Discord emerge como plataforma central para crimes extremistas no Brasil

Vítimas incluem animais mortos em transmissões ao vivo, adolescentes e pessoas LGBTQ+ alvo de ataques planejados, moradores de rua atacados, e vítimas de crimes sexuais virtuais.
O conteúdo extremo vicia rapidamente e é como um convite
Pesquisadora explica como o Discord funciona como funil de radicalização, atraindo pessoas de outras redes sociais.
Mark

Por que o Discord se tornou tão atrativo para grupos extremistas quando existem tantas outras plataformas?

Mimi

A estrutura fechada é fundamental. No TikTok ou Instagram, você quer que seu conteúdo seja visto, que viralizar. No Discord, você cria para um grupo específico que já pensa como você. Não há resistência de fora.

Mark

Mas o Discord tem moderadores, não tem?

Mimi

Teoricamente sim, mas são os próprios donos dos servidores. Se você cria um grupo para radicalizar pessoas, você não vai moderar contra si mesmo. É um sistema que funciona bem para comunidades legítimas, mas é uma falha estrutural para conter extremismo.

Mark

Como as pessoas chegam nesses grupos se não conseguem encontrá-los facilmente?

Mimi

Começa em outras redes. Alguém compartilha um vídeo extremista no TikTok ou X, ganha engajamento, e nos comentários oferece o link do Discord. É um funil. As plataformas se retroalimentam.

Mark

E uma vez dentro do servidor, o que acontece?

Mimi

Há um processo de cooptação. Você começa vendo conteúdo chocante, depois é convidado para participar de discussões, depois para transmissões ao vivo. O conteúdo vicia. E tudo acontece ao vivo, em tempo real, com centenas de pessoas assistindo e encorajando.

Mark

Por que as transmissões ao vivo são tão problemáticas?

Mimi

Porque desaparecem. Uma vez que a transmissão termina, não fica registro. Investigadores não conseguem recuperar evidência. E há algo psicológico também: quando você está em uma multidão virtual aplaudindo algo horrível, a responsabilidade individual desaparece.

Mark

O Discord pode ser salvo?

Mimi

Tecnicamente, sim. Mas exigiria mudanças estruturais profundas: moderação centralizada, armazenamento de transmissões, menos privacidade. Isso contradiz a filosofia da plataforma desde o início.

  • Denúncias envolvendo Discord aumentaram 172,5% no primeiro trimestre de 2025
  • Delegado relata transmissão ao vivo com 200 pessoas assistindo a morte de animal
  • Estrutura fechada do Discord permite moderação terceirizada apenas por donos de servidores
  • Operação contra grupo que planejava ataque a adolescentes e LGBTs no show de Lady Gaga

Delegado do Ciberlab relata transmissões ao vivo de atos cruéis no Discord, incluindo violência animal e planejamento de ataques contra minorias. Estrutura fechada do Discord, com comunidades privadas e moderação terceirizada, facilita radicalização sem interferência estatal comparada a outras redes.

Autoridades e pesquisadores alertam que o Discord, criado para gamers, tornou-se terreno fértil para crimes de extremismo, com denúncias aumentando 172,5% no primeiro trimestre de 2025.

O delegado Alesandro Barreto carrega consigo uma imagem que não sai de sua cabeça. Duzentas pessoas assistiam ao vivo no Discord enquanto um homem amarrava as patas e o focinho de um cachorro, e mensagens em tempo real pediam mais crueldade. No final, o animal foi morto a tiros. "O cachorro gritando e todo mundo assistindo e falando como se fosse um jogo, como se fosse para passar de fase", descreve Barreto, coordenador-geral do Ciberlab, órgão do Ministério da Justiça que combate crimes digitais. Essa cena resume um problema crescente: a plataforma Discord, criada em 2015 como espaço para jogadores compartilharem mensagens e transmissões, transformou-se em um dos principais terrenos para crimes extremistas no Brasil.

Os números revelam a dimensão da questão. No primeiro trimestre de 2025, a Safernet, organização dedicada à defesa dos direitos humanos na internet, registrou aumento de 172,5% nas denúncias envolvendo Discord em comparação com o mesmo período do ano anterior. Os crimes mais denunciados foram apologia e incitação a crimes contra a vida, homofobia e pornografia infantil. Recentemente, o Ciberlab ajudou a Polícia do Rio de Janeiro em operação contra um grupo que planejava no Discord um ataque contra adolescentes e pessoas LGBTs durante show da cantora Lady Gaga em Copacabana. Em abril, integrantes de comunidades no Discord foram investigados em quatro estados por ataques contra moradores de rua. Em novembro de 2024, um homem que se identificava como "Hitler da Bahia" foi preso acusado de estupro virtual, incentivo a automutilação, comercialização de imagens de pedofilia e violência psicológica.

Pesquisadores e autoridades identificam características específicas do Discord que o diferenciam de outras plataformas e o tornam particularmente vulnerável ao extremismo. Ao contrário do Instagram ou TikTok, onde o conteúdo visa viralizar e ganhar alcance, o Discord funciona através de servidores fechados, comunidades privadas onde o conteúdo é produzido para um grupo restrito. "Você tem ali uma comunidade mais fechada, que cria conteúdo para si mesma, e não uma comunidade em que as pessoas criam o conteúdo para se tornar famosa", explica João Victor Ferreira, pesquisador da Universidade de Brasília que estuda radicalização política no Discord há cinco anos. Em redes abertas, ideias extremistas encontram resistência de pessoas com pensamentos diferentes. No Discord, esse freio desaparece.

A moderação é outro fator crítico. Enquanto outras plataformas mantêm equipes próprias de moderadores, o Discord terceiriza essa responsabilidade para os donos dos servidores e moderadores voluntários. "É como se desse para a raposa cuidar do galinheiro. Se é alguém querendo fazer atrocidades, não podemos esperar que eles moderem nada", avalia Tatiana Azevedo, pesquisadora independente que monitora movimentos extremistas online desde 2023. Além disso, os servidores mais extremistas não são facilmente encontráveis. Para participar, é necessário receber um link de convite, frequentemente compartilhado em outras redes sociais. Alguns grupos exigem entrevista e período de teste antes de aprovar novos membros, criando estruturas quase estatais com líderes, moderadores e cidadãos de diferentes classes.

O processo de radicalização segue padrão específico. Membros de grupos extremistas compartilham conteúdo em plataformas abertas. Quando percebem interesse, convidam pessoas para o Discord. "Esse conteúdo extremo vicia rapidamente e é como se fosse um convite. Eles vão querendo cada vez mais, e aí passam a migrar de uma plataforma para outra", descreve Azevedo. Os ataques são frequentemente transmitidos ao vivo nas comunidades, parte do que membros chamam de "lulz", expressão que significa algo como "rindo alto" diante de atos cruéis. Barreto relata que, entre as denúncias que chegam ao Ciberlab, o Discord aparece com recorrência cada vez maior, principalmente em transmissões de cenas violentas. "Eu chego a me questionar o quão cruel uma pessoa pode ser. A realidade é muito pior que a ficção", diz o delegado.

A ideologia por trás da plataforma também contribui para o problema. O Discord nasceu em ambiente libertário e neoliberal, avesso a estruturas de moderação que seus criadores entendem como censura e cerceamento da liberdade de expressão. Tatiana Azevedo aponta que o Discord é hoje "a plataforma que mais preocupa". "Em todas as plataformas, a gente tem algum tipo de coisa horrenda. O problema no Discord é que ele vem produzindo a coisa horrenda ao vivo e, a partir dali, contamina outras redes."

Em resposta às críticas, o Discord afirmou à BBC News Brasil estar preocupado "com a forma equivocada como a plataforma tem sido retratada como insegura". A empresa diz colaborar com autoridades, inclusive na operação que impediu ataques no show de Lady Gaga, e mantém política de tolerância zero para atividades ilegais. Informou ainda que contratou equipe dedicada ao mercado brasileiro, incluindo especialistas em identificar e remover conteúdos nocivos. Na última quarta-feira (7 de maio), o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) entrou com pedido ao Ministério Público Federal para suspensão do Discord no Brasil. Pesquisadores questionam, porém, a efetividade das medidas atuais, especialmente considerando que transmissões ao vivo em grupos fechados desaparecem após encerramento, deixando pouco rastro para investigações.

O cachorro gritando e todo mundo assistindo e falando como se fosse um jogo, como se fosse para passar de fase
— Delegado Alesandro Barreto, coordenador-geral do Ciberlab
O problema no Discord é que ele vem produzindo a coisa horrenda ao vivo e, a partir dali, contamina outras redes
— Tatiana Azevedo, pesquisadora de movimentos extremistas online
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