Despolitização enfraquece ativismo contra Aids no Brasil, aponta estudo da FGV

A ideia de que a Aids está resolvida é enganosa
Pesquisadora alerta que o discurso de "fim da Aids" mascara desigualdades estruturais que continuam alimentando a epidemia.
Mark

Por que exatamente a mudança no perfil das pessoas com HIV foi tão desestabilizadora para o movimento?

Mimi

Porque mudou o que era possível discutir. Quando o movimento era classe média, podia falar de direitos abstratos, de democracia, de justiça. Quando chegaram pessoas que não tinham o que comer, essas conversas pareceram luxo. O movimento não estava preparado para essa transição.

Mark

Mas as ONGs não deveriam ter se adaptado?

Mimi

Adaptaram-se, mas da forma errada. Se profissionalizaram para captar recursos, viraram prestadoras de serviço. Perderam a capacidade de questionar, de exigir mudanças estruturais. Viraram gestoras de um problema em vez de lutadoras contra ele.

Mark

E o discurso de "fim da Aids"? Isso não era bom?

Mimi

Parecia bom na superfície. Mas mascarou tudo. Reduziu a epidemia a uma questão de medicamento, como se a desigualdade não existisse. Permitiu que o Estado e os doadores internacionais saíssem de cena dizendo que o problema estava resolvido.

Mark

Então o que precisa acontecer agora?

Mimi

Reconstruir alianças políticas. Recuperar a ideia de que Aids é uma questão de justiça social, não apenas de biomedicina. Mas isso é difícil quando o movimento está fragmentado e disputando recursos escassos.

Mark

Você acha que é possível voltar?

Mimi

Possível é. Mas exige uma mudança de mentalidade. Exige que as ONGs recuperem seu caráter político e que o movimento todo entenda que a epidemia continua porque as desigualdades continuam.

  • O movimento que quebrou patentes e garantiu antirretrovirais gratuitos para milhões agora é descrito pelos próprios ativistas como fraco e incapaz de lutar como antes.
  • A epidemia migrou para populações mais vulneráveis, trazendo demandas imediatas de sobrevivência que reorientaram — e fragmentaram — a cultura política do movimento.
  • ONGs históricas foram pressionadas a se tornar prestadoras de serviços para captar recursos, perdendo a capacidade de mobilizar, questionar e exigir mudanças estruturais.
  • O discurso de 'fim da Aids' reduziu a doença a uma equação biomédica, mascarando as desigualdades de renda, raça e acesso que continuam impulsionando a transmissão do HIV.
  • Pesquisadora da FGV aponta que reconstruir alianças políticas e recuperar o caráter combativo do movimento é a única saída para enfrentar uma epidemia que nunca foi apenas médica.

O Brasil foi, por décadas, um símbolo mundial de como a sociedade civil e o Estado podem se unir para enfrentar uma epidemia com dignidade e justiça. Um estudo da Fundação Getulio Vargas revela, porém, que esse legado está em risco: o ativismo anti-Aids perdeu sua força política à medida que a epidemia mudou de rosto, as organizações se burocratizaram e o discurso biomédico do 'fim da Aids' obscureceu as desigualdades que continuam alimentando a doença. O que está em jogo não é apenas uma causa de saúde pública, mas a memória de que problemas coletivos exigem respostas coletivas e politicamente comprometidas.

O Brasil construiu uma resposta à Aids admirada no mundo inteiro. Desde 1987, quando se tornou o primeiro país em desenvolvimento a oferecer tratamento gratuito, o país se destacou por um ativismo combativo e intelectualizado, enraizado em democracia e justiça social. Figuras como Betinho e Herbert Daniel ajudaram a forjar um movimento que enxergava a epidemia como questão política, não apenas médica. Dessa aliança entre sociedade civil e Estado nasceram marcos históricos: acesso universal a antirretrovirais, produção nacional de testes e, em 2007, a ousada quebra da patente do efavirenz.

Um estudo da Fundação Getulio Vargas, conduzido pela pesquisadora Helena Achcar e publicado na revista Sociology of Health & Illness, mostra que esse protagonismo vem se esvaindo de forma sistemática. O problema não é falta de recursos, mas uma transformação mais profunda. A partir dos anos 1990, a epidemia avançou sobre populações mais vulneráveis, com menor escolaridade e renda. Novos agentes trouxeram demandas urgentes — alimentação, moradia, serviços básicos — que eram legítimas, mas diferentes das que haviam moldado a cultura política do movimento. Usando o conceito de habitus de Pierre Bourdieu, Achcar explica como essa mudança no perfil das pessoas afetadas alterou o próprio modo de pensar e agir coletivamente dentro do ativismo.

Na década de 2010, a medicalização das políticas de Aids aprofundou o esvaziamento. O discurso do 'fim da Aids' reduziu a doença a uma questão biomédica e mascarou as desigualdades estruturais que o movimento original buscava enfrentar. ONGs politizadas foram pressionadas a se profissionalizar para captar recursos, tornando-se prestadoras de serviços e perdendo seu capital militante. Quando o Brasil deixou de ser prioridade para doadores internacionais, cortes internos reduziram ainda mais o espaço de participação social.

O resultado é um campo fragmentado, marcado por tensões entre organizações históricas e novas redes identitárias que disputam legitimidade e recursos escassos. Achcar é direta: a ideia de que a Aids está resolvida é enganosa. A epidemia continua, alimentada pelas mesmas desigualdades que o movimento original queria combater. Reconstruir alianças e recuperar o caráter político do ativismo, segundo a pesquisadora, é condição essencial para que o Brasil não perca aquilo que o tornou referência global — a compreensão de que a Aids nunca foi apenas um problema médico.

O Brasil construiu uma resposta à Aids que o mundo inteiro admirava. Desde 1987, quando se tornou o primeiro país em desenvolvimento a oferecer tratamento gratuito, o país se destacou não apenas por políticas de saúde inovadoras, mas por um ativismo social que era combativo, intelectualizado e profundamente enraizado em questões de democracia e justiça social. Nomes como Betinho e Herbert Daniel moldaram um movimento que não via a epidemia como um simples problema médico, mas como uma questão política. Essa aliança entre sociedade civil, sanitaristas e Estado produziu marcos históricos: o acesso universal aos antirretrovirais, a produção nacional de testes diagnósticos, e até mesmo a quebra da patente do medicamento efavirenz em 2007, uma decisão ousada que priorizava vidas sobre lucros.

Mas décadas de sucesso não garantem continuidade. Um novo estudo da Fundação Getulio Vargas, conduzido pela pesquisadora Helena Achcar e publicado na revista Sociology of Health & Illness, revela que esse protagonismo vem perdendo força de forma sistemática. O campo do ativismo, que antes era guiado por um certo consenso político, se fragmentou. A razão não é simples falta de dinheiro, como se poderia imaginar. O problema é mais profundo: o perfil das pessoas vivendo com HIV mudou radicalmente. Enquanto nos anos 1980 e 1990 o movimento era ancorado na classe média, a partir dos anos 1990 a epidemia avançou sobre populações mais vulneráveis, com menor escolaridade e renda. Novos agentes entraram no movimento com demandas urgentes e imediatas: alimentação, moradia, acesso a serviços básicos. Essas prioridades não eram erradas, mas eram diferentes, e essa mudança alterou a cultura política que havia sido construída nas décadas anteriores.

Achcar utiliza o pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu para explicar o que aconteceu. Bourdieu fala de um conceito chamado habitus — uma espécie de estrutura mental que desenvolvemos ao longo da vida, que molda nossas ações e a forma como enxergamos o mundo. Esse habitus não é individual, mas compartilhado por grupos sociais. Quando a epidemia de Aids começou a atingir pessoas com habitus de classes mais desfavorecidas, o debate político dentro do movimento também mudou. Questões básicas de sobrevivência se tornaram centrais. Não era mais possível falar apenas de direitos humanos abstratos quando as pessoas precisavam comer.

A partir da década de 2010, algo adicional aconteceu: a medicalização das políticas de Aids ganhou força. O discurso de "fim da Aids" reduziu a doença a uma questão puramente biomédica e mascarou as desigualdades estruturais que muitas políticas e o movimento buscavam enfrentar. A resposta ao HIV foi progressivamente absorvida por uma lógica neoliberal que privilegia soluções rápidas, gestão técnica e resultados mensuráveis. ONGs que historicamente eram politizadas foram pressionadas a se profissionalizar para captar recursos, tornando-se prestadoras de serviços e perdendo parte de seu capital militante — aquela capacidade de mobilizar, questionar, exigir mudanças estruturais. Quando o Brasil deixou de ser prioridade para doadores internacionais no final dos anos 2000, cortes internos reduziram ainda mais o espaço de participação social.

O resultado é um movimento que ativistas descrevem como fraco e incapaz de lutar como antes. Tensões entre ONGs históricas e novas redes identitárias aprofundaram a fragmentação. A antiga identidade universalista que mobilizava o ativismo como um todo deu lugar a disputas por legitimidade e por recursos escassos. Achcar é clara sobre um ponto crucial: a ideia de que a Aids está resolvida é enganosa. A epidemia continua, alimentada pelas mesmas desigualdades estruturais que o movimento original buscava enfrentar. O futuro da resposta brasileira ao HIV, segundo a pesquisadora, depende da capacidade de reconstruir alianças, recuperar o caráter político do movimento e enfrentar de frente as desigualdades que continuam alimentando a doença. Sem isso, o Brasil corre o risco de perder aquilo que o tornou referência global: a compreensão de que a Aids não é apenas um problema médico, mas um problema político.

O declínio do movimento não pode ser explicado apenas por falta de financiamento, mas, sobretudo, por causa da mudança no perfil dos ativistas e das prioridades impostas pela pauperização da epidemia
— Helena Achcar, pesquisadora da FGV
O futuro da resposta brasileira ao HIV depende da capacidade de reconstruir alianças, recuperar o caráter político do movimento e enfrentar desigualdades que continuam alimentando a epidemia
— Helena Achcar
Contáctanos FAQ