Desconfio, uso e ainda uso de olhos vendados
Há uma contradição silenciosa que atravessa o cotidiano digital de milhões de pessoas: sabem que a inteligência artificial pode falhar, desconfiam de suas respostas — e a utilizam mesmo assim, muitas vezes sem verificar nada. Jornalistas como José Roberto de Toledo e Thais Bilenky nomeiam esse paradoxo com clareza, alertando que a praticidade está vencendo a precisão em escala global. O risco não é apenas individual; é civilizatório — especialmente quando eleições, jornalismo e a própria noção de verdade compartilhada estão em jogo.
- Uma pesquisa global expõe um paradoxo perturbador: a maioria das pessoas desconfia da IA, mas a usa assim mesmo — e um terço nem verifica o que ela responde.
- A geração abaixo dos 35 anos lidera a adoção da tecnologia, mas é também a mais ansiosa com a possibilidade de ser substituída por ela — um ciclo de dependência e medo que não se resolve.
- A IA não é determinística: a mesma pergunta pode gerar respostas diferentes para pessoas diferentes, criando versões paralelas da realidade sem que ninguém perceba.
- Especialistas alertam que o uso acrítico tende a crescer porque o benefício é imediato e concreto, enquanto o risco — desinformação, fragmentação, erosão da verdade — é abstrato e futuro.
- O jornalismo e os processos eleitorais aparecem no topo das preocupações: são os campos onde a imprecisão deixa de ser inconveniência e passa a ser ameaça democrática.
Há um paradoxo que define a relação atual da humanidade com a inteligência artificial: a maioria das pessoas diz não confiar totalmente nela — e a usa mesmo assim. O jornalista José Roberto de Toledo resume o fenômeno com precisão incômoda: a praticidade vence a precisão. Se a ferramenta economiza tempo e reduz esforço, as pessoas estão dispostas a aceitar imprecisões, vieses e falhas sem questionar.
A jornalista Thais Bilenky observa um padrão geracional revelador: os menores de 35 anos lideram a adoção da IA, mas são também os mais ansiosos com a possibilidade de serem substituídos por máquinas. Desconfiam, ficam nervosos, expressam preocupação — e continuam usando, muitas vezes sem verificar nada. O comportamento é quase compulsivo.
Os riscos dessa adoção sem verificação são especialmente graves em áreas sensíveis. A IA não é determinística — a mesma pergunta pode gerar respostas diferentes para pessoas diferentes, criando o que Bilenky chama de 'realidades paralelas': versões distintas da verdade circulando simultaneamente. Em eleições e no jornalismo, isso deixa de ser inconveniência e passa a ser ameaça.
Para Toledo, o cenário tende a piorar. O uso acrítico deve crescer porque a percepção de benefício é imediata e concreta, enquanto os riscos são abstratos e futuros. A desinformação, a fragmentação da informação compartilhada e a dificuldade crescente de distinguir o verdadeiro do falso virão depois — e estamos, já agora, vivendo esse experimento social com os olhos fechados.
Há um paradoxo que define o momento em que vivemos com a inteligência artificial. A maioria das pessoas diz não confiar totalmente nela — e depois a usa mesmo assim. José Roberto de Toledo, jornalista e comentarista, resume o fenômeno com precisão: "A maioria diz não confio totalmente, mas uso." E o mais perturbador é que essa contradição não é exceção. É a regra.
Uma pesquisa global revelou que cerca de um terço dos entrevistados nem sequer verifica as informações que a IA fornece. Para Toledo, a explicação é simples e desconfortável: a praticidade vence a precisão. Se a ferramenta economiza tempo, reduz esforço, permite fazer mais com menos energia, as pessoas estão dispostas a aceitar imprecisões, vieses e falhas. "Se o negócio de fato me ajuda a poupar tempo, trabalhar menos, gastar menos energia, fazer o que eu tenho que fazer antes, eu estou disposto a comprometer se tiver viés, se não for preciso", explica.
Thais Bilenky, também jornalista do podcast A Hora, observa um padrão geracional interessante e contraditório. Pessoas com menos de 35 anos lideram a adoção de IA, mas são também as mais ansiosas quanto à possibilidade de serem substituídas por máquinas. Elas desconfiam, ficam nervosas, expressam preocupação — e continuam usando. "É um público que desconfia, que fica nervoso, mas mesmo assim usa", descreve Bilenky. O comportamento é quase compulsivo: não confio, uso e ainda uso de olhos vendados.
Os riscos dessa adoção sem verificação são imensos, especialmente em áreas sensíveis. Eleições, política, informação pública — campos onde a precisão não é luxo, mas necessidade democrática. Bilenky alerta para a possibilidade de construir "realidades paralelas", versões diferentes da verdade que circulam simultaneamente. Toledo reforça o ponto: "Nada garante que vai ser a mesma resposta que ele deu para mim, ele vai dar para você." A IA não é determinística. Ela é volátil. Cada consulta pode gerar uma resposta ligeiramente diferente, criando fragmentação na informação compartilhada.
Para Toledo, o cenário tende a piorar. O uso acrítico de IA deve crescer porque as pessoas percebem benefícios reais — economia de tempo, redução de trabalho — e essa percepção de vantagem as motiva a ignorar os riscos. "Como você tem benefícios, pelo menos tem a percepção de benefício, eu acho que essa atitude, que é a atitude média global de desconfiar e usar, e dane-se, não vou nem checar, vai ser a preponderante", prevê. E essa atitude, segundo ele, trará grandes mudanças, provavelmente negativas em alguns campos. O jornalismo está no topo da lista de preocupações.
O que torna tudo isso particularmente urgente é que não há freio visível. As pessoas conhecem os riscos — as pesquisas mostram que desconfiam — mas continuam usando porque o benefício imediato é tangível e o risco é abstrato. A IA economiza tempo hoje. Os problemas virão depois, em forma de desinformação, realidades fragmentadas, e uma população menos capaz de distinguir o verdadeiro do falso. Estamos vivendo um experimento social em tempo real, e a maioria dos participantes está usando a ferramenta com os olhos fechados.
Notable Quotes
Se o negócio de fato me ajuda a poupar tempo, trabalhar menos, gastar menos energia, fazer o que eu tenho que fazer antes, eu estou disposto a comprometer se tiver viés, se não for preciso— José Roberto de Toledo
Como você tem benefícios, pelo menos tem a percepção de benefício, eu acho que essa atitude, que é a atitude média global de desconfiar e usar, e dane-se, não vou nem checar, vai ser a preponderante. E eu acho que isso vai trazer grandes mudanças, provavelmente para pior em alguns campos, principalmente no jornalismo— José Roberto de Toledo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que as pessoas continuam usando IA se desconfiam dela?
Porque o benefício imediato é concreto. Economiza tempo, reduz trabalho. O risco é invisível, acontece depois, em forma de desinformação que você talvez nunca saiba que recebeu.
Mas um terço das pessoas nem verifica as informações. Isso não é negligência extrema?
É, mas é uma negligência racional do ponto de vista individual. Se você precisa fazer dez tarefas e a IA faz nove delas em metade do tempo, você não vai parar para verificar cada uma. O custo de verificação é maior que o benefício percebido.
E os jovens menores de 35 anos? Eles parecem mais ansiosos com a tecnologia.
Eles têm razão em estar ansiosos. São eles que podem ser substituídos. Mas a ansiedade não os impede de usar. É como saber que algo é perigoso e fazer mesmo assim porque todos fazem.
Você mencionou "realidades paralelas". Como isso funciona na prática?
Imagine eleições. Você pergunta à IA sobre um candidato e recebe uma resposta. Seu vizinho pergunta a mesma coisa e recebe uma resposta ligeiramente diferente. Multiplicado por milhões de pessoas, você tem versões diferentes da realidade circulando simultaneamente.
Isso é reversível? Podemos voltar atrás?
Não enquanto o benefício for percebido como maior que o risco. As pessoas precisam sentir o dano para mudar de comportamento. Mas o dano é lento, difuso, difícil de atribuir à IA. Pode ser tarde demais quando perceberem.