A IA funciona como infraestrutura criativa, acelerando produção e análise, mas não substitui decisões estratégicas e curadoria humana na construção de marca. Autenticidade e conexão emocional emergem como diferenciadores competitivos raros quando toda a gente tem acesso às mesmas ferramentas tecnológicas.
De Ogilvy à IA: autenticidade e emoção continuam a ser irredutivelmente humanas
Autenticidade torna-se mais rara quando toda a gente consegue produzir
Porque é que a autenticidade se tornou mais importante agora, com a IA, do que era antes?
Porque antes havia escassez. Produzir conteúdo era caro, demorado, exigia recursos. Agora qualquer marca gera meses de comunicação em minutos. Quando toda a gente consegue fazer isso, a autenticidade é o que sobra. É o que não se consegue automatizar.
Mas como é que se mede autenticidade? Os entrevistados descrevem-na como "coerência sustentada no tempo", mas isso é uma definição muito vaga. Como é que uma marca sabe se está a ser autêntica ou se está apenas a parecer autêntica?
É uma boa pergunta. A investigação mostra que os profissionais a definem como coerência entre o que a marca comunica, o que faz e o que é. Mas tens razão, é difícil de medir.
E a emoção? Como é que a IA não consegue replicar emoção?
A IA pode gerar textos que soam emocionais, pode usar padrões que sabemos que funcionam. Mas emoção genuína vem de experiência vivida, de empatia, de memória. A máquina não tem nada disto.
Espera. Os profissionais entrevistados disseram que a IA não consegue replicar emoção, mas ninguém testou isto com consumidores reais. Ninguém mediu se uma história escrita por IA gera menos emoção do que uma escrita por um humano. É uma afirmação intuitiva, não é um facto comprovado.
Verdade. A investigação é qualitativa, baseada em entrevistas com profissionais. Não há dados de consumidor aqui.
Então qual é o risco real da homogeneização? Se a IA é só uma ferramenta, porque é que todas as marcas ficam parecidas?
Porque as mesmas ferramentas produzem os mesmos padrões. E porque há pressa. Os profissionais disseram que falta tempo para reflexão estratégica. A velocidade da IA ocupa o espaço que antes pertencia ao pensamento lento e deliberado.
Mas isso não é culpa da IA. É culpa de como as organizações a usam. A IA não força ninguém a ser rápido e genérico.
Tens razão. É uma escolha organizacional. A tecnologia apenas torna essa escolha mais fácil e mais rápida.
Então o que muda realmente com a IA?
A escala e a velocidade. Ogilvy tinha razão há 70 anos: a marca é símbolo. A IA não muda isso. Mas muda quanto tempo leva a produzir esse símbolo e quantas variações se conseguem gerar. E isso torna a decisão sobre o que o símbolo deve significar ainda mais importante.
Le Pouls
- Investigação com 18 profissionais seniores de branding, comunicação, design e marketing
- A Dove usa ainda hoje o mesmo claim criado por Ogilvy em 1957
- Branding ocupa o primeiro lugar entre 20 prioridades de 500 líderes de marketing europeus (McKinsey 2026)
- Seis temas emergiram da análise: evolução digital, IA como infraestrutura, risco de homogeneização, autenticidade, ligação emocional, personalização com limites éticos
A IA funciona como infraestrutura criativa, acelerando produção e análise, mas não substitui decisões estratégicas e curadoria humana na construção de marca. Autenticidade e conexão emocional emergem como diferenciadores competitivos raros quando toda a gente tem acesso às mesmas ferramentas tecnológicas.
Análise sobre os princípios de marca que a inteligência artificial não consegue replicar: autenticidade, groundedness e ligação emocional, baseada em investigação académica com profissionais seniores.
Mariana Cerca Miguel passou dois anos numa sala de aula a fazer o que os marketeers fazem todos os dias: analisar dados, procurar padrões, tentar extrair verdade de números. Mas no meio daquelas horas infindáveis de investigação, uma pergunta começou a tomar forma, e não a deixou em paz. Se toda a gente usa inteligência artificial agora, o que fica na construção de marca que ainda é irredutivelmente humano?
Era uma inquietação que vinha de longe. Cerca Miguel tem quinze anos de trabalho no terreno do marketing e branding, e nos últimos quatro viu a IA passar de conceito teórico a ferramenta diária, discutida em briefings, em reuniões, em conversas de corredor com colegas que sentiam a mesma coisa mas não conseguiam nomear. Decidiu transformar essa pergunta numa tese de mestrado em Data-Driven Marketing Intelligence, na NOVA Information Management School. Chamou-lhe "From Ogilvy to Artificial Intelligence: Brand Culture in the Age of AI" e construiu-a em torno de três pilares: autenticidade, groundedness e ligação emocional. Estes são, defende, os mecanismos que sustentam a cultura de marca ao longo do tempo, e são também aquilo que a inteligência artificial ainda não consegue replicar.
O ponto de partida é David Ogilvy, e não por acaso. Ogilvy foi um dos primeiros a compreender, ainda dentro da publicidade e décadas antes de o branding existir como disciplina, que uma marca se constrói através de símbolos que se repetem e consolidam ao longo do tempo, não através de mensagens avulsas centradas na venda imediata. Cada anúncio deveria somar carácter à marca a longo prazo, não apenas vender o produto no momento. Quando fundou a sua agência em Nova Iorque em 1948, aos 37 anos, revolucionou a gestão de grandes marcas globais como a Rolls-Royce, a Dove e a Schweppes. A Dove ainda usa hoje, quase 70 anos depois, o mesmo claim criado por Ogilvy no lançamento do produto em 1957. Isto não é um pormenor biográfico. É prova de que a ideia central desta tese já vinha a ser demonstrada em campo há mais de sete décadas, antes de qualquer algoritmo.
Para a sua investigação, Cerca Miguel entrevistou dezoito profissionais seniores de branding, comunicação, design e marketing, tanto de agência como de cliente. Usou análise temática para compreender como a inteligência artificial está a mudar a forma como a cultura de marca se interpreta e se gere. Do trabalho emergiram seis temas principais. O primeiro é que o branding afastou as marcas de uma comunicação centrada em produto e preço, transformando-as num exercício de identidade e posicionamento cultural. O segundo é que os profissionais têm uma leitura madura da inteligência artificial: ninguém a tratou como ameaça existencial nem como milagre, mas como infraestrutura de apoio que acelera investigação, sustenta ideação e escala produção de conteúdo. A interpretação estratégica e a curadoria criativa continuam a ser tarefa exclusivamente humana.
Mas há um risco real que atravessa toda a investigação: a homogeneização. A adoção em massa das mesmas ferramentas está a produzir marcas cada vez mais parecidas, na estética e no discurso. Marcas pouco diferenciadoras, higiénicas, que não desafiam novos caminhos nem criam cultura. Os entrevistados ligaram isto à falta de tempo para reflexão e a uma crescente desvalorização da estratégia em detrimento da velocidade conferida pela digitalização e pela IA. A tecnologia repete padrões com grande eficácia, mas criar algo genuinamente novo exige criatividade e pensamento crítico. Isso continua a ser trabalho exclusivamente humano.
Autenticidade emergiu como o diferenciador estratégico mais consistente de toda a investigação. Os profissionais descrevem-na como coerência sustentada no tempo entre o que a marca comunica, o que a marca faz e o que a marca é. Prende-se a fidelidade de valores e comportamento, não a produção de qualidade técnica. Quando qualquer organização gera, em minutos, meses de comunicação competente, a autenticidade tem de funcionar como âncora. É o que impede a marca de se dissolver no ruído que a própria tecnologia ajuda a multiplicar. Mas foi a conexão emocional que reuniu as respostas mais instintivas e categóricas. Perguntou Cerca Miguel aos profissionais o que permanece fundamentalmente insubstituível no branding, apesar de todo o avanço tecnológico. A resposta veio numa linguagem quase física: a alma, a emoção, aquilo que as máquinas simplesmente não têm. Estes são profissionais que usam inteligência artificial todos os dias e reconhecem o seu valor operacional, mas separam o que a tecnologia otimiza, produz, segmenta e escala, do que continua a depender de empatia, memória e experiência vivida.
A conclusão a que Cerca Miguel chegou é mais interessante do que pensava no início. A inteligência artificial não substitui autenticidade e emoção; intensifica o seu valor estratégico. Quando produzir conteúdo deixa de ser escasso, a autenticidade torna-se mais rara e, por isso, mais valiosa. Quando qualquer marca produz comunicação tecnicamente competente em escala, a ligação emocional genuína passa a separar quem fica na memória de quem é só mais um a preencher o feed. Este resultado dá razão a Ogilvy, 70 anos depois, num cenário que ele próprio jamais poderia ter imaginado. A marca sempre foi símbolo antes de produto, e a inteligência artificial não altera essa natureza, mas muda a velocidade e a escala a que o símbolo se produz. Por isso mesmo, torna ainda mais decisivo saber quem decide o que esse símbolo deve significar e como se o comunica. A tecnologia democratizou a produção, mas o critério continua a pagar-se caro, e continua a ser muito nosso.
Citations marquantes
A Inteligência Artificial escreve a estrutura de uma campanha, gera mil variações de um visual ou de um claim, otimiza a segmentação de uma audiência em segundos, mas decidir se uma marca deve dizer sim ou não a determinado caminho continua a ser trabalho humano— Mariana Cerca Miguel, na sua tese de mestrado
Quando qualquer organização gera, em minutos, meses de comunicação competente, a autenticidade tem de passar obrigatoriamente a funcionar como âncora— Mariana Cerca Miguel, analisando os resultados da investigação