De servidora pública a prêmios internacionais: a história da chocolateira que conquistou o Brasil

Aquela mesa mudou a minha vida
Priscila França recorda o momento em que provou chocolate feito com cacau brasileiro de origem controlada na França.
Mark

O que fez você sair de um cargo público estável para algo tão incerto quanto uma fábrica de chocolates?

Mimi

Não era incerteza, era convicção. Eu tinha experimentado algo na França que me mostrou um caminho. Quando você prova um chocolate feito com cacau brasileiro e percebe que aquilo é possível, que aquilo é real, você não consegue mais pensar em outra coisa.

Mark

Mas por que o chocolate especificamente? Por que não outra coisa?

Mimi

Porque foi ali que tudo se conectou. A gastronomia, a técnica, a matéria-prima brasileira, o potencial que ninguém estava explorando. Não era só fazer chocolate — era contar uma história através do chocolate.

Mark

Você mencionou que cada lote passa por diferentes protocolos de torra. Isso é realmente necessário, ou é perfeccionismo?

Mimi

É necessário. O cacau não é um produto uniforme. Dois lotes de um mesmo produtor podem ter características diferentes. A torra é onde você descobre o melhor que aquele cacau pode oferecer. É ali que a qualidade se define.

Mark

E os concursos — isso foi sorte ou estratégia?

Mimi

Foi estratégia nascida da necessidade. Eu não tinha dinheiro para publicidade. Mas percebi que um prêmio fala mais do que qualquer anúncio. As pessoas confiam em reconhecimento externo. Então comecei a participar, e funcionou.

Mark

Qual é o maior desafio agora, com a empresa crescendo?

Mimi

Manter a qualidade artesanal enquanto crescemos. Produzir 400 quilos por mês e manter cada barra com o mesmo cuidado que tinha quando produzia em casa. E também expandir sem perder a relação com os pequenos produtores que nos fornece o cacau.

  • Priscila França deixou cargo de servidora pública no Espírito Santo para empreender
  • Fábrica em São Paulo produz 400 quilos de chocolate por mês e fatura R$ 1 milhão ao ano
  • Acumula 14 prêmios nacionais e internacionais pela qualidade dos produtos
  • Utiliza cacau de pequenos produtores da Amazônia, principalmente do Pará
  • Atualmente 70% das vendas são diretas ao consumidor (B2C)

Empreendedora abandonou estabilidade do serviço público após descobrir potencial do cacau brasileiro durante experiência na França. Fábrica produz 400 quilos mensais com cacau de pequenos produtores amazônicos, mantendo produção artesanal e relação transparente com fornecedores.

Priscila França deixou cargo público para criar fábrica artesanal de chocolates em São Paulo, que fatura R$ 1 milhão/ano e acumula 14 prêmios nacionais e internacionais pela qualidade.

Priscila França tinha um emprego seguro como servidora pública no Espírito Santo. Tinha também uma paixão que não a deixava em paz — a gastronomia, o chocolate, a possibilidade de criar algo com as próprias mãos. Um dia, pediu licença do cargo e apostou tudo naquilo que a inquietava. Hoje, aos comandos de uma fábrica artesanal de chocolates em São Paulo, ela produz cerca de 400 quilos por mês, fatura aproximadamente um milhão de reais ao ano e acumula 14 prêmios nacionais e internacionais pela qualidade de seus produtos.

O ponto de virada veio durante uma experiência na França. Enquanto acompanhava o marido em um período de estudos, Priscila trabalhou em restaurantes franceses e portugueses, até assumir a chefia da confeitaria de um deles. Foi naquele ambiente que descobriu o chocolate de origem — um universo que mudaria para sempre o rumo de sua carreira. Durante um evento gastronômico, ela provou pela primeira vez um chocolate produzido com cacau brasileiro de origem controlada. "Aquela mesa mudou a minha vida", resume ela, lembrando do momento em que compreendeu o potencial extraordinário da matéria-prima nacional. A experiência despertou uma pergunta que não a deixaria descansar: como era possível produzir um chocolate de tanta qualidade usando cacau do Brasil?

Ao retornar, Priscila procurou um especialista em chocolates e pediu para estagiar na produção. O objetivo era simples e ambicioso: aprender todo o processo para desenvolver uma marca própria. O estágio, previsto para três meses, estendeu-se por nove. Durante esse tempo, ela mergulhou nos conhecimentos técnicos sobre torra, fermentação e fabricação do chocolate — conhecimentos que hoje considera um dos principais diferenciais da empresa. Cada lote de cacau passa por diferentes protocolos de torra para identificar o melhor perfil sensorial antes das barras serem produzidas. Esse trabalho rendeu reconhecimento imediato: o chocolate 70% cacau conquistou o prêmio de melhor chocolate do Brasil.

A escolha de fornecedores reflete a filosofia do negócio. Toda a produção utiliza cacau adquirido de pequenos produtores da Amazônia, principalmente do Pará, além de fornecedores de Rondônia e da região de Manaus. Mais do que garantir diferentes perfis de sabor, essa decisão busca fortalecer uma cadeia produtiva mais sustentável e valorizar quem produz a matéria-prima. Priscila mantém uma relação próxima com os produtores — algo que ela considera parte essencial do negócio e que garante transparência sobre a origem dos ingredientes.

No início, sem orçamento para publicidade, Priscila encontrou uma estratégia criativa: inscrever seus produtos em concursos. A primeira medalha veio quando ela ainda produzia chocolates em casa, apenas cinco meses após iniciar a fabricação. Desde então, os prêmios funcionaram como um selo de qualidade para a marca. "Se você não tem dinheiro para investir em marketing, procura concurso", aconselha ela. Esse tipo de reconhecimento ajuda a gerar credibilidade, aumentar a notoriedade e abrir portas para novos clientes. Outro investimento importante foi o design das embalagens, inspiradas em aquarelas e no chamado "mapa sensorial" dos chocolates — uma forma de traduzir visualmente os sabores encontrados em cada barra. A estratégia acompanha um hábito do consumidor: mais da metade dos brasileiros compra chocolates para presentear, tornando a apresentação um diferencial competitivo. Uma barra custa, em média, 36 reais, e a produção continua sendo artesanal, mesmo com o crescimento.

O perfil de vendas mudou significativamente. Durante muitos anos, o foco esteve nas vendas para outras empresas (B2B). Com a mudança para a fábrica atual e a abertura da loja física, o consumidor final ganhou espaço. Atualmente, cerca de 70% das vendas são feitas diretamente ao consumidor (B2C), enquanto os 30% restantes atendem empresas, empórios gourmet, revendedores e, mais recentemente, uma rede de hotéis. O próximo passo é iniciar as exportações.

Para quem deseja abrir um negócio, Priscila oferece um conselho que vem da experiência vivida: a principal habilidade é confiar no próprio projeto. "Empreender não depende de ninguém, só de você", afirma. Segundo ela, o apoio das pessoas costuma surgir depois que o empreendedor demonstra convicção e persistência. "Quando a gente tem muita vontade, a gente contagia as pessoas em volta", diz. É uma lição que ela aprendeu ao deixar a segurança do serviço público para seguir um sonho que começou em uma mesa de restaurante francês, com um chocolate que mudou tudo.

Se você não tem dinheiro para investir em marketing, procura concurso
— Priscila França
Empreender não depende de ninguém, só de você
— Priscila França
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