Num mundo onde o clima se reconfigura silenciosamente, três doenças transmitidas por mosquitos — dengue, Zika e chikungunya — avançam para territórios que antes lhes eram hostis. A OMS reuniu especialistas esta semana para reconhecer o que os dados confirmam há anos: a expansão do mosquito Aedes não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente que já alcança a Europa e ameaça populações sem imunidade prévia. O crescimento de 505 mil para 5,2 milhões de casos de dengue em duas décadas não é apenas uma estatística — é o retrato de uma fronteira que se move, e que a humanidade ainda não aprend
Dengue, Zika e Chikungunya: o que saber sobre as doenças transmitidas por mosquitos
Mosquitos que prosperam em climas quentes colonizam novos territórios cada vez mais depressa
Porque é que a OMS decidiu fazer esta sessão agora? Há algo que mudou recentemente?
Os números falam por si. A dengue aumentou de meio milhão de casos em 2000 para 5 milhões em 2019. Este ano já temos quase meio milhão de casos só até março. É uma trajetória que não pode ser ignorada.
Mas é importante notar que muitos desses casos não são notificados. A OMS trabalha com números oficiais, mas as estimativas reais de infecção são muito mais altas. Em 2016, por exemplo, foram notificados 600 mil casos de Zika, mas estimam-se milhões de infecções.
E o papel das alterações climáticas? É realmente tão determinante?
Sim. Estes mosquitos precisam de temperaturas específicas para sobreviver e reproduzir-se. À medida que o planeta aquece, as zonas onde conseguem estabelecer-se expandem-se rapidamente. A Europa já tem o vetor em 24 países.
Embora seja justo dizer que a urbanização, o comércio internacional e a mobilidade humana também têm um papel importante. Não é apenas o clima.
Existe alguma solução à vista?
Para a dengue, há uma vacina, mas apenas recomendada para quem já foi infetado. Para chikungunya e Zika, não há vacinas. Estamos dependentes de controlo de mosquitos e prevenção de picadas.
E isso é um problema porque o controlo de mosquitos é caro, exige coordenação entre países, e muitas regiões afetadas não têm recursos suficientes. É um desafio de saúde pública que vai além da medicina.
Qual é o grupo mais vulnerável?
Idosos com condições preexistentes correm grande risco, especialmente com chikungunya. Mas o que é particularmente perturbador é o impacto em recém-nascidos — 20% das mortes por chikungunya ocorrem em bebés infetados durante o parto.
E isso é um dado recente neste surto. Não era esperado. Sugere que o vírus pode estar a mutar ou que estamos a ver manifestações que não tínhamos visto antes.
Il Polso
- Os mosquitos Aedes estão a colonizar novos territórios a um ritmo que supera as previsões, impulsionados pelas alterações climáticas que tornam regiões antes inabitáveis para eles em zonas de risco crescente.
- A América do Sul vive surtos simultâneos de dengue, chikungunya e Zika, com Bolívia, Paraguai, Argentina e Brasil no centro da crise — e os números de 2023 já apontam para uma escalada em relação ao ano anterior.
- O chikungunya revela um padrão perturbador: mortalidade neonatal associada à transmissão durante o parto e casos de meningoencefalite aguda, numa doença para a qual não existe vacina nem tratamento específico.
- O Zika, oito anos após a sua emergência global, mantém os especialistas em alerta — o tempo decorrido é precisamente o suficiente para que o mundo baixe a guarda e crie condições para uma nova epidemia.
- A única defesa real disponível para as três doenças continua a ser evitar picadas de mosquitos, uma estratégia cada vez mais difícil à medida que estes insetos se instalam em novos países, incluindo mais de 24 na Europa.
Num mundo onde o clima se reconfigura silenciosamente, três doenças transmitidas por mosquitos — dengue, Zika e chikungunya — avançam para territórios que antes lhes eram hostis. A OMS reuniu especialistas esta semana para reconhecer o que os dados confirmam há anos: a expansão do mosquito Aedes não é uma ameaça futura, mas uma realidade presente que já alcança a Europa e ameaça populações sem imunidade prévia. O crescimento de 505 mil para 5,2 milhões de casos de dengue em duas décadas não é apenas uma estatística — é o retrato de uma fronteira que se move, e que a humanidade ainda não aprendeu a defender.
A Organização Mundial de Saúde reuniu especialistas esta semana para discutir a propagação acelerada de dengue, Zika e chikungunya — três doenças transmitidas pelo mosquito Aedes cujo avanço está a ser amplificado pelas alterações climáticas. O diagnóstico foi claro: estes insetos estão a colonizar territórios onde antes não sobreviviam, e o ritmo é mais rápido do que se esperava.
A dengue é a mais prevalente das três. Os casos notificados à OMS saltaram de 505.430 em 2000 para 5,2 milhões em 2019. Só em 2022, as Américas registaram 2,8 milhões de casos e 1280 mortes. A maioria dos infetados não apresenta sintomas, mas os casos graves exigem hospitalização e podem ser fatais. A América do Sul concentra os surtos mais ativos, e na Europa o mosquito já se estabeleceu em mais de 24 países, transmitindo dengue e chikungunya regularmente desde 2010.
O chikungunya, presente em 115 países, preocupa pela sua crueldade silenciosa: não mata tanto, mas deixa sequelas crónicas debilitantes. O surto atual no Cone Sul revela padrões incomuns — casos de meningoencefalite e mortalidade neonatal, com cerca de 20% das mortes a ocorrer em recém-nascidos infetados durante o parto. Não existe vacina nem tratamento específico.
O Zika, que em 2016 foi declarado emergência de saúde pública internacional após associação a microcefalia e síndrome de Guillain-Barré, circula hoje em 89 países. Os números desceram desde o pico, mas os especialistas alertam: oito anos de relativa acalmia são tempo suficiente para o mundo baixar a guarda.
O denominador comum das três doenças é o mesmo vetor e o mesmo motor de expansão: o calor. Sem vacinas para o chikungunya e o Zika, e com a única vacina disponível para a dengue restrita a quem já foi infetado, a prevenção depende quase exclusivamente de evitar picadas — uma estratégia cada vez mais frágil num mundo que aquece.
A Organização Mundial de Saúde reuniu-se esta semana para discutir um problema que deixa de ser regional e se torna cada vez mais global: a propagação acelerada de três doenças transmitidas por mosquitos do género Aedes — dengue, Zika e chikungunya. Os especialistas presentes confirmaram o que os dados já vinham sugerindo há anos: as alterações climáticas estão a criar as condições perfeitas para que estes insetos se estabeleçam em territórios onde antes não conseguiam sobreviver, e o ritmo dessa disseminação é muito mais rápido do que se antecipava.
A dengue é, de longe, a mais prevalente das três. Trata-se da infecção viral mais comum transmitida por mosquitos, particularmente em climas tropicais e subtropicais, embora essa geografia esteja a mudar. Existem quatro serótipos distintos, o que complica tanto o tratamento como a prevenção. A maioria das pessoas infetadas não apresenta qualquer sintoma, mas quem adoece sofre febre alta, dores de cabeça intensas, dores no corpo, náuseas e erupções cutâneas. A recuperação é geralmente rápida — uma a duas semanas — mas alguns casos evoluem para dengue grave, exigindo internamento hospitalar, e em situações extremas pode ser fatal. Os números revelam a dimensão do problema: em 2000, foram notificados 505.430 casos à OMS; em 2019, esse número tinha saltado para 5,2 milhões. Apenas em 2022, a região das Américas registou 2,8 milhões de casos e 1280 mortes. Este ano, até finais de março, já se contabilizavam 441.898 casos e 119 mortes. A tendência é particularmente preocupante na América do Sul, onde Bolívia, Paraguai e Peru enfrentam surtos significativos. Mesmo na Europa, onde o clima é menos favorável, o mosquito já se estabeleceu em mais de 24 países e tem transmitido dengue e chikungunya regularmente desde 2010.
O chikungunya apresenta um perfil diferente, mas igualmente alarmante. Transmitido também pelos mosquitos Aedes, já foi identificado em 115 países. O que torna esta doença particularmente grave é o seu impacto crónico: não mata tanto quanto a dengue, mas deixa sequelas duradouras que degradam significativamente a qualidade de vida dos doentes. Os recém-nascidos e os idosos correm maior risco de desenvolver formas mais severas. Atualmente, há surtos ativos no Paraguai, Argentina e Bolívia, com circulação elevada no Brasil e noutros países da região. O que preocupa os epidemiologistas é um padrão inusitado neste surto: casos de meningoencefalite aguda e mortalidade neonatal associada à doença. Quase 70% das mortes ocorrem em pessoas com mais de 60 anos, frequentemente com condições preexistentes como diabetes, hipertensão ou imunossupressão. Cerca de 20% das mortes registadas são em recém-nascidos infetados durante o parto. Não existe vacina nem medicamento específico para o chikungunya, o que deixa a prevenção dependente apenas da evitação de picadas de mosquitos.
O Zika, a terceira doença em foco, tem uma história mais recente mas igualmente perturbadora. Também transmitido pelos Aedes, pode ser contraído não apenas por picada de mosquito, mas também sexualmente entre pessoas e de mãe para filho durante a gravidez. Em 2016, foi declarado Emergência de Saúde Pública de Preocupação Internacional após a identificação de recém-nascidos com microcefalia, nascimentos prematuros, abortos e complicações neurológicas graves como a síndrome de Guillain-Barré em adultos. Nesse ano, foram notificados mais de 600 mil casos, embora as estimativas sugiram que milhões de pessoas foram infetadas. Desde então, os números desceram: 50 mil casos em 2017, 30 mil em 2018, e essa cifra de 30 mil tornou-se a média anual. Este ano, até agora, foram notificados 3000 casos na região das Américas, maioritariamente no Brasil, Bolívia, Guatemala, Belize e Colômbia. O vírus já circulou em 89 países e territórios. O que mantém os especialistas vigilantes é o facto de a emergência do Zika ter ocorrido há oito anos — tempo suficiente para que o mundo baixe a guarda, criando as condições para uma nova epidemia.
O fio condutor que une estas três doenças é o mesmo: os mosquitos Aedes prosperam em climas quentes e húmidos, e as alterações climáticas estão a expandir rapidamente as zonas onde essas condições existem. Não se trata de um problema exclusivo do hemisfério Sul ou das regiões tropicais. A Europa já tem o vetor estabelecido. A Ásia apresenta tendências preocupantes. O que os dados mostram é que, sem intervenção significativa, estas doenças continuarão a disseminar-se para norte, para oeste, para regiões onde as populações nunca desenvolveram imunidade e os sistemas de saúde podem não estar preparados. A dengue tem uma vacina — a Dengvaxia — licenciada em alguns países, mas a OMS recomenda-a apenas para pessoas que já foram infetadas. Para o chikungunya e o Zika, não há vacinas disponíveis. O tratamento é sintomático: medicamentos para a dor, repouso, hidratação. A única defesa real continua a ser evitar as picadas de mosquitos, uma estratégia que se torna cada vez mais difícil à medida que estes insetos colonizam novos territórios.
Citazioni salienti
No contexto das alterações climáticas, estes mosquitos podem disseminar-se e estabelecer-se em todo o mundo, de forma muito rápida— Organização Mundial de Saúde
Quase 70% das mortes notificadas por chikungunya ocorrem em populações com mais de 60 anos de idade, na sua maioria com condições preexistentes— Dados da OMS sobre o surto de chikungunya