ilegalidade.
E quanto aos navios? A frota fantasma russa é legal aqui?
Tecnicamente sim. O Brasil não proibiu o uso desses navios. Mas o Financial Times investigou a 2Rivers por estar no centro de um esquema bilionário global de distribuição irregular. Isso sugere algo além da legalidade técnica.
Investigação de jornal não é acusação formal. A 2Rivers nega participação em ilegalidades. Tahir Garayev, um dos fundadores, negou envolvimento em qualquer atividade ilegal.
E a Dia 33? Ela tem razão nessa disputa?
A Dia 33 apresenta evidências de que seus executivos foram cooptados, seus clientes foram desviados, seus escritórios foram usados. A 3ª Vara Empresarial de São Paulo identificou indícios de concorrência desleal. Mas a Coral nega tudo.
A Dia 33 também pediu bloqueio de R$ 133 milhões e a liminar foi indeferida. Seu pedido de recuperação judicial foi indeferido em julho. Esses são sinais de que nem tudo que ela alega é comprovado.
Então quem vai ganhar?
Ninguém sabe. A 2Rivers está em dissolução. Mesmo que Dubai condene a empresa a pagar R$ 3,7 bilhões, executar essa sentença contra uma empresa que está se desfazendo é extremamente difícil.
E há ainda a questão de qual empresa exatamente seria responsável — a Coral original ou a 2Rivers? Isso pode estar em disputa também.
El Pulso
- Rússia forneceu 90% do diesel importado pelo Brasil em abril de 2026, totalizando R$ 99 bilhões em transações ajustadas
- Coral Energy controlava 80% do mercado brasileiro de diesel russo através de subsidiárias
- Dia 33 reclama US$ 703 milhões (R$ 3,7 bilhões) em arbitragem em Dubai desde 2025
- Veto russo às exportações em junho de 2026 eliminou o diesel russo do mercado brasileiro
Rússia redirecionou exportações de diesel para o Brasil após sanções europeias, tornando-se principal fornecedor até veto de Putin em junho de 2026. Coral Energy controlava 80% do mercado brasileiro, mas foi alvo de sanções europeias por contornar tetos de preço e operava com frota fantasma russa.
Importação de diesel russo para o Brasil gerou disputa empresarial de R$ 4 bilhões entre a Coral Energy/2Rivers e a Dia 33, envolvendo acusações de concorrência desleal e apropriação indébita.
O diesel russo chegou ao Brasil em volume extraordinário durante três anos de guerra na Ucrânia, transformando-se em mais do que um simples negócio de commodities. Entre 2022 e 2026, enquanto a União Europeia impunha sanções ao petróleo de Moscou, a Rússia redirecionava suas exportações para mercados menos restritos. O Brasil absorveu 11% do diesel russo exportado globalmente até agosto de 2026, ficando atrás apenas da Turquia com 26% e da China com 12%. Em abril daquele ano, a Rússia fornecia 90% de todo o diesel importado pelo país. Esse fluxo representou aproximadamente R$ 99 bilhões em transações ajustadas, segundo cálculos do governo federal.
Um ecossistema comercial inteiro se desenvolveu em torno dessa oportunidade. A empresa Coral Energy, sediada em Dubai mas com raízes no Azerbaijão, emergiu como o ator dominante, controlando até 80% das vendas através de diversas subsidiárias e associadas. A operação funcionava legalmente no Brasil, que não havia adotado as mesmas proibições que a Europa. Navios sob sanções ocidentais navegavam com outras bandeiras, parte da chamada frota fantasma russa, transportando o produto sem violar as leis brasileiras. Tudo mudou quando a União Europeia impôs sanções à Coral Energy no final de 2024 por contornar os tetos de preço aceitos para petróleo russo. A empresa mudou seu nome para 2Rivers e iniciou um processo de desmonte operacional que deixou grandes clientes brasileiros sem fornecedores alternativos.
No início de 2024, antes das sanções europeias, a Coral havia firmado uma parceria com a Dia 33, grupo brasileiro controlado pelo russo Igor Soglaev. O acordo previa divisão igualitária dos lucros do diesel de Putin entre os sócios. A joint venture desabou em poucos meses, transformando-se em uma batalha legal que agora se desenrola simultaneamente na Justiça de São Paulo, na Justiça do Paraná e em uma corte arbitral em Dubai. A Dia 33 acusa a Coral de ter cooptado seus principais executivos para montar uma operação paralela, utilizando a carteira de clientes, os escritórios e a infraestrutura da empresa brasileira antes de desfazer o acordo. A empresa brasileira reclama R$ 138 milhões em indenização por concorrência desleal, além de acusar a Coral de oferecer descontos que violavam a política de preços acordada e de ter promovido uma campanha de difamação que afastou clientes.
Os antigos funcionários da Dia 33 chegaram a ocupar um escritório da empresa em São Paulo enquanto trabalhavam para a operação paralela da Coral. A 3ª Vara Empresarial de São Paulo identificou indícios de concorrência desleal e tentou limitar as ações associadas à Coral no ano anterior. A defesa dos acusados nega irregularidades, argumentando que se tratava apenas de uma discussão societária em torno de uma minuta de acordo que nunca se concretizou. Fernando Galera, ex-diretor de operações da Coral, sustentou essa versão dos fatos.
A Coral contra-atacou acusando a Dia 33 de apropriação indébita de uma carga de diesel, alegando direitos como integrante da joint venture. Esse processo corre na Justiça do Paraná, onde a empresa estrangeira pediu o bloqueio de R$ 133 milhões da rival, mas a liminar foi indeferida. A Dia 33, por sua vez, argumenta ter perdido dinheiro com dívidas trabalhistas e estocagem de combustível, citando débitos que chegam a R$ 800 milhões. Empresas do grupo apresentaram pedido de recuperação judicial em 2026, mas ele foi indeferido em julho.
O centro da disputa agora está no Centro Internacional de Arbitragem de Dubai, onde a Dia 33 pede desde 2025 o ressarcimento de US$ 703 milhões, equivalentes a R$ 3,7 bilhões, à Coral e sua sucessora 2Rivers. Em meados de 2026, a corte arbitral determinou o arresto de bens dos acusados enquanto o processo é analisado, decisão confirmada também em Hong Kong. A exposição internacional da 2Rivers e seu processo de dissolução podem dificultar significativamente a execução de qualquer sentença favorável à Dia 33. Representantes da empresa no exterior não responderam a tentativas de contato nos últimos meses.
Essa disputa bilionária não é um caso isolado. O diesel russo esteve no centro de outras operações problemáticas no Brasil, incluindo um esquema de fraude tributária envolvendo o Grupo Refit, dono da refinaria de Manguinhos, e o uso de empresas fantasmas pelo PCC para comprar o derivado e revendê-lo em suas redes de postos de combustíveis. Enquanto isso, o veto russo às exportações imposto por Vladimir Putin no final de junho de 2026 e renovado desde então eliminou o diesel russo do mercado brasileiro. Em agosto daquele ano, nenhuma gota chegou ao país, e os Estados Unidos ocuparam a posição de principal fornecedor com 74% do mercado. O que começou como uma oportunidade comercial em um mercado desregulado terminou em litígios internacionais cujo desfecho permanece incerto.
Citas Notables
A Dia 33 diz que a Coral cooptou seus principais executivos para uma operação paralela, usando inclusive carteira de clientes, escritórios e infraestrutura da empresa— Dia 33, em ação na Justiça
Fernando Galera, ex-diretor de operações da Coral, sustentou que tudo não passou de uma discussão societária em torno de uma minuta de acordo que não se concretizou— Defesa da Coral Energy