De 'príncipe' a líder: a jornada de Xi Jinping antes de sua visita aos EUA

Do filho de revolucionário ao arquiteto de um império
Xi Jinping transformou sua trajetória de privilégio perdido e reeducação rural em legitimidade para concentrar poder sem precedentes.
Mark

Como um homem que viveu sete anos em uma aldeia remota, cavando valas e transportando esterco, consegue chegar ao topo do poder absoluto em um país de 1,4 bilhão de pessoas?

Mimi

A experiência rural não foi um obstáculo — foi parte da narrativa que o legitimou. Mao havia chamado os jovens para aprender com camponeses, e Xi cumpriu isso. Depois, quando seu pai foi reabilitado politicamente, ele tinha tanto a história de sacrifício quanto as conexões dentro do Partido. Era o melhor dos dois mundos.

Luke

Mas precisamos ser cuidadosos aqui. A narrativa de Xi sobre aqueles sete anos é a narrativa de Xi. Ele escolheu o que lembrar, o que compartilhar. Sabemos que foi difícil, que havia fome. Mas quanto disso moldou realmente suas decisões políticas depois, e quanto é apenas uma história que funciona bem?

Mark

Ele eliminou o limite de mandatos presidenciais. Isso é concentração de poder ou é apenas pragmatismo político?

Mimi

É ambos. Tecnicamente, ele mudou as regras constitucionais. Mas dentro do sistema do Partido Comunista, isso não é tão extraordinário quanto parece de fora. O que é extraordinário é que ele conseguiu fazer isso sem uma ruptura visível no Partido.

Luke

O ponto é que ninguém sabe exatamente como isso foi negociado internamente. Sabemos que aconteceu. Sabemos que ele permanece no poder. Mas os mecanismos reais de consentimento ou coerção dentro do Politburo? Isso está fechado para nós.

Mark

E quanto à sua esposa, Peng Liyuan? Ela é muito mais visível que as primeiras-damas chinesas tradicionais.

Mimi

Sim, ela quebra o padrão. Ela era uma celebridade antes de se casar com Xi — milhões a conheciam pelos especiais de Ano Novo. Ela viaja com ele, aparece publicamente. Isso humaniza Xi de uma forma que a tradição chinesa não permitiria.

Luke

Mas também é uma escolha calculada. Nada sobre a apresentação pública de Xi é acidental. Se Peng aparece mais, é porque serve aos interesses de imagem dele. Não sabemos se ela tem influência real nas decisões políticas.

Mark

Ele descreveu Putin como seu "confidente mais próximo". Como você interpreta isso?

Mimi

É uma aliança de conveniência que se tornou pessoal. Ambos enfrentam pressão do Ocidente, ambos veem a si mesmos como defensores de uma ordem multipolar. Eles se reúnem frequentemente, falam a mesma linguagem geopolítica.

Luke

Mas "confidente mais próximo" é uma frase forte. Sabemos que se reúnem. Sabemos que coordenam em questões internacionais. Mas o que exatamente compartilham em privado? Isso é especulação. O que sabemos é que a aliança China-Rússia é estratégica e mutuamente benéfica — por enquanto.

Mark

Qual é o significado real dessa visita a Washington agora?

Mimi

É um retorno simbólico. Xi volta ao país que visitou como jovem funcionário curioso. Mas agora ele vem como líder de uma superpotência que compete diretamente com os EUA. É o mesmo lugar, mas um mundo completamente diferente.

Luke

E precisamos lembrar que as relações estão em um ponto de tensão real — tarifas, tecnologia, Taiwan, o Mar do Sul da China. Essa visita pode ser diplomática, mas os problemas estruturais não desaparecem porque dois líderes se encontram.

  • Xi chega a Washington carregando quase catorze anos de poder concentrado e uma China radicalmente diferente da que o mundo conhecia quando ele era apenas um funcionário provincial estudando agricultura em Iowa.
  • A amizade pessoal com Terry Branstad — hoje símbolo de uma era de aproximação — contrasta com o presente marcado por tarifas recíprocas, controles tecnológicos e rivalidade militar crescente entre Pequim e Washington.
  • Internamente, seu governo endureceu o controle político em Xinjiang, Tibete e Hong Kong, eliminou o limite de mandatos presidenciais e inscreveu seu próprio nome na doutrina oficial do Partido — feito que nenhum de seus predecessores imediatos alcançou.
  • Na arena global, Xi teceu alianças estratégicas — com Putin, a quem chama de 'confidente mais próximo', e com o Sul Global via Nova Rota da Seda — enquanto navega uma relação ambígua e tensa com Donald Trump.
  • A visita representa menos um gesto de reaproximação do que um encontro entre duas potências que precisam coexistir sem confiar plenamente uma na outra — e Xi sabe, melhor do que ninguém, o quanto os dois países já foram diferentes entre si.

Após onze anos de ausência, Xi Jinping retorna aos Estados Unidos não como o jovem funcionário curioso que percorreu fazendas de Iowa quatro décadas atrás, mas como um dos líderes mais poderosos do século 21. Sua trajetória — da infância privilegiada à reeducação forçada no campo, da obscuridade provincial ao centro do poder global — espelha as próprias contradições da China que governa há quase catorze anos. A visita a Washington acontece num momento em que a curiosidade que outrora uniu os dois países cedeu lugar à rivalidade estrutural, e onde cada gesto carrega o peso de uma ordem mundial em disputa.

Xi Jinping desembarca em Washington nesta quarta-feira para sua primeira visita oficial aos Estados Unidos em onze anos. O presidente chinês conhece o país de longa data: quarenta anos atrás, como jovem funcionário municipal, passou dias em Iowa estudando agricultura, hospedado por uma família local e cultivando amizade com Terry Branstad, então governador do estado e futuro embaixador americano na China. A imprensa estatal chinesa nunca deixou de evocar esse vínculo como prova dos laços pessoais de Xi com os americanos.

Mas o homem que chega agora é outro. Aos 73 anos, Xi concentrou poder de forma que poucos teriam imaginado possível quando assumiu o comando do Partido Comunista, em 2012. Sua história pessoal é marcada por reviravoltas dramáticas: nascido em Pequim em 1953, filho de um revolucionário que chegou a vice-primeiro-ministro, desfrutou de infância privilegiada até que a política se voltou contra sua família. Aos quinze anos, foi enviado à força para a remota aldeia de Liangjiahe, em Shaanxi, onde viveu sete anos numa moradia escavada na colina, realizando trabalho agrícola pesado. Em entrevista de 2004, recordou a partida com ironia: 'Todos no trem choravam. Eu era o único que sorria.'

Da aldeia, Xi seguiu para a Universidade Tsinghua, depois para cargos nas prósperas províncias litorâneas de Fujian e Zhejiang. A reabilitação política de seu pai após a morte de Mao abriu portas no governo central e nas Forças Armadas. Em sua vida pessoal, um primeiro casamento terminou em divórcio; depois, casou-se com Peng Liyuan, cantora folclórica do Exército muito mais famosa que ele na época, que hoje o acompanha em viagens ao exterior — algo incomum para primeiras-damas chinesas.

No poder desde 2012, Xi transformou a China por dentro e por fora. Incorporou seu nome à doutrina oficial do Partido, eliminou o limite de mandatos presidenciais e intensificou o controle político em Xinjiang, Tibete e Hong Kong. No plano externo, expandiu a influência global pela Nova Rota da Seda, aprofundou a parceria com Vladimir Putin — com quem já se reuniu mais de quarenta vezes — e mantém com Donald Trump uma relação ambígua, feita de elogios mútuos e guerra comercial. Em Washington, Xi não será mais o funcionário curioso de Iowa, mas uma das figuras centrais da disputa pela ordem do século 21.

Xi Jinping chega a Washington nesta quarta-feira para sua primeira visita oficial aos Estados Unidos em onze anos. Mas o presidente chinês já conhece o país. Quarenta anos atrás, quando era funcionário municipal em uma província do norte, ele passou dias em Iowa estudando agricultura, visitando fazendas e hospedado em casa de família local. Naquela época, fez amizade com Terry Branstad, então governador do Estado, que décadas depois se tornaria embaixador americano na China durante o governo Trump — um detalhe que a imprensa estatal chinesa nunca deixou de destacar como prova dos vínculos pessoais de Xi com os Estados Unidos.

Mas o homem que desembarca em Washington agora é radicalmente diferente daquele jovem funcionário. Aos 73 anos, Xi lidera a China há quase catorze anos e concentrou poder de forma que poucos teriam imaginado possível. As relações entre Washington e Pequim também mudaram completamente. Onde havia curiosidade e troca de conhecimento agrícola, há agora competição pela influência global, tarifas comerciais recíprocas, controles tecnológicos e rivalidade militar.

A vida de Xi começou com privilégio. Nascido em Pequim em 1953, era filho de Xi Zhongxun, revolucionário comunista que ajudou a fundar a República Popular da China e chegou a vice-primeiro-ministro. Na infância, frequentou escolas de elite e desfrutou de vantagens fora do alcance da maioria das famílias chinesas. Tudo mudou no início dos anos 1960, quando a política se voltou contra sua família. Seu pai foi acusado de integrar uma suposta "facção contra o partido", expulso do Partido Comunista e enviado para trabalhar em uma fábrica no interior. Como filho de um "contrarrevolucionário", Xi foi encaminhado à força para um programa de reeducação.

Atendendo ao chamado de Mao Tsé-Tung para que jovens fossem aprender com camponeses no campo, Xi, aos quinze anos, foi transferido para uma zona rural junto com milhões de estudantes das cidades. Terminou na remota aldeia de Liangjiahe, na Província de Shaanxi, no oeste da China, onde viveu sete anos em um yaodong — moradia escavada na ladeira de uma colina. Lá realizou tarefas agrícolas, transportou esterco e cavou valas. Em entrevista de 2004, descreveu a partida: "Todos no trem choravam. Eu era o único que sorria. Se não tivesse saído dali, teria chorado. Se tivesse ficado, nem mesmo sei se continuaria vivo". Recordava-se da fome, das picadas de pulgas, mas também de vegetais em conserva que se tornaram sua comida favorita e que, segundo ele, ainda evoca com carinho.

Aos vinte e dois anos, deixou o campo para estudar engenharia química na Universidade Tsinghua. Depois de se formar, trabalhou como funcionário local nas províncias litorâneas de Fujian e Zhejiang, que se tornaram algumas das regiões mais prósperas da China após a abertura econômica dos anos 1980. A reabilitação política de seu pai após a morte de Mao o ajudou a ocupar cargos no governo central e nas Forças Armadas, onde começou a formar relações dentro do Partido Comunista — muitos desses funcionários integrariam seu círculo de confiança mais próximo décadas depois.

Em 1979, casou-se com Ke Lingling, filha de um ex-embaixador chinês no Reino Unido, mas o casamento terminou em divórcio três anos depois. Um amigo comum o apresentou posteriormente a Peng Liyuan, cantora de música folclórica do Exército que era muito mais conhecida que ele na época, graças às suas apresentações nos especiais de televisão do Ano Novo Lunar acompanhados por milhões de espectadores. Tiveram uma filha, Xi Mingze, nascida em 1992, que estudou na Universidade Harvard. Diferentemente das primeiras-damas chinesas tradicionais, Peng acompanha Xi frequentemente em viagens ao exterior.

Em 2007, após breve período como dirigente máximo de Xangai, Xi ingressou no Comitê Permanente do Politburo, principal órgão de tomada de decisões da China. Cinco anos depois, sucedeu Hu Jintao como líder do Partido Comunista. Durante quase catorze anos no poder, transformou o sistema político e econômico chinês. No plano internacional, ampliou a presença global com projetos como a Nova Rota da Seda, apresentando Pequim como defensor do Sul Global. Paralelamente, as relações com muitas democracias se tornaram mais tensas, com aumento de disputas no Mar do Sul da China, maior pressão sobre Taiwan e competição cada vez mais intensa com os Estados Unidos.

Mas seu legado também é marcado por maior controle político interno. Sob sua liderança, Pequim depositou muito mais ênfase em segurança e estabilidade política, aplicando medidas repressivas em Xinjiang, Tibete e Hong Kong. Para seus partidários, restauraram a ordem; para críticos, restringiram significativamente as liberdades civis. Xi conseguiu impulsionar uma doutrina política que leva seu nome — o "Pensamento de Xi Jinping sobre o socialismo com características chinesas para uma nova era" — incorporada à composição ideológica oficial do Partido, algo que seus dois predecessores não conseguiram fazer. Eliminou também da Constituição o limite de mandatos presidenciais, permitindo permanecer no cargo por mais de dois períodos. Nenhum líder estrangeiro mantém relação mais estreita com ele que Vladimir Putin — já se reuniram mais de quarenta vezes, e Xi o descreveu como seu "confidente mais próximo". Suas relações com Donald Trump são mais complexas: Trump iniciou guerra comercial com a China durante seu primeiro mandato, mas frequentemente elogiou Xi, chamando-o de amigo e destacando sua força política. Durante esta semana em Washington, Xi não será mais o curioso funcionário que percorreu fazendas de Iowa quatro décadas atrás, mas uma das figuras políticas mais influentes do século 21.

Todos no trem choravam. Eu era o único que sorria. Se não tivesse saído dali, teria chorado. Se tivesse ficado, nem mesmo sei se continuaria vivo
— Xi Jinping, descrevendo sua partida para reeducação rural em 2004
Vegetais em conserva passaram a ser minha comida favorita. Até hoje me lembro deles com carinho
— Xi Jinping, sobre seus anos na aldeia de Liangjiahe
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