De catador de papelão a empresário: a história de quem fatura R$ 100 milhões

Vamos viver de pão e água, mas eu vou me formar
O mantra que Sérgio repetia durante sete anos de faculdade enquanto vivia em quarenta metros quadrados com a família.

Menino que catava papelão em Londrina transformou-se em empresário bem-sucedido através de educação profissional e determinação pessoal. Insight Energy domina nicho tecnológico restrito, atendendo gigantes como Petrobras, Copel e hidrelétricas de Itaipu e Tucuruí.

  • Menino catador de papelão em Londrina nos anos 80, hoje empresário aos 54 anos
  • Insight Energy projeta faturar R$ 100 milhões em 2026, única empresa brasileira competitiva no nicho
  • Folha de pagamento de R$ 2 milhões mensais com 300 funcionários
  • WEG tentou adquirir a empresa em 2024, negócio não foi fechado por falta de governança internacional

Sérgio Fagundes, ex-catador de papelão nos anos 80, fundou a Insight Energy em 2010 e projeta faturar R$ 100 milhões em 2026, tornando-se única empresa brasileira competitiva em geração de energia.

Há mais de quarenta anos, uma câmera de televisão flagrou um menino de dez anos recolhendo papelão nas ruas de Londrina, no norte do Paraná. Enquanto outros adultos entrevistados naquele mesmo dia falavam sobre o peso da pobreza com resignação, o pequeno Sérgio Fagundes sorriu para a lente e carregava consigo uma certeza que o definiria: seus filhos não viveriam o que ele estava vivendo. Hoje, aos 54 anos, ele revê aquelas imagens e identifica ali o que chama de ponto de virada — não na circunstância, mas na atitude. Viu um homem ao seu lado, também catador, completamente derrotado pela vida. Entendeu naquele instante a diferença entre quem se entrega à vitimização e quem enxerga a dificuldade como algo passageiro, um obstáculo a ser contornado.

A infância de Sérgio foi marcada por privação real. Em 1975, uma geada negra destruiu os cafezais do Paraná e forçou sua família a sair do campo para a cidade, onde a incerteza era a única certeza. Filho mais velho de sete irmãos, ele conheceu a fome de verdade — muitas noites o jantar era apenas mingau de fubá com água. Aos oito anos começou a catar papelão para ajudar os pais. Mas enquanto recolhia material nas ruas, observava os filhos dos eletricistas da vizinhança e decidiu que aquele seria seu caminho de saída. Investiu em aprendizado. Fez cursos profissionalizantes, a maioria deles no Senai. Trabalhou vinte anos em uma única empresa, começando como auxiliar e saindo como engenheiro elétrico. Sua formação universitária levou sete anos — durante todo esse tempo, ele destinou metade do salário ao pagamento das mensalidades enquanto vivia com a esposa e os filhos em uma casa de apenas quarenta metros quadrados. Repetia para si mesmo um mantra que o sustentava: vamos viver de pão e água, mas eu vou me formar.

Em 2010, com um notebook velho e um plano de negócios de apenas duas páginas, Sérgio Fagundes fez o salto mais arriscado de sua vida. Deixou a estabilidade do emprego para fundar a Insight Energy, entrando em um nicho tecnológico extremamente restrito e dominado por gigantes globais como Andritz, GE e Voith. A empresa se especializou em grandes máquinas geradoras de energia, atendendo clientes do porte de Petrobras, Copel, siderúrgicas, e as próprias hidrelétricas de Itaipu e Tucuruí. Hoje, a Insight Energy é a única empresa brasileira com capacidade técnica para competir nesse mercado. O crescimento foi explosivo o suficiente para despertar o interesse da WEG, a maior empresa do setor no Brasil, que tentou adquirir a Insight em 2024. O negócio não foi fechado porque, apesar dos números impressionantes, a empresa ainda não possuía a estrutura de governança exigida para uma auditoria internacional — uma lacuna que Sérgio está corrigindo agora.

A projeção para 2026 é de faturamento de cem milhões de reais. Mas Sérgio faz questão de deixar claro que faturamento não é lucro. Nos últimos cinco anos, a empresa movimentou cerca de trezentos milhões de reais, mas boa parte desse dinheiro apenas transitou pelas contas para custear impostos, fornecedores e uma folha de pagamento de dois milhões de reais mensais — trezentos funcionários que representam, na visão dele, no mínimo trezentas famílias dependendo de sua gestão. Ele critica duramente o sistema tributário brasileiro, que classifica como um manicômio. As multas por atraso no pagamento de parcelamentos tributários chegam a vinte por cento do valor devido, o suficiente para desequilibrar o caixa e comprometer a sustentabilidade de muitos negócios. A infraestrutura nacional precária impõe custos logísticos que tornam a operação ainda mais cara. Sérgio visitou fábricas na China e nos Estados Unidos, incluindo a Tesla, e viu de perto como a tecnologia brasileira é competitiva, mas o que ele chama de custo Brasil trava o país no terceiro mundo.

Para o empresário, empreender no Brasil é como tentar atravessar um rio de correnteza forte sem saber nadar. Ele critica a falta de educação administrativa e financeira nas escolas brasileiras, o que leva muitos talentos ao fracasso por desconhecerem as áreas jurídica e tributária. Mas também combate a visão cultural que demoniza o empresário. O lucro, para ele, significa estabilidade para o profissional. Se a empresa é sólida, o funcionário trabalha com segurança. Sua mensagem para quem deseja seguir seus passos vem de quem começou com nada e construiu uma empresa de alcance nacional: acredite nos seus sonhos, descubra sua vocação e aprenda para empreender. Ele entende que para o Brasil se tornar um país de primeiro mundo, o Estado precisa pavimentar o acesso com infraestrutura e educação. Mas o empresário não pode esperar.

Ali eu entendi a diferença entre quem se vitimiza e quem encara a situação como um desafio passageiro
— Sérgio Fagundes, ao rever imagens da entrevista de televisão de sua infância
O lucro significa estabilidade para o profissional. Se a empresa é sólida, o funcionário trabalha com segurança
— Sérgio Fagundes, sobre a importância do lucro empresarial
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como você explica a diferença entre aquele menino na câmera e o outro catador que estava sendo entrevistado ao mesmo tempo?

Model

Ele parecia atropelado pela vida, murmurando e arrasado. Eu vi naquele momento que a pobreza não era o problema real — era a mentalidade. Eu podia escolher ser vítima ou podia escolher enxergar aquilo como temporário.

Inventor

Você trabalhou vinte anos em uma única empresa antes de fundar a Insight. Por que arriscou tudo?

Model

Porque percebi que tinha conhecimento suficiente para fazer algo que ninguém mais estava fazendo no Brasil. Aquele nicho era dominado por multinacionais. Alguém tinha que quebrar aquela bolha.

Inventor

A WEG tentou comprar sua empresa em 2024. Você se arrepende de ter recusado?

Model

Não foi recusa. Eles queriam uma empresa com governança internacional, e eu ainda não tinha isso. Foi um erro de gestão meu, não deles. Estou corrigindo agora.

Inventor

Você fala muito sobre o custo Brasil. Mas sua empresa cresceu mesmo assim. Isso não contradiz sua crítica?

Model

Crescemos apesar disso, não por causa disso. Imagine o que poderíamos fazer se a infraestrutura e os impostos não fossem tão predatórios. Estamos deixando potencial no chão.

Inventor

Qual é a responsabilidade que você sente com seus trezentos funcionários?

Model

Não são trezentos funcionários. São no mínimo trezentas famílias. Cada um deles tem conta de água, aluguel, filhos na escola. Minha gestão afeta a vida de milhares de pessoas.

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