No domingo das eleições legislativas de 2026, três figuras que moldaram o Partido dos Trabalhadores ao longo de décadas — José Dirceu, Delúbio Soares e André Vargas — viram o eleitorado recusar seu retorno ao Congresso Nacional, mesmo após a anulação judicial de suas condenações. A memória coletiva dos escândalos do mensalão e da Lava Jato mostrou-se mais duradoura do que qualquer reabilitação jurídica, revelando que a confiança política, uma vez fraturada, segue seu próprio tempo de cura. O resultado convida a uma reflexão mais ampla: numa democracia, a absolvição pelos tribunais e a absolviç
Dirceu, Delúbio e Vargas fracassam em retorno à Câmara após escândalos
O antipetismo segue determinante na composição do Congresso
Por que essas três derrotas importam? Parecem ser apenas três nomes entre dezenas de candidatos.
Porque Dirceu, Delúbio e Vargas não são nomes qualquer. Dirceu foi ministro-chefe da Casa Civil de Lula, presidente do PT, um dos arquitetos da primeira vitória do partido. Delúbio era tesoureiro. Vargas era vice-presidente da Câmara. Eles representam o núcleo duro do petismo dos anos 2000.
Mas é importante notar que todos tiveram suas condenações anuladas ou revogadas pelos tribunais. Dirceu em 2024, Delúbio em 2023, Vargas em 2022 e 2023. Então tecnicamente não são mais "condenados".
Verdade. Mas o eleitor não vota em sentenças anuladas. Vota em histórico, em memória. Esses três passaram anos na prisão. Dirceu foi cassado em 2005. Delúbio foi expulso do partido. Isso marca.
E por que João Paulo Cunha conseguiu se eleger se também estava envolvido no mensalão?
Cunha tem uma vantagem: Lula gravou um vídeo pedindo voto para ele. Dirceu e Delúbio também tiveram apoio de Lula, mas aparentemente não foi suficiente. Cunha talvez tenha se posicionado melhor, ou a dinâmica em São Paulo foi diferente.
Ou talvez Cunha tenha tido menos exposição midiática recente. Dirceu enfrentou a Lava Jato sob Sergio Moro, que é agora governador eleito do Paraná. Há uma narrativa política ali que o eleitor não esqueceu.
Então o que o resultado diz sobre o PT em 2026?
Que o antipetismo continua vivo no Congresso, mesmo com Lula na presidência. O partido consegue vencer eleições presidenciais, mas no Congresso enfrenta rejeição. E figuras do passado, por mais que tenham apoio de Lula, não conseguem superar esse ceticismo.
Mas é um dado de uma eleição. Não sabemos se essas derrotas refletem desconfiança nessas pessoas específicas ou um padrão mais amplo. Precisaríamos ver como outros candidatos petistas com histórico similar se saíram.
Le Pouls
- Três ex-líderes petistas com histórico de prisões e condenações por corrupção apostaram no retorno ao Congresso, mas o peso de suas trajetórias provou ser maior do que o apoio do presidente Lula.
- A campanha de Delúbio Soares chegou a contar com vídeo gravado pelo próprio Lula pedindo voto 'a um companheiro vítima de perseguição', mas o apelo presidencial não foi suficiente para superar candidatos locais consolidados em Goiás.
- André Vargas, que ficou preso de 2015 a 2018 e teve suas condenações anuladas pelo STF, perdeu no Paraná justamente para Zeca Dirceu — filho de seu correligionário José Dirceu, também derrotado em São Paulo.
- A única exceção entre os históricos foi João Paulo Cunha, que conseguiu se eleger por São Paulo, sugerindo que a rejeição não é uniforme, mas depende de como cada trajetória foi reprocessada pelo eleitorado.
- O resultado aprofunda um paradoxo petista: Lula vence presidenciais, mas figuras centrais de sua geração política encontram portas fechadas no Legislativo, indicando que o antipetismo opera de forma seletiva e persistente no Congresso.
No domingo das eleições legislativas de 2026, três figuras que moldaram o Partido dos Trabalhadores ao longo de décadas — José Dirceu, Delúbio Soares e André Vargas — viram o eleitorado recusar seu retorno ao Congresso Nacional, mesmo após a anulação judicial de suas condenações. A memória coletiva dos escândalos do mensalão e da Lava Jato mostrou-se mais duradoura do que qualquer reabilitação jurídica, revelando que a confiança política, uma vez fraturada, segue seu próprio tempo de cura. O resultado convida a uma reflexão mais ampla: numa democracia, a absolvição pelos tribunais e a absolvição pelas urnas são processos distintos, governados por lógicas que nem sempre convergem.
No domingo passado, José Dirceu, Delúbio Soares e André Vargas — três nomes que definiram o PT por décadas — fracassaram em suas tentativas de retorno à Câmara dos Deputados. Mesmo com condenações anuladas pelos tribunais superiores, o eleitorado não abriu espaço para sua reabilitação política. A exceção foi João Paulo Cunha, também marcado pelo mensalão, que conseguiu se eleger por São Paulo com apoio direto de Lula.
Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil e um dos arquitetos da primeira vitória petista no Executivo, foi cassado em 2005, preso em 2013 e alvo da Lava Jato em 2015. O STF anulou suas condenações em 2024, mas em São Paulo ele perdeu espaço para petistas mais jovens. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, acumulou condenações, indultos e anulações ao longo de anos — e mesmo com Lula gravando vídeo em seu favor, não conseguiu superar candidatos locais em Goiás. Vargas, que ficou encarcerado de 2015 a 2018 e teve seus processos anulados pelo STF em 2022 e 2023, perdeu no Paraná para Zeca Dirceu, filho de seu próprio correligionário.
O resultado expõe uma tensão estrutural no PT: o eleitorado parece distinguir entre apoiar Lula na presidência e confiar em figuras históricas do partido marcadas por escândalos — mesmo quando a Justiça reviu suas condenações. O que permanece em aberto é se essa rejeição traduz desconfiança específica nessas lideranças ou um ceticismo mais amplo sobre a capacidade do partido de se renovar.
No domingo passado, três nomes que marcaram a história do Partido dos Trabalhadores viram suas tentativas de retorno ao Congresso Nacional fracassarem. José Dirceu, Delúbio Soares e André Vargas — todos envolvidos em escândalos que definiram duas décadas da política brasileira — não conseguiram contornar o peso de suas trajetórias e perderam espaço para novos representantes petistas nas urnas. A exceção foi João Paulo Cunha, que conseguiu se eleger por São Paulo, também ele marcado pelo mensalão mas que aparentemente conseguiu se reposicionar com o apoio direto de Lula.
Dirceu é talvez a figura mais emblemática entre os três. Foi ministro-chefe da Casa Civil no primeiro governo Lula, três vezes deputado federal e presidente nacional do PT — um dos arquitetos da primeira vitória do partido no Executivo nacional. Mas em 2005 foi cassado pelos seus pares na Câmara após o escândalo do mensalão, processo que o levou à prisão no final de 2013. O Supremo Tribunal Federal o condenou a sete anos e onze meses por corrupção ativa. Migrou para prisão domiciliar no final de 2014, mas em 2015 voltou a ser alvo de mandado de prisão na Operação Lava Jato, sob a condução do então juiz federal Sergio Moro, hoje governador eleito do Paraná. O STF anulou essas condenações em 2024. Mesmo assim, em São Paulo, Dirceu perdeu espaço para petistas mais jovens como Luna Zarattini e Thiago dos Reis.
Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, enfrentou trajetória igualmente conturbada. Expulso do partido em 2005 na esteira do mensalão, depois reintegrado, tornou-se alvo da Lava Jato. Foi condenado a seis anos e oito meses de prisão por corrupção ativa, cumpriu mais de dois anos e ganhou liberdade através de indulto de Natal assinado por Dilma Rousseff em março de 2016. Dois anos depois, foi condenado novamente a seis anos de prisão pela Lava Jato. A prisão foi revogada em novembro de 2019, quando o STF decidiu que a pena só poderia ser cumprida após esgotamento de todos os recursos — decisão que também permitiu a soltura de Lula naquele ano. Em 2023, o Superior Tribunal de Justiça anulou a sentença da Lava Jato por entender que a tramitação deveria ter ocorrido na Justiça Eleitoral. Durante a campanha, Delúbio se apresentou como "o candidato que é amigo do Lula" e o presidente gravou um vídeo pedindo voto "a um companheiro que foi vítima da maior perseguição já feita na história desse país". Mesmo com esse apoio, em Goiás não conseguiu bater a preferência pela Delegada Adriana Accorsi e por Rubens Otoni, ambos reeleitos.
André Vargas, ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados, teve seus dois processos anulados pelo STF em 2022 e 2023, também no âmbito da Lava Jato. Havia sido condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, crimes que nega ter cometido. Ficou encarcerado de 2015 a 2018. Em 2024, afirmou à Folha que "a Lava Jato nos submeteu a um processo de tortura visando arrancar mentiras sobre o Lula e o PT". No Paraná, perdeu para Zeca Dirceu, filho de José Dirceu.
João Paulo Cunha segue caminho distinto. Já havia sido deputado federal por cinco mandatos, de 1995 a 2014, e chegou a comandar a Câmara de 2003 a 2005, quando Lula estreava no Planalto. Também foi atingido pelo mensalão — condenado em 2012 a seis anos e quatro meses pelos crimes de corrupção passiva e peculato, foi preso em 2014. No início de 2016, ganhou alvará de soltura do STF através do indulto de Natal de Dilma. Desta vez conseguiu se eleger. Em rede social, afirmou: "Tem gente que achou que eu tinha parado. Eu segui trabalhando, ouvindo e me preparando para esse momento. Volto com mais experiência, mais disposição e com a mesma convicção de sempre: estar ao lado do povo e ajudar o presidente Lula a fazer o Brasil avançar cada vez mais".
O resultado consolida uma tese incômoda para o PT: embora Lula tenha sido eleito presidente em 2022, o antipetismo segue determinante na forma como os brasileiros decidem a composição do Congresso Nacional. As derrotas de Dirceu, Delúbio e Vargas sugerem que o eleitorado distingue entre apoiar Lula na presidência e confiar em figuras históricas do partido marcadas por prisões e condenações por corrupção — mesmo quando essas condenações foram posteriormente anuladas pelos tribunais. O que fica em aberto é se essa rejeição reflete desconfiança persistente nessas lideranças específicas ou um ceticismo mais amplo sobre a capacidade do PT de renovação.
Citations marquantes
Tem gente que achou que eu tinha parado. Eu segui trabalhando, ouvindo e me preparando para esse momento. Volto com mais experiência, mais disposição e com a mesma convicção de sempre: estar ao lado do povo e ajudar o presidente Lula a fazer o Brasil avançar cada vez mais— João Paulo Cunha, em rede social após sua eleição
A Lava Jato nos submeteu a um processo de tortura visando arrancar mentiras sobre o Lula e o PT— André Vargas, à Folha em 2024