DF cumpriu apenas 6 de 19 metas para acolher população de rua, aponta Tribunal de Contas

Aproximadamente 3 mil pessoas em situação de rua no DF enfrentam acesso limitado a serviços de acolhimento, moradia e assistência social, com políticas estruturais de proteção ainda não implementadas.
As ações estruturais avançam em ritmo inferior ao previsto
O Tribunal de Contas identifica que o governo responde melhor a demandas simples, mas falha nas políticas que exigem planejamento robusto.
Mark

Por que o governo conseguiu cumprir algumas metas e não outras? Parece haver um padrão.

Mimi

Exatamente. As metas cumpridas são aquelas que dependem de ato normativo ou manutenção de ações já em curso — um decreto, uma portaria, manter um restaurante aberto. As que não saíram do papel exigem planejamento robusto, orçamento dedicado e coordenação entre secretarias. Housing First, repúblicas LGBTQIA+, programa de acompanhamento pós-rua — tudo isso é estrutural.

Mark

E por que isso importa? Não é só uma questão de burocracia?

Mimi

Porque três mil pessoas estão nas ruas agora. Elas não precisam de decretos. Precisam de moradia, de acompanhamento, de um lugar seguro para dormir. As ações simples ajudam, mas não resolvem. Housing First, por exemplo, é uma metodologia que funciona internacionalmente. Aqui, foi planejada em 2024 e ainda não começou.

Mark

O Tribunal de Contas está apenas apontando o problema ou está forçando mudança?

Mimi

Está forçando. Determinou que o governo detalhe as ações em sessenta dias. É uma forma de dizer: vocês precisam prestar contas, e precisam fazer isso rápido. Mas o Tribunal não executa política. Só fiscaliza.

Mark

Então o que muda agora?

Mimi

Depende se o governo leva a determinação a sério. Se não, o Tribunal pode intensificar a fiscalização. Mas a verdade é que ninguém está obrigado a cumprir meta de política social se não quiser. O que falta é prioridade política e orçamento.

  • DF tem 3 pessoas em situação de rua a cada mil habitantes — maior proporção do país
  • Apenas 6 de 19 metas cumpridas pela Secretaria de Desenvolvimento Social
  • Housing First e repúblicas LGBTQIA+ não foram implementadas
  • Tribunal de Contas determinou apresentação de detalhamento em 60 dias

DF tem maior proporção de pessoas em situação de rua do país: 3 a cada mil habitantes, com políticas de acolhimento aquém do planejado. Metas cumpridas focam em ações de menor complexidade operacional, enquanto iniciativas estruturais como Housing First e repúblicas LGBTQIA+ não saíram do papel.

Tribunal de Contas do DF aponta que governo cumpriu apenas 6 das 19 metas traçadas em 2024 para ampliar atendimento a pessoas em situação de rua, indicando ineficácia nas políticas de redução da vulnerabilidade social.

O Tribunal de Contas do Distrito Federal entregou um diagnóstico desconfortável na semana passada: das 19 metas que o governo local traçou em 2024 para ampliar o acolhimento de pessoas em situação de rua, apenas seis foram cumpridas. O relatório, que analisou o progresso da Política Distrital para a População em Situação de Rua sob responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Social, revela um padrão preocupante: as ações mais simples saíram do papel, mas as iniciativas que exigem planejamento estruturado, orçamento robusto e coordenação entre secretarias continuam travadas.

O contexto torna o achado ainda mais grave. O Distrito Federal abriga a maior proporção de pessoas em situação de rua do país — três a cada mil habitantes. Isso significa aproximadamente três mil pessoas vivendo nas ruas da capital, enfrentando vulnerabilidade econômica e social sem acesso adequado a moradia, alimentação segura ou cuidados básicos de saúde. A política que deveria protegê-las é mais ampla que as 19 metas analisadas: reúne 44 objetivos no total, distribuídos entre a Secretaria de Desenvolvimento Social, Defesa Civil, secretarias de Saúde, Educação e Segurança Pública. Mas o foco do Tribunal recaiu sobre a pasta que deveria liderar o esforço.

As seis metas cumpridas revelam o que o governo conseguiu fazer quando a execução é direta e não demanda articulação complexa. Inaugurou o primeiro abrigo de pernoite em julho de 2025, oferecendo duzentas vagas noturnas. Mantém desde 2020 o acesso gratuito a refeições nos Restaurantes Comunitários. Executa anualmente desde 2022 a Ação Contra o Frio, uma operação integrada para prevenir adoecimento durante períodos de temperatura baixa. Publicou, em parceria com a Secretaria de Saúde e a Fiocruz, um guia intersetorial para integração entre saúde e proteção social. E regulamentou, através de decreto em maio de 2024 e portaria em fevereiro de 2025, uma cota de dois por cento das vagas de trabalho em serviços e obras públicas para pessoas em situação de rua. Essas ações existem. Funcionam, ainda que de forma limitada.

Mas as metas não cumpridas contam uma história diferente. O governo não implantou repúblicas de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ expulsas do núcleo familiar. Não criou repúblicas para egressos da situação de rua — pessoas que saíram das ruas e precisam de moradia transitória. O projeto-piloto Housing First, uma metodologia internacional que oferece moradia subsidiada como ponto de partida para reintegração social, não saiu do papel: a Secretaria abriu chamamento público em 2025, mas a parceria não foi formalizada, e o edital foi prorrogado em 2026. Não há restaurante comunitário móvel operando nas regiões com maior concentração de pessoas em situação de rua. O Programa Moradia Primeiro, que deveria oferecer habitação exclusiva para pessoas com histórico de problemas relacionados a consumo de drogas e transtorno mental, também não foi implementado. E não há resultados concretos divulgados de um programa socioassistencial voltado para acompanhamento após a saída da rua.

O Tribunal de Contas identificou o padrão: a Secretaria responde com maior efetividade às demandas de menor complexidade operacional. As ações estruturais, aquelas que exigem planejamento robusto, orçamento dedicado e articulação entre diferentes órgãos, avançam em ritmo inferior ao previsto no próprio plano. Quatro metas estão em andamento — como a ampliação de Centros Pop de duas para quatro unidades, que ainda não começou — e três foram classificadas como inconclusivas, sem informações públicas suficientes para determinar se foram ou não executadas.

No início desta semana, o Tribunal determinou que o governo apresente, em até sessenta dias, um detalhamento das ações de acolhimento desenvolvidas no último mês com pessoas em situação de rua nas regiões da Asa Norte e Noroeste. O pedido foi enviado à Secretaria de Desenvolvimento Social, à Secretaria DF Legal e à Companhia de Desenvolvimento Habitacional. A Secretaria de Desenvolvimento Social não respondeu aos contatos da reportagem até a publicação. O que fica claro é que o governo reconheceu as metas, planejou as ações, mas não conseguiu transformar planejamento em execução onde mais importa — nas políticas que exigem mudança estrutural, investimento sustentado e vontade política de longo prazo.

A Pasta tem respondido com maior efetividade às demandas de menor complexidade operacional, ao passo que as ações de caráter estrutural avançam em ritmo inferior ao previsto
— Tribunal de Contas do Distrito Federal
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