Democracia normaliza corrupção enquanto instituições se blindam

Os juízes supremos colocam o corporativismo acima da instituição
Reflexão sobre como o Supremo Tribunal Federal protege seus próprios membros em detrimento da credibilidade institucional.
Mark

Por que um escândalo de financiamento ilícito afeta tão pouco as pesquisas de um candidato aqui, quando em outras democracias isso seria fatal?

Mimi

Porque a normalização da corrupção já ocorreu. Os eleitores não estão ignorando o escândalo — estão vendo seus líderes fazerem o mesmo e decidindo que isso é apenas o jogo político.

Mark

Mas o presidente não deveria estar preocupado com a credibilidade das instituições?

Mimi

Deveria, mas está mais preocupado em proteger seus aliados. Quando Lula responde com cinismo a uma pergunta sobre repasses de uma lobista, está sinalizando que isso é aceitável.

Mark

E quanto aos juízes? Eles não têm responsabilidade nessa crise?

Mimi

Têm, e talvez seja a maior. O Supremo está blindado por seus próprios esqueletos. Quando os ministros protegem uns aos outros, perdem o direito moral de investigar qualquer um.

Mark

Então as eleições acontecem sem que os eleitores saibam o que está sendo investigado?

Mimi

Exatamente. O sigilo judicial oculta tudo até as urnas. É como pedir ao eleitor que vote no escuro.

Mark

Isso não deveria ser inconstitucional?

Mimi

Deveria, mas quem vai questionar? Os mesmos juízes que se beneficiam do sigilo.

  • Caso de suposto financiamento do 'Dark Horse' por Vorcaro pouco afetou posição de Flávio nas pesquisas
  • PF investiga repasses milionários e operação de 'bancada de Vorcaro' no Congresso sob sigilo judicial
  • Inquéritos permanecem ocultos até as eleições de 2026
  • Toffoli assumiu relatoria do caso Vorcaro apesar de negócios imobiliários suspeitos

Episódio de suposto financiamento do 'Dark Horse' por Vorcaro pouco desgastou posição de Flávio nas pesquisas, diferente do que ocorreria em democracia consolidada. PF investiga repasses milionários e operação de 'bancada de Vorcaro' no Congresso, mas inquéritos permanecem sob sigilo judicial até as eleições.

Colunista questiona se eleitores normalizaram a corrupção ao observar que escândalos de financiamento ilícito pouco afetam candidaturas presidenciais, enquanto investigações sofrem atrasos e sigilo judicial.

Lula recentemente afirmou que a direita utiliza a corrupção como arma contra a democracia. É uma observação antiga e, em geral, precisa. Mas comporta exceções incômodas. A campanha de Bolsonaro teme o que virá do caso do suposto financiamento do "Dark Horse" por Vorcaro e, por isso, concentra seus ataques em Lulinha — uma estratégia de compensação diante de seus próprios esqueletos. Numa democracia consolidada, um escândalo desses teria enterrado uma candidatura presidencial. Aqui, porém, a posição de Flávio nas pesquisas mal se abalou. A pergunta que fica é incômoda: os eleitores dele normalizaram a corrupção?

O presidente ofereceu uma resposta que merecia ser outra. Quando soube dos repasses de Roberta Luchsinger a Marcola, Lula respondeu com cinismo: "Quem nunca pediu um empréstimo a um amigo?". A questão correta seria diferente: por que o chefe de gabinete presidencial pede dinheiro a uma lobista envolvida com o INSS e o Ministério da Saúde? Ou, dito de outro modo, qual lobista recusaria favores financeiros a um funcionário que trabalha na sala ao lado da do presidente? O que o presidente parecia sugerir era a legitimação da corrupção em nome da defesa da democracia — uma inversão que deveria alarmar qualquer um.

A Polícia Federal sabe investigar, às vezes até com rapidez. Nem sempre. O inquérito sobre os repasses milionários de Vorcaro a Flávio, alegadamente para um filme hagiográfico, ainda não produziu resultados públicos. André Mendonça, o relator, permitirá que o sigilo judicial mantenha o tema oculto até as eleições? A falta de informação serve à democracia? Não é apenas Flávio. A PF também investiga o senador Ciro Nogueira, que declarou apoio ao candidato, pela suspeita de operar como chefe da "bancada de Vorcaro" no Congresso. Ele concorre à reeleição. Seus colegas senadores sequer abriram processo num Conselho de Ética que permanece paralisado. O inquérito judicial, sob o mesmo relator, chegará ao público antes da abertura das urnas? Os eleitores do Piauí ficarão privados de conhecer as credenciais de seu senador?

Há uma década, a corrupção provocava constrangimento entre os militantes políticos. Não mais. Seguindo a linha dos coordenadores da "guerrilha digital", ativistas rebatem as denúncias apontando corrupção maior ou mais prejudicial no "lado oposto". Acusam a imprensa de perseguição aos seus líderes. Minimizam as acusações em nome dos "valores da família" ou da defesa da "democracia ameaçada". Não percebem que, assim, aprofundam a rejeição popular aos dois rivais.

A hipocrisia provavelmente nasceu da desmoralização da Lava Jato, enterrada por um juiz-político e por procuradores organizados como partido. Mas há algo mais: um Supremo Tribunal Federal refém de seus próprios esqueletos. Num país onde se perdeu a confiança nos juízes, por que se constranger com a corrupção espalhada nas cúpulas políticas? Toffoli assumiu a relatoria do caso Vorcaro apesar de seus negócios imobiliários suspeitos, depois renunciou e se declarou impedido. Seus pares, porém, proclamaram sua insuspeição. Ao mesmo tempo, transformaram em investigado um dirigente de associação de auditores da Receita que ousou criticar medidas de Moraes. Não abriram inquérito sobre Toffoli ou Moraes, cuja esposa e sócia recebeu do Master, sob a forma de honorários advocatícios esquisitos, quantia superior à repassada ao "Dark Horse". Os juízes supremos colocam o corporativismo acima da instituição. Tudo em nome da democracia.

Numa democracia normal, o caso teria derrubado uma candidatura presidencial. Por aqui, pouco desgastou a posição de Flávio nas pesquisas.
— Colunista
Os juízes supremos colocam o corporativismo acima da instituição. Em nome da democracia?
— Colunista
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