Todos os 70 países analisados citaram paz e segurança, com preocupações sobre guerras na Ucrânia e Oriente Médio; 55 países pediram reforma da ONU, incluindo restrição ao poder de veto. Inteligência artificial foi mencionada por 49 lideranças como transformação histórica, enquanto 59 países alertaram sobre mudanças climáticas como ameaça existencial.
Críticas duras, ameaças e momentos curiosos marcam 81ª Assembleia Geral da ONU
Ele é o paciente zero. De quem essa ideia de guerra continua se espalhando.
Como é que 70 países diferentes chegam a um consenso sobre qualquer coisa numa assembleia assim?
Eles não chegam. O que você vê é cada um falando para sua própria plateia em casa, usando o microfone da ONU. Mas o fato de todos os 70 mencionarem paz e segurança mostra que há um pano de fundo real — as guerras estão afetando todo mundo de alguma forma.
Espera aí. Todos os 70 mencionaram? Isso é uma análise de 70 discursos, não de 193 países membros. Qual é a amostra?
Verdade. O G1 analisou 70 discursos entre terça e quarta-feira. Não é o universo inteiro.
E por que a IA apareceu em 49 discursos mas mudanças climáticas em 59? Isso significa que clima é mais importante?
Não necessariamente. Pode ser que clima seja mais fácil de mencionar — todo mundo sofre com eventos extremos. IA é mais nova como tema de debate internacional, então talvez nem todos os líderes estejam preparados para falar sobre ela.
Ou alguns países simplesmente não têm capacidade tecnológica para se preocupar com IA quando estão lidando com conflitos armados.
Milei chamou a ONU de inútil. Ele tem razão?
Ele tem um ponto sobre as Malvinas — a ONU aprovou resoluções, mas o Reino Unido não obedeceu. Mas chamar a organização inteira de inútil é uma simplificação.
E ele espalhou teorias sobre Covid sem provas. Isso deveria contar contra a credibilidade dele quando ele critica a ONU?
Deveria, mas provavelmente não vai. Seus apoiadores em casa vão ouvir a crítica à ONU e ignorar o resto.
Trump ameaçou aniquilar o Irã, mas depois disse que negociações estavam indo bem. Como isso funciona?
É diplomacia de confronto. Você ameaça, depois oferece uma saída. Mostra força para seu eleitorado, mas deixa espaço para negociar.
Mas ninguém sabe se as negociações realmente estão indo bem ou se Trump estava apenas fazendo barulho. Ele disse que foram "muito boas", mas não há detalhes públicos.
E Lula criticando os "tecno-oligarcas"? Isso é uma crítica real ou retórica?
É ambos. Ele está certo que grandes empresas de tecnologia têm poder desproporcional. Mas a forma como ele enquadra — como uma conspiração de um grupo específico — é mais retórica que análise.
E o Brasil não faz parte do "Escudo das Américas" contra narcotráfico, mesmo sendo um dos maiores afetados. Isso deveria estar mais em destaque na história.
O Pulso
- Todos os 70 países analisados mencionaram paz e segurança; 55 pediram reforma da ONU
- 49 lideranças citaram inteligência artificial; 59 alertaram sobre mudanças climáticas
- Zelensky acusou Putin de usar soldados de 47 países na guerra contra a Ucrânia
- Trump classificou cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras; duas facções brasileiras estão na lista
- Nauru mudou oficialmente seu nome para Naoero; presidente pediu reconhecimento mundial
Todos os 70 países analisados citaram paz e segurança, com preocupações sobre guerras na Ucrânia e Oriente Médio; 55 países pediram reforma da ONU, incluindo restrição ao poder de veto. Inteligência artificial foi mencionada por 49 lideranças como transformação histórica, enquanto 59 países alertaram sobre mudanças climáticas como ameaça existencial.
A 81ª Assembleia Geral da ONU foi marcada por críticas severas à organização, preocupações com IA e tensões militares, com líderes como Zelensky, Trump e Lula fazendo discursos contundentes sobre segurança global e regulação tecnológica.
A 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada entre 22 e 23 de setembro, transformou-se num palco de confrontos diretos, críticas severas à própria organização e alertas sobre ameaças globais que vão da inteligência artificial às guerras em curso. Setenta discursos foram proferidos durante o evento, e em cada um deles ecoavam preocupações com segurança, reformas institucionais e o avanço tecnológico sem freios éticos. Mas entre as falas contundentes também houve momentos que revelaram a personalidade dos líderes — um primeiro-ministro vendendo uma cidade futurista, um presidente corrigindo a pronúncia do nome de seu país, acusações de conspiração e ameaças diretas de aniquilação.
Todos os setenta países analisados mencionaram paz e segurança de alguma forma, refletindo a gravidade das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, além de conflitos locais na África, narcotráfico e violações do direito internacional. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky foi particularmente duro com Vladimir Putin, chamando-o de "paciente zero" da guerra — aquele de quem a ideia de conflito continua se espalhando pelo mundo, levando dor e instabilidade aonde quer que chegue. Zelensky afirmou que Putin planeja expandir a guerra pela Europa e que russos usam soldados de 47 países no conflito contra a Ucrânia. Segundo o líder ucraniano, agências de inteligência alertam que a Rússia pode avançar até mesmo em território da Otan.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, adotou tom igualmente ameaçador, mas direcionado ao Irã. Ele afirmou que poderia "aniquilar" o país caso não chegasse a um acordo sobre armas nucleares, oferecendo ao mesmo tempo a possibilidade de reconstrução. Horas depois do discurso, Trump informou que autoridades iranianas e americanas haviam se reunido por três horas para negociar, descrevendo o encontro como "muito bom". Trump também classificou cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras e autorizou o uso das Forças Armadas americanas para combatê-los, incluindo duas facções brasileiras em sua lista.
A própria ONU foi alvo de críticas severas. Javier Milei, presidente da Argentina, chamou a organização de "inútil" e afirmou que ela serve apenas para "alimentar uma casta de parasitas arrogantes, disfarçados de burocratas bem-intencionados". Milei citou o exemplo das Malvinas, território disputado entre Argentina e Reino Unido, para questionar a capacidade da ONU de fazer valer suas próprias resoluções. O argentino também espalhou teorias sobre a pandemia de Covid-19, afirmando sem apresentar provas que o isolamento social foi parte de um "experimento global de controle social disfarçado de ciência".
Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou seu discurso para criticar o que chamou de "tecno-oligarcas" — grandes empresas de tecnologia que tentam impor um ultraliberalismo digital sem regras ou transparência. Lula defendeu a regulação ética da inteligência artificial sob liderança da ONU e alertou que seria uma "omissão histórica imperdoável" não enfrentar esse desafio. Ele também criticou a indústria das apostas esportivas, afirmando que transforma o vício em lucro e está endividando e destruindo lares no Brasil.
Inteligência artificial foi mencionada diretamente por 49 lideranças, apresentada como uma das maiores transformações da história da humanidade, mas também como fonte de riscos relacionados a usos militares. Mudanças climáticas apareceram nos discursos de 59 países, apontadas como ameaça existencial, especialmente por nações insulares, africanas, latino-americanas e europeias que destacaram impactos de eventos extremos. Argentina e Estados Unidos adotaram posicionamento negacionista sobre o tema. Cinquenta e cinco países pediram reformas na ONU, incluindo expansão do Conselho de Segurança e restrição ao poder de veto concedido a Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
Entre os momentos curiosos, o presidente de Nauru, David Adeang, dedicou parte de seu discurso a corrigir a pronúncia do nome de seu país. Explicou que "Nauru" foi a forma como estrangeiros passaram a chamar o território, mas que a população local sempre usou "Naoero". Adeang pediu ao mundo que reconhecesse e respeitasse essa identidade restaurada, afirmando que "pode parecer uma pequena cortesia, mas significa muito em casa". O primeiro-ministro do Butão, Tshering Tobgay, surpreendeu ao dizer que não estava na ONU como governante, mas como "vendedor", apresentando a Gelephu Mindfulness City, uma cidade planejada que reuniria empreendedores e monges, inteligência artificial e consciência humana, centros de dados e centros de meditação.
O narcotráfico e crime organizado foram citados por pelo menos dez países — Brasil, Equador, Honduras, Jordânia, Panamá, Peru, Seicheles, Síria, Trinidad e Tobago, além dos Estados Unidos. Os países levantaram a necessidade de cooperação internacional e defenderam o "Escudo das Américas", iniciativa dos EUA para combater o narcotráfico na América Latina, da qual o Brasil não faz parte. A Assembleia deixou claro que a comunidade internacional enfrenta um momento de tensão extrema, com líderes questionando a efetividade das instituições globais enquanto alertam sobre ameaças que exigem justamente essa cooperação multilateral.
Citações Notáveis
Ele se transformou em uma organização inútil que só serve para alimentar uma casta de parasitas arrogantes, disfarçados de burocratas bem-intencionados— Javier Milei, presidente da Argentina, sobre a ONU
Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio de regulamentar as big techs e a inteligência artificial— Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil