Num outubro em que o mundo assinala o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, a médica Conceição Pires, do Núcleo de Estudos de Medicina Paliativa da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, lembra que cuidar do sofrimento é também uma forma de cuidar da vida. O seu apelo é simples e exigente: que este tipo de acompanhamento chegue a todos os que dele precisam, seja qual for a doença, a idade ou o lugar onde vivem. Num tempo marcado pela pandemia e pela guerra na Europa, a mensagem ganha um peso particular, lembrando que a dignidade de quem sofre não pode depender de circunstâncias acidentais.
Cuidados paliativos de excelência, universais e acessíveis: um apelo para que ninguém fique para trás
Não há vidas que importam mais do que outras
Qual é, afinal, a ideia central deste artigo?
Que os cuidados paliativos não são só para o fim da vida nem só para o cancro. Conceição Pires quer que cheguem a quem sofre com doença avançada, seja qual for a idade, o diagnóstico ou o lugar onde viva.
Que doenças menciona?
Diabetes avançada, doença cerebrovascular, insuficiência cardíaca, renal e respiratória, e demência avançada. Fala também de crianças e jovens.
Convém lembrar que é um artigo de opinião. Descreve o que os cuidados deviam ser, não mede como Portugal está hoje.
Ou seja, não há dados de cobertura?
Nenhum. Não há números sobre quantos doentes têm acesso ou ficam de fora. O apelo à equidade assenta numa convicção, não numa estatística.
Mas o apelo é concreto: levar os cuidados ao domicílio, aos lares, às urgências, às aldeias e ao interior.
E o tema deste ano, o luto?
Liga-o à pandemia, que sobrecarregou os sistemas de saúde, e às guerras na Europa. O apoio estende-se à família depois da morte.
Essa ligação é leitura da autora. O texto não mostra, por exemplo, mais pedidos de apoio no luto.
Der Puls
- Cuidar do sofrimento deixa de ser um privilégio de poucos e torna-se uma exigência de todos.
- Muitos doentes com insuficiência cardíaca, demência ou doenças crónicas ainda ficam fora de um apoio que lhes é devido.
- Equipas interdisciplinares procuram levar o cuidado para o domicílio, os lares, as urgências e as aldeias do interior.
- O luto agravado pela pandemia e pelos conflitos europeus pede que o apoio se prolongue para lá da morte.
- O caminho aponta para uma universalidade ainda por cumprir, sustentada por associações como a APCP.
Num outubro em que o mundo assinala o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, a médica Conceição Pires, do Núcleo de Estudos de Medicina Paliativa da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, lembra que cuidar do sofrimento é também uma forma de cuidar da vida. O seu apelo é simples e exigente: que este tipo de acompanhamento chegue a todos os que dele precisam, seja qual for a doença, a idade ou o lugar onde vivem. Num tempo marcado pela pandemia e pela guerra na Europa, a mensagem ganha um peso particular, lembrando que a dignidade de quem sofre não pode depender de circunstâncias acidentais.
A 8 de outubro, Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, a médica Conceição Pires assinou um artigo de opinião a defender que estes cuidados cheguem a quem deles precisa. Integrada no Núcleo de Estudos de Medicina Paliativa da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, a autora associa-se a uma iniciativa internacional que pretende divulgar e reforçar estes cuidados no mundo.
O objetivo, explica, é dignificar a vida: prevenir e aliviar o sofrimento, preservar a autonomia e ajustar cada intervenção às necessidades de cada doente. A abordagem é global, atenta ao corpo, à mente e ao espírito, e envolve uma equipa preparada para responder também aos aspetos sociais, emocionais e espirituais. Estende-se à família durante toda a doença e continua depois da morte, no apoio ao luto.
O texto desfaz ideias feitas. Estes cuidados não são apenas para doentes oncológicos nem para o fim da vida, e servem quem convive com doenças crónicas e incuráveis, como a insuficiência cardíaca ou a demência avançada. Quanto mais cedo surgirem, mais eficazes tendem a ser. E devem chegar a crianças, jovens e adultos, em casa, nos lares, no ambulatório ou nas urgências, tanto nas cidades como nas aldeias.
Para 2022, o tema escolhido, "Cuidar/curar corações e comunidades", coloca o foco no luto, agravado por uma pandemia que sobrecarregou os sistemas de saúde e por uma guerra na Europa que ninguém julgava possível. O artigo fecha com a reivindicação de cuidados paliativos de excelência, universais, acessíveis e equitativos.
A 8 de outubro assinala-se o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, e foi a propósito da data que a médica Conceição Pires, elemento do Núcleo de Estudos de Medicina Paliativa da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, assinou um artigo de opinião a defender que estes cuidados cheguem a todos os que deles precisam.
A iniciativa, conhecida pela sigla WHPCD (World Hospice and Palliative Care Day), é promovida pela World Hospice and Palliative Care Alliance, o movimento dos hospices e dos cuidados paliativos, e pretende celebrar e apoiar a divulgação e a implementação destes cuidados no mundo. Em Portugal, várias entidades ligadas à área associam-se à efeméride. Entre elas está a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, através do seu núcleo de estudos, o NEMPal, que procura realçar o papel dos cuidados paliativos na autonomia e na qualidade de vida de doentes e famílias com doenças avançadas e progressivas, e lutar por um acesso equitativo.
Segundo a autora, o objetivo é dignificar a vida: prevenir e aliviar o sofrimento, promover a máxima autonomia e ajustar as intervenções às necessidades de cada doente. A abordagem é holística, com atenção ao corpo, à mente e ao espírito, e abrange os aspetos físicos, sociais, emocionais, culturais, espirituais e intelectuais, através de uma equipa interdisciplinar com treino adequado. Os cuidados centram-se no doente, respeitam os seus valores e preferências, garantem informação clara e compreensível para a tomada de decisão e respondem às necessidades de conforto físico e suporte emocional. Dirigem-se ao doente e à família durante toda a evolução da doença e prolongam-se para lá da morte, no apoio ao luto.
Conceição Pires dedica boa parte do texto a desfazer ideias feitas. Os cuidados paliativos não são só para doentes com cancro: servem também quem vive com doenças crónicas e incuráveis que limitam a qualidade de vida, como a diabetes avançada, a doença cerebrovascular avançada, a insuficiência cardíaca, renal ou respiratória e a demência avançada. Não substituem as medidas dirigidas ao controlo da doença, devendo articular-se com tratamentos adequados, na medida do maior benefício para o doente e com respeito pelas suas preferências.
Também não se reservam a quem está em processo ativo de morte. Quanto mais cedo se identifica a necessidade de apoio, defende a médica, mais eficaz é a intervenção. Nem se destinam apenas a adultos: muitas crianças, adolescentes e jovens, e as suas famílias, convivem diariamente com doenças crónicas limitadoras da vida. E não devem ficar confinados a hospitais ou unidades de internamento, mas chegar a todos os locais onde estão os doentes: o domicílio, os lares, o ambulatório, o serviço de urgência, nas cidades e nas aldeias, no litoral e no interior.
O princípio da universalidade vem do lema do ano anterior, "porque todos importam", que reforçava o acesso equitativo. Os cuidados paliativos destinam-se a todos os que sofrem por doença avançada, independentemente da idade, do diagnóstico, do tempo de vida, dos valores, credos e crenças, da cor da pele, da orientação sexual ou da localização geográfica.
Para 2022, o tema proposto pela WHPCD é "Cuidar/curar corações e comunidades" (Healing Hearts and Communities), centrado em apoiar quem vive a perda e o luto. A autora liga-o ao contexto pós-pandémico, que sobrecarregou os sistemas de saúde e causou aos profissionais um sofrimento e uma sensação de impotência sem precedentes, e aos conflitos e guerras pelo mundo, em particular na Europa, que os europeus não equacionavam como possibilidade real.
O artigo junta ainda a voz do NEMPal à da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP), que há muitos anos promove iniciativas, incluindo a divulgação do Dia Mundial. Este ano, a APCP adota o lema "A Tua Vida Importa-nos" e entende, cita a autora, que não há vidas que importem mais do que outras. O texto fecha com a reivindicação de cuidados paliativos de excelência, universais, acessíveis e equitativos.
Bemerkenswerte Zitate
Não há vidas que importam mais do que outras; a dignidade e o respeito pela vida humana unem todos em compaixão.— Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, citada por Conceição Pires