Direita chilena propõe 'Museu da Verdade' para rivalizar com memorial de Pinochet

A ditadura de Pinochet (1973-1990) matou pelo menos 4.000 pessoas através de repressão política, torturas e desaparecimentos.
Eles querem deslocar os limites do que é aceitável discutir
Um analista explica que o projeto visa redefinir o debate público sobre a ditadura, independente de aprovação legislativa.
Mark

Por que uma proposta que dificilmente será aprovada gera tanta atenção?

Mimi

Porque não se trata realmente de legislação. É sobre redefinir o que é aceitável dizer em público sobre a ditadura.

Luke

Mas há votos reais para isso? Qual é a base de apoio?

Mimi

Kaltwasser diz que 30% da população ainda tem visão positiva de Pinochet. Esse é o eleitorado potencial.

Mark

Como um regime que matou 4 mil pessoas mantém apoio três décadas depois?

Mimi

Porque a transição democrática no Chile foi negociada, não imposta. Pinochet saiu do poder, mas nunca foi julgado. Nunca houve reckoning total.

Luke

Espera—ele foi preso em Londres em 1998. Isso não é um julgamento?

Mimi

Tecnicamente foi, mas ele voltou ao Chile e morreu sem ser condenado. A justiça ficou incompleta.

Mark

E esses 30% que apoiam Pinochet—eles acreditam que a ditadura foi boa, ou que o contexto a justificava?

Mimi

Provavelmente os dois. Schalper, um deputado de centro-direita, diz que o golpe teve contexto na violência política de Allende.

Luke

Mas Allende foi eleito democraticamente. Pinochet não foi. Essa é uma diferença fundamental que o projeto parece querer apagar.

Mimi

Exatamente. É por isso que Kaltwasser chama de disputa cultural de longo prazo.

  • O Partido Nacional Libertário, fundado pelo deputado Johannes Kaiser, apresentou projeto de lei para criar um museu que narre a 'crise' do governo Allende como justificativa implícita para o golpe de 1973.
  • A proposta mira diretamente o Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago, criado para documentar as torturas, mortes e desaparecimentos dos pelo menos 4 mil mortos pela ditadura de Pinochet.
  • Analistas alertam que a aprovação legislativa é improvável, mas esse pode não ser o objetivo real — o que está em jogo é deslocar os limites do que é considerado aceitável debater publicamente.
  • Cerca de 30% dos chilenos ainda têm visão positiva do regime Pinochet, uma base que lideranças como Kaiser e Kast mobilizam ao romper o silêncio que marcou décadas de transição democrática.
  • Críticos enxergam na proposta uma tentativa velada de reabilitar a justificativa para o golpe militar, enquanto apoiadores insistem que 'contar a história toda' não equivale a negar violações de direitos humanos.

No Chile, onde a memória da ditadura de Pinochet ainda divide a sociedade após mais de três décadas, parlamentares ultradireitistas propõem um 'Museu da Verdade' para contrapor a narrativa oficial sobre os crimes do regime. A iniciativa não busca apenas um espaço físico, mas trava uma batalha mais profunda sobre quais versões do passado merecem legitimidade pública. Em países onde a história foi escrita com sangue, a disputa pelos museus é, antes de tudo, uma disputa pelo futuro.

No Congresso chileno, o Partido Nacional Libertário — fundado pelo deputado ultradireitista Johannes Kaiser — apresentou projeto de lei para criar um 'Museu da Verdade'. A proposta prevê um espaço dedicado a narrar a crise econômica, o desabastecimento e a violência política do governo de Salvador Allende, que governou entre 1970 e 1973, antes de ser derrubado pelo golpe militar de Augusto Pinochet.

A iniciativa é uma resposta direta ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago, criado durante o governo de Michelle Bachelet para documentar os crimes da ditadura. Com apoio dos Estados Unidos, Pinochet governou de 1973 a 1990, período marcado por repressão política, torturas e desaparecimentos que resultaram na morte de pelo menos 4 mil pessoas. Preso em Londres em 1998, ele retornou ao Chile, enfrentou acusações, mas morreu em 2006 sem ser condenado.

Para entender a proposta, é preciso compreender a direita chilena. Segundo o cientista político Cristóbal Rovira Kaltwasser, da Universidade do Chile, essa direita tem raízes na própria ditadura e nunca digeriu completamente a moderação da transição democrática. José Antonio Kast é o símbolo dessa ala: opôs-se a pautas progressistas, fundou o Partido Republicano e, em 1989, fez campanha pela permanência de Pinochet no poder. A chegada de Kaiser deslocou ainda mais o espectro, tornando Kast relativamente mais palatável — embora suas posições não tenham mudado.

Deputados de centro-direita, como Diego Schalper, da Renovação Nacional, argumentam que 'sempre é preciso contar a história toda' e defendem que o contexto anterior ao golpe merece reflexão. Quando questionado se classificaria o regime de Pinochet como ditadura, Schalper responde que 'sem dúvida, mas esse não é o ponto'.

Kaltwasser avalia que o projeto dificilmente será aprovado, mas que esse talvez não seja o objetivo real. 'Trata-se de uma disputa cultural', afirma. 'Eles querem deslocar os limites do que é considerado aceitável discutir publicamente.' Mais de três décadas após o fim da ditadura, cerca de 30% dos chilenos ainda têm visão positiva do regime — um grupo que, com lideranças como Kaiser, voltou a se sentir confortável para se expressar.

No Congresso chileno, parlamentares do Partido Nacional Libertário apresentaram um projeto de lei para criar o que chamam de "Museu da Verdade". O partido, fundado pelo deputado ultradireitista Johannes Kaiser, busca com essa iniciativa oficializar uma narrativa alternativa sobre os anos que antecederam o golpe militar de 1973. Segundo a proposta, o museu exporia "a crise econômica, desabastecimento e violência política" do governo de Salvador Allende, que governou entre 1970 e 1973.

A iniciativa aponta diretamente para o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, localizado em Santiago. Esse espaço foi criado durante o governo da ex-presidente de esquerda Michelle Bachelet com o objetivo de documentar os crimes e violações cometidos pela ditadura de Augusto Pinochet, que durou de 1973 a 1990. Com apoio dos Estados Unidos, Pinochet derrubou Allende em 1973 e inaugurou um período de repressão política, torturas e desaparecimentos que resultou na morte de pelo menos 4 mil pessoas. Décadas depois, Pinochet foi preso em Londres em 1998, retornou ao Chile em 2000 onde enfrentou acusações, mas morreu em 2006 sem ser condenado.

Para entender essa disputa sobre a memória histórica, é preciso examinar as raízes da direita chilena. Segundo Cristóbal Rovira Kaltwasser, cientista político da Universidade do Chile, a direita do país é singular porque suas origens estão ligadas à ditadura de Pinochet. Durante a transição democrática, esses partidos se moderaram, mas sempre houve eleitores e lideranças que rejeitaram essa moderação. O presidente José Antonio Kast é o principal símbolo dessa ala que nunca aceitou o recuo. Como parlamentar, opôs-se a praticamente todas as pautas progressistas que avançaram no país: aborto, casamento para casais LGBTQIA+ e reformas constitucionais. Depois rompeu com a direita tradicional para fundar o Partido Republicano. Em 1989, Kast fez campanha pelo "Sim" para que Pinochet permanecesse no poder. Quando criou seu partido, a ideia central era abandonar o que chamava de "direitinha covarde" e retornar às raízes autoritárias.

A entrada de Kaiser no cenário político deslocou ainda mais o espectro para a direita, com um efeito colateral: tornou Kast relativamente mais palatável por comparação, embora suas posições programáticas não tenham mudado. A diferença entre os dois não está tanto nas ideias, mas na forma de apresentá-las e no grau de radicalismo. Kaiser adota um estilo de ruptura comparável ao do ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil e de Javier Milei na Argentina, em contraste com o tom mais contido de Kast. As bases de ambos compartilham críticas ao Museu da Memória, frequentemente acusado por esses setores de promover uma visão ideológica da história.

Diego Schalper, deputado do partido de centro-direita Renovação Nacional, argumenta que o Museu da Memória "trata de acontecimentos que, sem dúvida, ocorreram entre 1973 e 1990", mas defende que "sempre é preciso contar a história toda". Ele sugere que seria interessante refletir sobre o contexto de "violência política generalizada" que precedeu o golpe de 11 de setembro de 1973. Quando questionado se trataria o regime de Pinochet como ditadura, Schalper responde que "sem dúvida, mas esse não é o ponto". Ele afirma que não pode haver "reflexões definitivas ou unilaterais sobre a história" e que, com a mesma força com que condena as violações de direitos humanos entre 1973 e 1990, entende que o governo Allende não respeitou a Constituição.

Kaltwasser avalia que o projeto dificilmente reunirá os votos necessários para aprovação legislativa. Mais importante, ele sugere que esse não é realmente o objetivo. "Trata-se de uma disputa cultural. Eles querem deslocar os limites do que é considerado aceitável discutir publicamente. No curto prazo, talvez não conquistem nada de concreto, mas a disputa é de longo prazo." Independentemente das interpretações sobre o período anterior a 1973, o que não está em discussão, segundo o pesquisador, é que violações de direitos humanos não são justificáveis. Críticos veem propostas como o "Museu da Verdade" como tentativas indiretas de reabilitar a justificativa para o golpe militar—interpretação rejeitada pelos apoiadores do projeto.

Mais de três décadas após o fim da ditadura, o legado do regime militar permanece vivo na sociedade chilena. Quando a ditadura terminou, mais de 40% dos eleitores votaram pela permanência de Pinochet em um plebiscito. Pesquisas mostram que ainda hoje cerca de 30% da população tem uma visão positiva do regime. Esse grupo sempre existiu, mas ficou mais silencioso. Com o surgimento de novas lideranças como Kaiser, esse setor voltou a se sentir mais confortável para expressar suas opiniões publicamente.

Trata-se de uma disputa cultural. Eles querem deslocar os limites do que é considerado aceitável discutir publicamente. No curto prazo, talvez não conquistem nada de concreto, mas a disputa é de longo prazo.
— Cristóbal Rovira Kaltwasser, cientista político da Universidade do Chile
Independentemente das interpretações sobre o período anterior, o que não está em discussão é que violações de direitos humanos não são justificáveis.
— Cristóbal Rovira Kaltwasser
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