Não abriremos mão do nosso direito ao enriquecimento
Delegação iraniana saiu do local de negociações horas após chegada, em resposta a ameaças publicadas por Trump nas redes sociais. Conversas envolviam mediação do Catar e Paquistão sobre Líbano, fundos congelados e programa nuclear iraniano.
- Delegação iraniana saiu do local de negociações horas após chegada, em resposta a ameaças de Trump publicadas no X
- Conversas envolviam mediação do Catar e Paquistão sobre Líbano, fundos congelados e programa nuclear
- Irã bloqueou o Estreito de Ormuz no sábado; ataques israelenses deixaram dezenas de mortos no Líbano
- Cessar-fogo no Líbano descrito como 'frágil' pelo chefe do Estado-Maior israelense
Representantes do Irã deixaram negociações na Suíça após Trump ameaçar novos ataques. As conversas discutiriam conflito no Líbano, ativos congelados e venda de petróleo iraniano.
A delegação iraniana saiu do prédio onde começaria uma nova rodada de negociações com os Estados Unidos na Suíça neste domingo, horas depois de chegar a um resort à beira de um lago nos Alpes. A saída ocorreu em resposta a ameaças publicadas pelo presidente Donald Trump nas redes sociais, que voltou a advertir sobre possíveis ataques à República Islâmica. A agência estatal iraniana Irna confirmou a decisão, informando que os representantes se retiraram após uma reunião com a delegação do Catar, um dos mediadores do encontro.
O timing foi particularmente tenso. Enquanto as equipes dos dois países se instalavam no local para discutir questões cruciais — o conflito entre Israel e o Hezbollah no Líbano, os fundos iranianos congelados no exterior e a venda de petróleo iraniano — Trump publicava mensagens exigindo que Teerã impedisse seus aliados no Líbano de "causar problemas", sob ameaça de retomar operações militares contra o país. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, havia confirmado horas antes que o conflito no Líbano seria o ponto central da pauta, junto com a liberação de ativos congelados e licenças para exportação de petróleo.
A resposta iraniana foi imediata. Mohamad Baqer Qalibaf, presidente do Parlamento, aconselhou Washington a "medir suas palavras" em uma publicação no X, afirmando que as Forças Armadas iranianas estavam prontas para responder de forma diferente. A troca de advertências eclipsou o otimismo inicial da delegação americana. O vice-presidente JD Vance, que lidera a equipe de negociação ao lado dos enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner, havia descrito o encontro como "histórico" e mencionado "grandes avanços nas últimas horas". Ele questionou se os dois países conseguiriam "virar uma nova página" ou se voltariam "a fazer as coisas à moda antiga".
O contexto de escalada era já preocupante antes da saída iraniana. No sábado, o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz em resposta a violações do cessar-fogo no Líbano. Ataques israelenses deixaram dezenas de mortos no leste e no sul do país naquele dia, com um soldado israelense também morto na região. Embora as operações tenham sido interrompidas quando o Exército israelense recebeu ordens para cumprir o cessar-fogo — assim como o Hezbollah — o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, tenente-general Eyal Zamir, descreveu o acordo como "frágil", alertando que as tropas devem manter "um alto nível de prontidão para a retomada das operações de combate".
Os militares americanos contestaram a alegação iraniana sobre o bloqueio do Estreito de Ormuz, afirmando que monitoram a situação para garantir que o tráfego marítimo continue fluindo. Dados de rastreamento de navios mostram que três superpetroleiros carregados, com capacidade combinada para transportar 6 milhões de barris, emitiram sinais enquanto navegavam pelo canal no sábado por uma rota próxima à costa de Omã.
A delegação iraniana que se retirou era de alto nível. Além de Qalibaf, incluía o ministro das Relações Exteriores Abbas Araqchi e o chefe do Banco Central Abdolnaser Hemmati. A delegação paquistanesa, também atuando como mediadora, havia chegado no mesmo dia com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o chefe do Estado-Maior do Exército Asim Munir. Um protocolo de acordo havia sido assinado à distância na quarta-feira entre Trump e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, estabelecendo que os dois países se comprometeriam "a se abster da ameaça ou do uso da força".
Neste domingo, Pezeshkian disse estar preparado para oferecer garantias de que o Irã não desenvolveria armas nucleares, mas sem desistir do direito ao enriquecimento de urânio. "O que os EUA exigem é que o Irã não construa uma bomba atômica. Isso não é novidade, e nós também podemos declarar por escrito que não temos intenção de construir uma bomba", afirmou segundo seu site oficial. "Não abriremos mão do nosso direito ao enriquecimento, e o outro lado não terá escolha a não ser aceitar esse direito".
O vice-presidente americano, por sua vez, reafirmou o compromisso dos EUA não apenas com a paz bilateral, mas com "uma paz regional", argumentando que Washington "fez mais para conter o conflito no Líbano do que qualquer outro governo em qualquer lugar do mundo nos últimos meses". A saída da delegação iraniana deixa em aberto se as negociações serão retomadas e sob quais condições.
Notable Quotes
Nossas Forças Armadas estão prontas para responder de outra maneira— Mohamad Baqer Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano
Devemos manter um alto nível de prontidão para a retomada das operações de combate, se necessário— Tenente-general Eyal Zamir, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Trump publicou essas ameaças justamente quando as negociações começavam? Parecia sabotagem deliberada.
Pode ter sido, ou pode ter sido uma tentativa de estabelecer limites antes de sentar à mesa. Trump frequentemente usa ameaças como ferramenta de negociação. Mas o timing foi desastroso — os iranianos interpretaram como desrespeito.
A delegação iraniana saiu imediatamente. Isso significa que as negociações acabaram?
Não necessariamente. Saídas dramáticas como essa são às vezes teatro diplomático. Mas desta vez parecia genuína — o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz no mesmo dia. Não é um gesto simbólico.
Qual era o ponto central que o Irã queria discutir?
O Líbano. Havia violações do cessar-fogo, dezenas de mortos no sábado. O Irã vê o Hezbollah como aliado, então qualquer ataque israelense é uma afronta direta. Eles queriam garantias de que isso pararia.
E os ativos congelados? Quanto dinheiro estamos falando?
A fonte não especifica o valor, mas é substancial o suficiente para ser uma prioridade de negociação. Para uma economia sob sanções como a iraniana, cada bilhão importa.
Pezeshkian ofereceu desistir da bomba atômica. Por que isso não foi suficiente para manter as conversas?
Porque ele não desistiu — apenas ofereceu garantias de que não a construiria. E mantém o direito ao enriquecimento de urânio, que é exatamente o que os EUA temem. É uma concessão cosmética, não substancial.