Do interior de Goiás para o comando de um Boeing 737, Tati Mônico percorreu uma trajetória que a aviação comercial raramente imaginou para mulheres criadas na roça. O céu nunca foi o obstáculo real — foram os homens que controlavam o acesso a ele. Sua história, que hoje alcança dois milhões de pessoas, lembra que a persistência diante do preconceito estrutural pode reescrever não apenas uma vida, mas a percepção coletiva do que é possível.
De menina da roça a comandante de Boeing: Tati Piloto vence preconceito e inspira milhões
O difícil nunca foi o céu, eu era uma mulher numa profissão de homem
O que você acha que fez a diferença entre ela desistir e continuar?
Acho que foi teimosia, mas também a falta de alternativa. Ela queria pilotar desde criança. Quando alguém te diz que você não consegue, você tem duas escolhas: acredita ou não acredita. Ela não acreditou.
Mas é importante notar que ela não superou isso sozinha. Ela teve uma irmã que encontrou o curso, e depois teve filhos que a motivaram a criar conteúdo. A história é dela, mas não é isolada.
E quanto ao preconceito que ela enfrentou? Isso ainda existe na aviação?
Segundo ela, sim. Ela perdeu trabalhos por causa disso. Um patrão não a contratou porque a esposa dele não queria mulher pilotando. É discriminação aberta.
O que a gente não sabe é se isso mudou desde então, ou se ainda é um problema sistemático. Ela conta sua experiência, mas não há dados sobre quantas mulheres pilotos existem agora ou qual é a taxa de retenção delas.
E os filhos autistas? Como isso se conecta com a carreira dela?
Foi o catalisador para ela entrar na internet. As terapias custavam caro, então ela começou a gravar vídeos. Virou uma forma de sustentar a família e, sem querer, inspirou outras pessoas.
Isso é verdade, mas também é importante reconhecer que ela teve que escolher entre duas coisas difíceis: trabalhar como piloto ou cuidar dos filhos. A internet foi a solução que funcionou para ela, mas nem toda mãe tem essa oportunidade.
Qual é o impacto real que ela está tendo?
Mulheres que desistiram do sonho de ser piloto estão voltando a tentar. Isso é concreto. Ela recebeu mensagens delas.
Sim, mas a gente não sabe quantas voltaram de verdade, ou se conseguiram emprego. A história dela é inspiradora, mas inspiração não é a mesma coisa que mudança estrutural no mercado.
The Pulse
- Um comandante experiente olhou nos olhos de Tati e disse que ela não tinha força para ser piloto — e ela engoliu o choro e continuou voando.
- Ela perdeu empregos não por incompetência, mas porque esposas de patrões não aceitavam mulheres na cabine, revelando um preconceito que vinha de fora do cockpit.
- Com dois filhos diagnosticados com autismo e terapias caras para custear, Tati encontrou na internet uma saída financeira — e sem querer, tornou-se um símbolo.
- Mulheres que haviam abandonado o sonho de voar começaram a escrever para ela dizendo que voltariam a tentar, transformando seus vídeos em algo maior do que ela planejara.
- Hoje, com mais de dois milhões de seguidores, ela ainda se apresenta como a menina da roça que tira leite de vaca — e é exatamente isso que faz sua voz ser ouvida.
Do interior de Goiás para o comando de um Boeing 737, Tati Mônico percorreu uma trajetória que a aviação comercial raramente imaginou para mulheres criadas na roça. O céu nunca foi o obstáculo real — foram os homens que controlavam o acesso a ele. Sua história, que hoje alcança dois milhões de pessoas, lembra que a persistência diante do preconceito estrutural pode reescrever não apenas uma vida, mas a percepção coletiva do que é possível.
Tati Mônico cresceu em Mozarlândia, no interior de Goiás, sem qualquer proximidade com pistas de pouso ou cabines de comando. Foi uma sugestão da irmã mais velha que a colocou diante de um curso de pilotagem numa lista de faculdades. Ela tentou. Aprendeu a voar. Mas o mercado que a esperava do outro lado do treinamento não estava preparado para ela.
O obstáculo nunca foi técnico. Tati perdeu empregos porque esposas de patrões não queriam mulher na cabine. Numa campanha política no Tocantins, um comandante experiente a olhou nos olhos e disse que ela deveria desistir — que não tinha força para ser piloto. Ela resumiu anos de luta numa frase: 'O difícil nunca foi o céu, eu era uma mulher numa profissão de homem.' Mesmo assim, continuou pilotando, de aeronaves menores até os Boeing 737 que comanda hoje.
O que a levou às redes sociais não foi ambição de fama, mas necessidade. Seus dois filhos foram diagnosticados com autismo — um deles durante a pandemia — e as terapias custavam caro. Ela começou a gravar vídeos sobre aviação para pagar as sessões. O conteúdo tocou quem assistia. Mulheres que haviam abandonado o sonho de voar escreveram dizendo que voltariam a tentar depois de ver sua história.
Hoje, dois milhões de pessoas a acompanham. Tati atribui isso ao fato de nunca ter fingido ser outra pessoa. 'Aquela menina da roça nunca imaginou isso aqui', diz ela, lembrando que ainda senta no chão para comer e tira leite da vaca quando visita a roça. É essa voz — a de quem conhece o peso de ser subestimada e o peso de um avião — que nenhum dos dois conseguiu calar.
Tati Mônico cresceu em Mozarlândia, no interior de Goiás, longe das pistas de pouso e das cabines de comando. Filha da roça, ela viu um curso de pilotagem numa lista de faculdades — sugestão da irmã mais velha — e decidiu tentar. Hoje, aos trinta e poucos anos, ela é comandante de Boeing 737 e reúne mais de dois milhões de pessoas que a acompanham nas redes sociais. Mas o caminho entre aquela menina do campo e a mulher que agora veste o uniforme com quatro faixas no ombro foi marcado por humilhações que quase a fizeram desistir.
O obstáculo nunca foi técnico. Tati aprendeu a voar. O problema era o mercado — ou melhor, os homens que o controlavam. Ela perdeu empregos porque as esposas de patrões não queriam mulher na cabine. Numa campanha política no Tocantins, um comandante experiente a olhou nos olhos e disse que ela deveria desistir, que não tinha força para ser piloto. Ela engoliu o choro e continuou voando.
Essa frase — "o difícil nunca foi o céu, eu era uma mulher numa profissão de homem" — resume a luta que ela enfrentou sozinha durante anos. Não era a física do voo que a assustava. Era a resistência de uma indústria que não acreditava que mulheres pudessem comandar aeronaves. Tati persistiu apesar disso, pilotando Aero Boero, Sêneca, Corisco e, eventualmente, os grandes Boeing que agora conhece como ninguém.
O que a levou a criar conteúdo na internet, porém, não foi a ambição de viralizar. Foram seus dois filhos. Ambos foram diagnosticados com autismo — um deles durante a pandemia de COVID-19. As terapias custavam caro. Tati começou a gravar vídeos sobre segurança em voos, sobre como os aviões funcionam, sobre incidentes aéreos, sobre sua rotina como piloto. Fez isso para pagar as sessões que seus filhos precisavam. O conteúdo tocou pessoas. Mulheres que haviam abandonado o sonho de ser piloto começaram a escrever para ela dizendo que voltariam a tentar depois de ver sua história.
Hoje, quando Tati fala sobre quem é, ela volta sempre ao começo. "Aquela menina da roça nunca imaginou isso aqui," diz. "Sento no chão para comer, tiro leite da vaca quando vou para a roça, sou uma pessoa normal que faz uma coisa diferente." Dois milhões de pessoas a acompanham porque ela não fingiu ser outra pessoa. Porque ela manteve a voz dela — a voz de quem conhece o peso de ser subestimada e o peso de um avião, e decidiu que nenhum dos dois a pararia.
Notable Quotes
Perdi trabalho porque a esposa do patrão não queria mulher pilotando. Aí, numa campanha política no Tocantins, um comandante olhou para mim e disse: 'Desiste. Você não tem força para ser piloto'. Eu engoli o choro e continuei.— Tati Mônico, comandante de Boeing 737
Meus dois filhos são autistas e a terapia pros dois custa caro. Foi por isso que eu comecei a gravar.— Tati Mônico