Durante dezesseis anos, Francisco Everardo Oliveira Silva — o Tiririca — navegou pela política brasileira como uma figura improvável que, de algum modo, sempre encontrava seu caminho de volta ao mandato. Neste domingo, porém, o Ceará — sua terra natal — recusou-se a ser o palco de um recomeço, devolvendo ao humorista apenas 5.523 votos onde ele esperava renascer politicamente. Há algo de profundamente humano nessa trajetória: a fama construída num lugar não se transfere como bagagem para outro, e o reconhecimento, quando não é cultivado localmente, murcha antes de florescer.
De 1,3 milhão a 5 mil votos: Tiririca perde primeira eleição ao se candidatar pelo Ceará
Aqui a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto
Como alguém que foi o deputado mais votado do país consegue cair para apenas 5 mil votos?
É uma queda vertiginosa, mas ela não começou no Ceará. Tiririca já vinha em declínio desde 2014. Em São Paulo, caiu de 1,3 milhão para 71 mil em 2022. O Ceará foi só o ponto final.
Mas por que a queda em São Paulo? O texto menciona a transferência do número de urna para Eduardo Bolsonaro em 2022, mas não há dados que comprovem quanto disso foi realmente responsável pela queda.
Verdade. Tiririca atribuiu parte da queda a isso, mas é uma atribuição dele, não uma análise verificada. O que sabemos é que sua votação caiu consistentemente a cada eleição.
E por que ele achou que o Ceará seria diferente?
Ele voltava para casa, para o Estado onde nasceu. Anunciou que seria "uma felicidade imensa estar de volta ao meu Ceará". Talvez tenha subestimado quanto sua base eleitoral era específica de São Paulo.
Ou talvez tenha subestimado quanto os cearenses valorizavam candidatos locais. As reações nas redes sociais sugerem que havia uma rejeição ao candidato de fora, mesmo que fosse natural do Estado.
Exatamente. Um usuário escreveu: "aqui a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto". Havia uma narrativa de que Tiririca era um candidato superficial.
Ele tinha presença digital forte, não é? Milhões de seguidores no TikTok?
Sim, cerca de 7 milhões. Mas seus vídeos eram de humor, sem conteúdo político. Talvez não tenha convertido aquele engajamento em voto.
Ou talvez o TikTok não seja o mesmo eleitorado que vota para deputado federal. Não há dados no texto sobre a demografia de seus seguidores.
Então é uma história sobre o fim de uma carreira política?
É também uma história sobre como a fama nacional não garante votos locais. E sobre como um político que foi extraordinariamente votado uma vez pode se tornar praticamente invisível.
El Pulso
- De 1,3 milhão de votos em 2010 para 5.523 no Ceará em 2026 — a queda é tão vertiginosa que parece condensar, em números, o desgaste de uma era inteira.
- A mudança de partido, de domicílio eleitoral e até de Estado revelou a urgência de um político que sentia o chão desaparecer sob os pés desde 2014.
- Cearenses responderam nas redes com orgulho regional, recusando a lógica de que fama nacional bastaria para conquistar votos locais.
- A força digital de Tiririca — 7 milhões de seguidores no TikTok — provou ser uma moeda que não tem câmbio nas urnas.
- Sem reeleição, o humorista deixará a Câmara em janeiro de 2027, encerrando uma trajetória política que começou de forma extraordinária e termina em silêncio eleitoral.
Durante dezesseis anos, Francisco Everardo Oliveira Silva — o Tiririca — navegou pela política brasileira como uma figura improvável que, de algum modo, sempre encontrava seu caminho de volta ao mandato. Neste domingo, porém, o Ceará — sua terra natal — recusou-se a ser o palco de um recomeço, devolvendo ao humorista apenas 5.523 votos onde ele esperava renascer politicamente. Há algo de profundamente humano nessa trajetória: a fama construída num lugar não se transfere como bagagem para outro, e o reconhecimento, quando não é cultivado localmente, murcha antes de florescer.
Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, viveu neste domingo algo inédito em dezesseis anos de política: uma derrota. O humorista que em 2010 se tornou o deputado federal mais votado do Brasil — com 1,353 milhão de votos em São Paulo — recebeu apenas 5.523 votos ao tentar se eleger pelo Ceará, seu Estado natal.
A curva descendente já era visível há anos. De 1,016 milhão de votos em 2014, passou para 453 mil em 2018 e apenas 71 mil em 2022, quando terminou como o último colocado entre os eleitos em São Paulo, salvo pelo desempenho geral do partido. Tiririca atribuiu parte da queda à decisão do PL de transferir seu número de urna histórico — 2222 — para Eduardo Bolsonaro naquela eleição. Em novembro de 2025, migrou para o PSD e transferiu seu domicílio eleitoral para Itapipoca, cidade onde nasceu, apostando num recomeço.
Na Câmara, construiu um legado discreto: nunca faltou a uma votação no primeiro mandato, fez apenas seis discursos em plenário e concentrou seus projetos no universo circense. O mais relevante deles, que incluía o circo na Lei Rouanet como manifestação cultural nacional, foi aprovado em comissões mas arquivado pelo Senado em 2024. Em 2017, anunciou que não disputaria mais eleições — e voltou atrás no ano seguinte.
Sua presença digital era robusta: cerca de 7 milhões de seguidores no TikTok, onde publica humor sem política. Mas essa audiência não se converteu em votos no Ceará. Nas redes, cearenses celebraram o resultado com tom de orgulho regional. "Aqui no Ceará tiririca não ganha", escreveu um usuário. Outro completou: "Acho que ele não sabe que aqui a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto".
Tiririca não foi o único a tentar sorte fora de sua base eleitoral. Jean Wyllys obteve apenas 18 mil votos em São Paulo; Silvia Abravanel e Rachel Sheherazade ficaram em torno de 22 mil cada. Carlos Bolsonaro, por outro lado, foi eleito senador por Santa Catarina com cerca de 25% dos votos — beneficiado pelo sistema majoritário. O humorista deixará o cargo em 31 de janeiro de 2027, encerrando uma trajetória que começou de forma extraordinária e se despede em silêncio.
Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca, enfrentou neste domingo uma realidade que nunca havia experimentado em sua carreira política: a derrota nas urnas. O humorista, que em 2010 se tornou o deputado federal mais votado do Brasil com 1,353 milhão de votos em São Paulo, recebeu apenas 5.523 votos ao tentar se candidatar pelo Ceará, seu Estado natal. É a primeira eleição que perde desde que ingressou na política dezesseis anos atrás.
A trajetória de Tiririca na Câmara dos Deputados começou de forma extraordinária. Aquele resultado de 2010 foi o segundo maior para o cargo na história do país, superado apenas por Enéas Carneiro em 2002. O desempenho expressivo funcionou como um efeito multiplicador para seus companheiros de coligação, ajudando a eleger candidatos que individualmente tiveram votações modestas. Mas desde então, a curva foi apenas descendente. Em 2014, recebeu 1,016 milhão de votos. Quatro anos depois, 453 mil. Em 2022, quando se candidatou pela última vez em São Paulo, conseguiu apenas 71 mil votos e terminou como o último colocado entre os eleitos, ocupando a vaga graças ao desempenho geral do partido.
O próprio Tiririca atribuiu parte dessa queda a uma decisão do PL em 2022: o partido transferiu o número de urna 2222, que ele utilizava desde sua primeira eleição, para o deputado Eduardo Bolsonaro. Na época, o humorista afirmou que isso era como transferir boa parte de seus votos para Bolsonaro. Diante dessa trajetória de declínio, decidiu tentar um recomeço. Em novembro de 2025, deixou o PL, se filiou ao PSD e transferiu seu domicílio eleitoral para o Ceará, o Estado onde nasceu em Itapipoca.
Na Câmara, Tiririca construiu um legado discreto mas consistente. Nunca faltou a uma sessão de votação em seu primeiro mandato, mas fez apenas seis discursos em plenário desde 2011. Seus projetos concentraram-se principalmente no circo, ambiente que marcou sua infância e sua carreira artística. O mais importante deles alterava a Lei Rouanet para reconhecer a atividade circense como manifestação cultural nacional. Aprovado pelas comissões em 2017, foi arquivado pelo Senado em 2024. Seu discurso mais memorável veio em 2017, quando anunciou estar decepcionado com a política e disse que não disputaria outra eleição. Voltou atrás no ano seguinte.
Fora do plenário, Tiririca construiu uma presença digital significativa. Segundo levantamento da Nexus divulgado em julho, ele possui cerca de 7 milhões de seguidores no TikTok, onde publica vídeos de humor sem conteúdo político. É o quarto parlamentar com maior engajamento na plataforma. Essa força nas redes, porém, não se converteu em votos no Ceará.
A derrota gerou reações nas redes sociais, muitas delas com tom de orgulho regional. Usuários que se identificavam como cearenses celebraram o resultado. Um deles escreveu: "Aqui no Ceará tiririca não ganha". Outro afirmou: "Tiririca veio se candidatar no Ceará, acho que ele não sabe que aqui a gente estuda e pesquisa antes de dar um voto". As mensagens sugeriam que eleitores locais não se deixaram influenciar pela fama nacional do candidato.
Tiririca não foi o único nome conhecido a buscar votos longe de sua base eleitoral nesta eleição. O ex-deputado Jean Wyllys, que tinha três mandatos pelo Rio de Janeiro quando filiado ao PSOL, tentou uma vaga pela Câmara em São Paulo e recebeu 18 mil votos, insuficientes para se eleger. Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e vereador do Rio por sete mandatos, transferiu seu domicílio para Santa Catarina e foi eleito senador com cerca de 25% dos votos, beneficiado pelo sistema majoritário da eleição para o Senado. Outras celebridades também ficaram sem mandato: a apresentadora Silvia Abravanel e a jornalista Rachel Sheherazade, ambas do PSD, receberam cerca de 22 mil votos cada uma em São Paulo. O apresentador José Luiz Datena, o cantor Netinho de Paula, o funkeiro MC Gui e Manoel Gomes, o Caneta Azul, também não se elegeram.
Tiririca deixará o cargo ao fim da legislatura atual, em 31 de janeiro de 2027. Sua tentativa de revitalizar a carreira política em seu Estado natal terminou em um resultado que nenhum de seus quatro mandatos anteriores havia produzido.
Citas Notables
Isso é como transferir boa parte dos meus votos para Eduardo Bolsonaro— Tiririca, sobre a transferência do número de urna 2222 em 2022
É uma felicidade imensa estar de volta ao meu Ceará e, se Deus quiser, vamos fazer um mandato sensacional agora com o apoio do PSD— Tiririca, em nota do PSD após transferência para o Ceará