O permafrost funciona como cola natural nas montanhas; seu derretimento libera volumes colossais de água e detritos em alta velocidade, causando desabamentos catastróficos. Desde 1950, oito dos dez piores anos de degelo ocorreram na última década, com o desastre no Nepal sendo 10 a 20 vezes maior que o da Suíça.
Degelo do permafrost provoca avalanches catastróficas no Nepal e Suíça
O que acontece nas montanhas não fica nas montanhas
Por que o permafrost é tão importante? Parece apenas gelo no subsolo.
Porque funciona como uma cola. Mantém blocos gigantescos de rocha presos juntos. Quando derrete, não há mais nada segurando a montanha.
Mas quanto tempo leva para derreter? Estamos falando de décadas ou de mudanças que já estão acontecendo agora?
Já estão acontecendo. Oito dos dez piores anos de degelo desde 1950 ocorreram na última década.
E a tecnologia da fibra óptica — ela consegue realmente prever quando uma montanha vai desabar?
Consegue avisar minutos antes. Detecta fendas internas que não são visíveis na superfície.
Minutos é tempo suficiente para evacuar um vilarejo, mas e para as comunidades que não têm esse sistema? Quantas geleiras estão sendo monitoradas dessa forma?
A reportagem não especifica. Sabemos que um cabo consegue cobrir cinquenta quilômetros, mas não quantos cabos existem instalados.
O custo é alto?
Cem mil dólares por caixa de leitura. Mais de quinhentos mil reais.
Então é uma solução cara para um problema que afeta principalmente países em desenvolvimento, como Nepal e Paquistão.
Exatamente. A ONU diz que cada dólar em prevenção evita vinte em reconstrução, mas nem todos têm acesso a essa tecnologia.
O que acontece com as comunidades que não conseguem se adaptar?
Segundo Kishore, o futuro será ainda mais arriscado. O passado não é mais um guia confiável.
Il Polso
- Vilarejo de Blatten, Suíça, soterrado em segundos por avalanche a 200 km/h
- Avalanche no Nepal foi 10 a 20 vezes maior que a da Suíça
- Oito dos dez piores anos de degelo desde 1950 ocorreram na última década
- Fibra óptica detectou mais de 8% de fendas ocultas em uma geleira dos Alpes
- Cada dólar em prevenção evita até vinte dólares em reconstrução
O permafrost funciona como cola natural nas montanhas; seu derretimento libera volumes colossais de água e detritos em alta velocidade, causando desabamentos catastróficos. Desde 1950, oito dos dez piores anos de degelo ocorreram na última década, com o desastre no Nepal sendo 10 a 20 vezes maior que o da Suíça.
Tragédias no Nepal e Suíça revelam como o aquecimento global derrete o permafrost, desestabilizando montanhas e causando avalanches devastadoras. Cientistas desenvolvem tecnologias de monitoramento com fibra óptica para prever colapsos.
Uma montanha inteira desabou em segundos. No vilarejo de Blatten, nos Alpes Suíços, a encosta veio abaixo a 200 quilômetros por hora no ano passado, soterando casas e o histórico hotel local sob uma massa de rocha e detritos. A evacuação prévia, possível graças aos sistemas de monitoramento, salvou vidas — apenas uma morte foi registrada em uma comunidade vizinha. Mas o que Blatten viveu foi apenas uma fração do que ocorreu simultaneamente no Nepal, onde uma avalanche de lama no Himalaia deixou milhares de desaparecidos. Ambas as tragédias revelam o mesmo culpado: o aquecimento global está descongelando o permafrost, a camada de solo e rocha permanentemente congelada que funciona como uma cola natural mantendo as estruturas das montanhas unidas.
O permafrost é invisível, mas essencial. Funciona exatamente como uma cola que prende blocos gigantescos de rocha e gelo em seu lugar. Quando as temperaturas globais sobem, essa camada congela com menor intensidade ou derrete completamente. Sem essa sustentação interna, estruturas rochosas que permaneceram estáveis por milênios cedem de repente. O glaciologista Matthias Huss explica que o colapso arrasta geleiras inteiras e libera volumes colossais de água. Uma força capaz de percorrer grandes distâncias em velocidade avassaladora. O desastre no Nepal, segundo Huss, foi de dez a vinte vezes maior do que o registrado na Suíça — uma diferença que ilustra a escala variável dessas catástrofes, mas não sua causa comum.
Os números revelam uma aceleração alarmante. Desde 1950, oito dos dez piores anos de derretimento de gelo no mundo ocorreram na última década. O recuo das geleiras, do Paquistão aos Alpes, tem inclusive feito emergir corpos de pessoas desaparecidas há décadas, como se o planeta estivesse devolvendo seus mortos. Huss descreve o momento histórico em que vivemos: uma fase de transição de montanhas cobertas de gelo para montanhas totalmente sem gelo. Essas mudanças, muitas vezes, terminam em grandes catástrofes. Um morador de Blatten, Lukas, capturou a dimensão da perda com uma frase simples: prédios a gente reconstrói, o difícil é ver um vilarejo inteiro desaparecer.
Para tentar prever deslizamentos antes que ocorram, pesquisadores e governos buscam alternativas tecnológicas. Na Itália, mantas térmicas têm sido estendidas sobre o gelo para desacelerar o derretimento durante as ondas de calor do verão europeu. Na Suíça, cientistas da Universidade ETH de Zurique desenvolveram uma técnica mais sofisticada: cabos de fibra óptica estendidos sobre a neve captam ruídos internos da montanha. Thomas Hudson, responsável pelo projeto, descreve o funcionamento como se fosse um exame de ultrassom — os pesquisadores escutam os estalos das fendas se abrindo dentro da geleira. O mapeamento revelou algo perturbador: o fraturamento interno do gelo é significativamente maior do que as rachaduras visíveis na superfície. Em uma única geleira analisada nos Alpes, mais de oito por cento da área monitorada já apresentava fendas ocultas.
Essas fendas ocultas são perigosas porque permitem que a água do degelo superficial penetre profundamente. Quando isso ocorre, acontece o fenômeno da hidrofratura: a pressão do líquido força o alargamento das fendas e acelera novos colapsos. Cada caixa de leitura a laser do sistema custa cerca de cem mil dólares, mais de quinhentos mil reais. Um único cabo de fibra óptica consegue monitorar uma extensão de até cinquenta quilômetros, cobrindo rodovias, ferrovias e vilarejos. Hudson projeta um futuro em que sistemas de monitoramento em tempo real avisar minutos antes da montanha vir abaixo — uma janela de tempo que pode significar a diferença entre salvar vidas ou registrar tragédias humanas.
Históricos episódios no Peru em 1970, na Índia em 2021 e agora no Nepal demonstram que alertas emitidos com minutos de antecedência salvam vidas. Kamal Kishore, chefe do Escritório da ONU para Redução do Risco de Desastres, reforça que as mudanças nas montanhas afetam regiões situadas a dezenas de quilômetros de distância. O que acontece nas montanhas não fica nas montanhas. O passado não é mais um guia confiável para o futuro, que será ainda mais arriscado. Kishore destaca que cada dólar investido em prevenção de desastres evita até vinte dólares em custos de reconstrução — um argumento econômico que reforça o imperativo moral.
Mas há um limite para o que a tecnologia pode fazer. Cientistas ressaltam que, embora novas tecnologias e dados via satélite ampliem a capacidade de identificar áreas de risco, o planeta precisará se adaptar a um cenário de transformações inevitáveis. Matthias Huss conclui que a ciência está aprendendo com essas tragédias e que novas tecnologias devem ajudar a identificar riscos com mais antecedência. Mas prever tudo ainda é impossível. O que resta é monitorar, alertar, evacuar — e aceitar que algumas montanhas, em breve, não serão mais o que foram.
Citazioni salienti
Prédios a gente reconstrói. O difícil é ver um vilarejo inteiro desaparecer— Lukas, morador de Blatten
O que acontece nas montanhas não fica nas montanhas. O passado não é mais um guia confiável para o futuro, que será ainda mais arriscado— Kamal Kishore, chefe do Escritório da ONU para Redução do Risco de Desastres