Declarações de Lula sobre meta de inflação e juros derrubam Bolsa

Se a meta está errada, muda-se a meta
O presidente sinalizou intenção de alterar a meta de inflação, gerando reação negativa do mercado financeiro.
Mark

Por que as falas de Lula sobre a meta de inflação causaram tanta reação no mercado?

Mimi

Porque ele sinalizou que quer mudar uma regra que foi estabelecida pelo Congresso em 2021 — a autonomia do Banco Central. Quando um presidente diz "se a meta está errada, muda-se a meta", o mercado interpreta isso como possível interferência política na política monetária.

Luke

Mas ele realmente disse que vai mudar, ou apenas que poderia mudar?

Mimi

Ele sinalizou a intenção. Não é um decreto, é um sinal. Mas sinais importam para o mercado porque afetam expectativas.

Mark

E qual seria o impacto prático de mudar a meta para 4,5%?

Mimi

Se a meta sobe, o Banco Central precisa de juros mais altos para alcançá-la. Então em vez de reduzir os juros, eles ficariam elevados — em torno de 11% no final de 2024, segundo estimativas.

Luke

Espera, mas o presidente quer juros mais baixos, certo? Então por que ele faria algo que manteria juros altos?

Mimi

Exatamente a contradição. Ele quer juros baixos, mas se muda a meta para cima, os juros precisam ficar altos. É uma tensão não resolvida.

Mark

As projeções de inflação estão realmente desancoradas?

Mimi

Sim. O Banco Central alertou isso. As previsões subiram de 5,93% para 5,96% em uma semana, e há pressão de combustíveis e impostos estaduais que devem empurrar ainda mais para cima.

Luke

Mas isso é inflação de demanda ou de oferta? Porque Lula disse que não existe inflação de demanda no Brasil.

Mimi

O Copom diz que há pressão de demanda. Lula discorda. É uma questão em aberto — e importante, porque determina se juros altos são necessários ou não.

Mark

Então o que acontece agora?

Mimi

A reunião do CMN em junho é quando a meta será decidida. Até lá, o mercado vai ficar atento a cada sinal do presidente e do Banco Central.

Luke

E se a meta subir para 4,5%? Isso resolve o problema?

Mimi

Não. Apenas muda o alvo. A inflação real ainda precisa cair, e com juros altos, o crescimento fica prejudicado — estimativas apontam apenas 1% para 2024.

  • Bolsa caiu 0,15% e dólar subiu 0,16% após declarações de Lula
  • Lula criticou taxa de juros de 13,75% ao ano e negou existência de inflação de demanda
  • Economistas estimam meta de inflação em 4,5% para 2024, mantendo Selic em 11% no final do ano
  • Projeções de inflação subiram de 5,93% para 5,96% em uma semana, com pressão de combustíveis

Lula sinalizou intenção de mudar a meta de inflação e criticou o patamar de juros de 13,75% ao ano, afirmando que não existe inflação de demanda no Brasil. Economistas estimam que a meta de inflação pode subir para 4,5% em 2024, o mesmo patamar dos primeiros mandatos de Lula, mantendo juros elevados.

Declarações do presidente Lula sobre mudança na meta de inflação e críticas aos juros provocaram queda de 0,15% na Bolsa e alta de 0,16% no dólar, gerando preocupações sobre interferência na autonomia do Banco Central.

Na manhã de quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sentou-se com jornalistas para um café da manhã e, em poucas frases, desencadeou uma reação em cascata nos mercados financeiros. Ele sinalizou que pretendia mudar a meta de inflação do país e voltou a criticar duramente os juros, que estavam em 13,75% ao ano. "Se a meta está errada, muda-se a meta", disse, uma declaração que ecoou como um sinal claro de que o novo governo poderia tentar interferir na autonomia do Banco Central, conquistada pelo BC através de aprovação do Congresso em 2021. A Bolsa de Valores de São Paulo caiu 0,15% no dia, fechando em 100.821 pontos, enquanto o dólar subiu 0,16%, cotado a R$ 5,058 para venda.

O mercado havia começado o pregão com sinais de recuperação, chegando a ultrapassar 101 mil pontos e atingindo máxima de 101.628 pontos. Mas conforme as declarações do presidente ganharam circulação, o índice recuou para seu piso de 100.444 pontos. Lula também afirmou que "essa taxa de juros é incompreensível para o desenvolvimento do país" e negou a existência de inflação de demanda no Brasil — uma posição que contrasta com o que consta na ata mais recente do Comitê de Política Monetária, divulgada em 28 de março, que apontava a pressão de demanda como uma das razões para manter a taxa básica nos patamares atuais. O volume de negociações somou R$ 16,8 bilhões.

Economistas começaram a recalibrar suas projeções. Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, considerou que o cenário mais provável agora é que a meta de inflação para 2024 suba para 4,5% — exatamente o patamar que vigorou durante os dois primeiros mandatos de Lula, uma taxa que o próprio presidente citou como exemplo. Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, minimizou um pouco o impacto das falas presidenciais, apontando que a quinta-feira anterior à Sexta-Feira Santa é tradicionalmente um dia fraco para o mercado, e que a postura defensiva dos investidores também refletia a expectativa de dados de desemprego nos Estados Unidos no dia seguinte.

Mas o alerta mais preocupante veio de Megale: com uma meta de inflação mais alta, o custo para reduzir os juros será maior. A XP estima que a taxa Selic deverá terminar 2024 em 11%, mantendo patamares elevados que prejudicam o crescimento econômico. As perspectivas de crescimento foram mantidas em 1% tanto para 2023 quanto para 2024. Eduardo Velho, economista-chefe da JF Trust Gestora de Recursos, reconheceu que as declarações de Lula contribuíram para a queda da Bolsa e alertou que a incerteza em torno de ajustes de preços de combustíveis, combinada com maior intervencionismo na política monetária, criaria um viés mais negativo do que benéfico para o mercado.

A composição do Conselho Monetário Nacional, responsável por fixar as metas de inflação desde 1999, inclui o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que mantém o mesmo peso de voto apesar de não ter mais status de ministério; o ministro da Fazenda, Fernando Haddad; a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet; e a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck. Historicamente, a meta permaneceu em 4,5% entre 2005 e 2018, mas foi reduzida gradualmente a partir de 2009, chegando a 3,25% em 2023 e 3% em 2024 e 2025. A reunião de junho do CMN é quando tradicionalmente se reafirmam as metas do ano corrente e seguinte.

Velho alertou que o ministro Haddad seria informado de que um ajuste para cima na meta de inflação poderia contaminar as expectativas inflacionárias. Ele também não prevê redução na Selic na próxima reunião do Copom, em maio. Quando Campos Neto elogia o arcabouço fiscal apresentado por Haddad, isso não necessariamente se traduz em redução das expectativas de inflação ou em juros menores, ressaltou Velho, observando que o ritmo de crédito está razoável e o mercado de trabalho mais resiliente do que esperado, mas que a inflação de serviços e a persistência inflacionária não favorecem flexibilização dos juros em maio.

As projeções de inflação estão desancoradas, conforme alertou o Banco Central em sua última ata. No boletim Focus publicado na segunda-feira anterior, a previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo passou de 5,93% para 5,96% em uma semana, e há quatro semanas estava em 5,90%. O Bradesco revisou suas projeções para o IPCA de 5,9% para 6,2%, incorporando mudanças na tributação estadual sobre gasolina e estimando alta de 10,5% nos preços administrados em 2023. Caio Megale, da XP, projeta que o IPCA fechará 2023 acima de 6% e 2024 acima de 5%, ambas as taxas ultrapassando os tetos das metas atuais de 4,75% e 4,50%, respectivamente. A pressão vem também do mercado internacional: o barril de Brent fechou a semana com alta acumulada de 6,5%, e a perspectiva de aumento de impostos estaduais sobre combustíveis, combinada com redução de produção pela Opep, alimenta novas revisões para cima nas estimativas de inflação das instituições financeiras.

Essa taxa de juros é incompreensível para o desenvolvimento do país
— Presidente Lula
O mercado já estava considerando aumento da meta de inflação de 2024 para 4%, mas após as falas de Lula, o mais provável é que suba para 4,5%
— Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos
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